ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

10/12/2010

Um cheirinho a brilhantina






Por: Armindo Guimarães

Facebook


Era de manhãzinha e o sol já batia forte e risonho.

Lá foi ele de sacola de pano ao ombro para o fim do mundo, a setenta quilómetros de casa. A mãe deixou-o na camioneta onde já estavam outros meninos e meninas. Alguém o fez ocupar um lugar, não à janela como ele tanto queria, mas ao lado de uma menina da sua idade e cujos cabelos deixavam no ar um cheirinho a brilhantina que lhe entrava pelas narinas adentro. Durante a viagem até ao fim do mundo, o menino e a menina pouco ou nada disseram, excepto quando faziam coro com os outros meninos, cantando:

“Senhor chauffeur, por favor, carregue mais no acelerador! E vinte e sete, e vinte e sete, e vinte e sete, bibó chauffeur da camionete!”.

Finalmente e para contentamento geral, a camioneta chegou ao fim do mundo e todos saíram dos seus lugares ansiosos por calcarem terra, qual Cabral pisando Terras de Vera Cruz e qual Armstrong pisando solo lunar.

Ele e a menina só se viram no dia seguinte, vestidos com as roupas das colónias de férias. Ele, com uma espécie de fato-macaco até aos joelhos, de tecido aos quadradinhos azuis e brancos. Ela, com um vestido também até aos joelhos, igualmente de tecido aos quadradinhos, não azuis mas vermelhos e brancos.

Era a hora do recreio e enquanto toda a meninada corria e gritava jogando à bola, andando de baloiço ou de escorrega, ele, a um canto, limitava-se a observar os outros brincando, quando, de repente, olha para o lado e viu que não estava só: a cinco metros estava a menina que com ele tinha viajado na camioneta. Olharam-se nos olhos e sorriram. Ela tirou da sua sacola 6 pedrinhas coloridas, 3 vermelhas e 3 azuis, convidando o menino para um jogo a dois. Ele sorriu de contente lembrando-se que era o melhor da sua rua naquele jogo.

Desde então, nos recreios, os dois meninos gostavam era de brincar às pedrinhas, sempre alheios às brincadeiras dos outros meninos correndo e gritando.

No dia em que deixaram o fim do mundo e a camioneta os levou de regresso a casa, o menino e a menina sentaram-se mais uma vez lado a lado, com a diferença que, desta vez, a menina disse para o menino: “Queres ir tu à janela?” e o menino de imediato respondeu: “Quero!”. Mas ainda hoje o menino se interroga para quê, pois durante toda a viagem só via era a menina.

Por vezes, uma breve brisa vinda da janela entreaberta levantava ao de leve os sedosos e delicados cabelos da menina, impregnando no ar à sua volta um familiar e delicado odor a brilhantina.

“Senhor chauffeur, por favor, carregue mais no acelerador! E vinte e sete, e vinte e sete, e vinte e sete, bibó chauffeur da camionete!”.

Por fim, a camioneta parou e todos se beijaram e abraçaram com a alegria da chegada.

“E vinte e sete, e vinte e sete, e vinte e sete, bibó chauffeur da camionete!”.

Contudo, a alegria da chegada foi para o menino e para a menina a tristeza da despedida. Não houve um beijo, não houve um abraço, não houve um adeus, mas apenas uma troca de olhares presenciada pelo mesmo sol que os viu partir e que os viu chegar.

Chegou a noite e com ela o cansaço. Nos braços de Morfeu dormiu o menino.

De manhã, ao despertar, o menino viu a seu lado a sacola de pano que a sua mãe havia despejado de toda a saudade nela guardada.

Junto à sacola, três pedrinhas vermelhas olhavam-no sorrindo e um cheirinho a brilhantina entrou no seu quarto.
.
Para abrilhantar “Um cheirinho a brilhantina”, o autor roubou este vídeo a Madulages.

Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

6 comentários:

  1. Padrinho queridooooo!!! Você me emocionou!!!
    Que texto liiiindo, que delicadeza, que coisa mais tocante...
    Você me fez viajar junto, ver toda cena se desenrolando com tanto carinho, com tanto cheirinho bom de brilhantina.
    E me fez lembrar também do meu primeiro amor.
    Eu estudava em uma escola de irmãs, o Sacré-couer de Marie onde só estudavam meninas.
    Em frente o Sacré-couer de Jesus onde só estudavam meninos.
    Na saída da aula era aquela alegria, podíamos ver os meninos e irmos andando até o ponto de ônibus juntos. E lá estava ele, o Anderson...Menino lindo e que estudava piano, tocava muito bem apesar da pouca idade,tinha 11 anos e eu 10.
    Quando ele fez 12 anos me convidou para sua festinha de aniversário, e quando eu cheguei lá quem ganhou o presente fui eu...Ele havia preparado uma música para mim, tocou me olhando o tempo todo...A música era Claire de Lune!
    E assim tornou-se público o nosso "namoro", rs
    Mas naquele mesmo ano o pai dele que era bancário foi transferido para outro estado, e nunca mais eu vi meu pianista, meu primeiro amor! Mas guardo na lembrança os momentos doces e alegres daquelas tardes na saída do Sacre-Couer!

    Criança também ama!!!

    Feliz dia das crianças a todas as crianças do mundo!
    Que Nossa senhora Aparecida proteja a todos!

    Beijos azuisss...Cintilantes e nostálgicos!

    ResponderEliminar
  2. Olá maninho querido!

    Amo esse conto seu, é de nos levar à emoção.Principalmente se a gente teve um amor assim, parecido...

    Ah! A infância! Que fase boa da vida.
    Por isso crianças aproveitem, e curtam muito. Pulem, corram, cantem, divirtam-se.E porque não, uma paquerinha também vai bem.

    Que vocês todas, crianças amadas, tenham um Feliz Dia das Crianças.

    Parabéns maninho, pelo conto lindo e porque você é, também um pouco criança.

    Lindo também o vídeo, que essa criança grande, e sabida, "filou" do Madu Lages...eheheheheh

    Beijos maninho,
    Carmen Augusta

    ResponderEliminar
  3. Ola! Amigão do peito!

    Tem jeito não. Vc quer ver todo mundo chorar mesmo.

    É covardia, tá?

    Se vc souber que eu lembro até hoje de um rapaz em minha terra que se chamava João e que tinha esta mesma sacola, nem vai acreditar.

    Imaginei que fosse ele o protagonista, sá.

    Ficou extremamente fixe!

    És uma criança do carago, pá!

    Abraços!

    ResponderEliminar
  4. Olà pà!como tu deves imaginar eu tambem fiquei emocionado com a historia do cheirinho a brilhantina.E o mais engraçado é que parece que toda a gente vivei essa historia.Mas é verdade eu tambem me lembro muito bem quando comecei a ter aquelas sensaçoes diferentes das outras quando alguma miuda fazia atençao a mim, e bastava e gente sentir-se bem junto com alguma jà dizia-mos que era o nossa moça ou namorada.Esta coisas aindas as vivi em Portugal,mas como tu sabes vim logo pra França e por isso nao cheguei ao casamento nao era papo pra mim.Abraços.O Mindo! o miudo com as pedrinhas na foto nao es tu?olha que eu nao apostava! e a historia tambem se parece com o teu carater.Mas oha bem como tu mudaste pà!o tempo faz coisas do baril!um abraçao

    ResponderEliminar
  5. Olá, meus queridos Amigos!

    Muito obrigado pelos vosso comentários.

    Gostei muito!

    Tem um pormenor na foto que não sei se toparam: na sacola tem um nome gravado.

    Isolino

    O meu segundo nome.

    Era como me chamavam na escola. eheheheheh

    Abraços

    ResponderEliminar
  6. Querido Armindo!

    Mesmo tendo passado tanto tempo, estava a reler esse belíssimo Conto, Um cheirinho a brilhantina, e a emoção sempre se repete intensamente.
    É recheadinho de ternura, carinho, meiguice e amor, que vem a mexer com os nossos sentimentos a tocar o nosso coração.
    É maravilhosa a forma como escreves, sinto-me envolvida, vivendo junto cada cena, a riqueza de detalhes, me fizeram sentir como se eu fosse parte da história.
    Adoro todos os teus trabalhos, és super talentoso, inteligente e muito culto, sabes nos prender a leitura desde a primeira palavra e muito lamento quando chego ao final, fica sempre o gostinho de quero mais...
    O vídeo é maravilhoso, fixe, muito fixe!
    Tudo perfeito, lindo, tocante e muito emocionante!
    Adorei!
    Querido Menino Armindo, parabéns por tua inspiração e obrigada por toda essa emoção!
    Eu te admiro demais!

    Beijinhos
    Alba Maria
    Tua fã nº 01

    ResponderEliminar

MÚSICA LUSÓFONA

OS NOSSOS REDATORES PERMANENTES

OS NOSSOS REDATORES PERMANENTES - Clique para ver o perfil