Chapas Sínicas inscritas na UNESCO documentam convivência sino-portuguesa

Ajuste entre o pedreiro Rong Ping e o procurador de Macau,
 António Vicente Rosa, sobre o tomar por empreitada as obras de 
reparação da parede de uma residência oficial. 
Portugal, Torre do Tombo, Documentos em Chinês, 
Chapas sínicas, mç. 10, n.º 1437

A historiadora Tereza Sena considerou que as Chapas Sínicas, que na segunda-feira foram inscritas na UNESCO, documentam a "permanência consentida" dos portugueses em Macau e a sua negociação com o império, numa cidade onde as duas comunidades coabitavam.

"As Chapas Sínicas são um conjunto documental extremamente importante para a história de Macau, mas não só, também como testemunho do que foi realmente a vivência de Macau durante um período bastante lato da sua história", disse à Lusa a investigadora do Centro de Estudos das Culturas Ocidentais do Instituto Politécnico de Macau.

Segundo o Instituto Cultural (IC), estas 'chapas', inscritas no Registo da Memória do Mundo da UNESCO, compreendem um total de 3.600 documentos, incluindo mais de 1.500 ofícios redigidos em chinês, cinco livros de cópias traduzidos para português das cartas trocadas entre a autoridade municipal portuguesa (Leal Senado) e o império chinês, e quatro volumes de documentos diversos.

Esta documentação, referente ao período entre 1693 e 1886, encontra-se na Torre do Tombo, em Lisboa, e a sua inscrição na UNESCO é fruto de uma candidatura conjunta de Macau e Portugal.

Durante este período, que é anterior "à afirmação colonial, que só se fará no século XIX", chineses e portugueses coabitavam na cidade, e imperava uma jurisdição mista.

"O que penso que pode ser importante, não só do ponto de vista histórico, mas para a humanidade em si, é como durante três séculos duas comunidades dominantes coabitam num espaço, regulam-se pelas suas próprias leis e têm uma coexistência pacífica", apesar de momentos de tensão, explicou a historiadora, referindo-se a um período mais alargado do que o dos documentos agora classificados.

As 'chapas' -- assim chamadas devido ao carimbo que lhes era colocado -- são "um conjunto de documentos em chinês que corresponde à correspondência oficial trocada entre os mandarins, os oficiais chineses da zona circunvizinha, de que Macau dependia administrativamente, e o seu interlocutor, a única autoridade que os oficiais chineses reconheciam: o procurador do Senado".

Este procurador "dialogava com as autoridades chinesas" que se "dirigiam a ele como o representante, a cabeça dos portugueses", contando com o apoio de um corpo de tradutores, segundo Tereza Sena.

A historiadora sublinhou que, da leitura destes documentos, emergem detalhes sobre a "permanência consentida" dos portugueses em Macau e muita informação sobre a cidade. "Podemos ver o aprovisionamento diário, que se fazia através do procurador, a subsistência da cidade, preços. Tem que ver não só com o aspeto político, mas com a vida da cidade", disse.

No entanto, acima de tudo, "dão-se ordens": "Havia uma série de regras básicas. Não se podem construir casas novas, não se podem fazer obras sem autorização, etc. Porquê? A lógica chinesa é que havia um interposto mercantil, todos beneficiam do negócio, os estrangeiros podem lá viver, dentro de uma série de regras".

Sena explicou que só no século XVIII é que Portugal começa a preocupar-se com a tradução das 'chapas', quando é imposto em Macau o Código de Qianlong, a partir de 1749, "um momento muito complicado nas relações luso-chinesas, porque há uma afirmação que tem que ver com a própria estruturação interna do império chinês, de que a jurisdição terá que ser regulamentada de acordo com as leis do império".

Ao mesmo tempo, emergem na região presenças ocidentais "concorrentes comercialmente em Macau" e "começa a haver uma preocupação muitíssimo grande em encontrar um documento legitimador da posse de Macau".

As 'chapas' são então traduzidas e, apesar de se ter "perdido o rasto" da sua saída de Macau, "a certa altura [século XIX] elas aparecem em Portugal".

Segundo o IC, para celebrar a inscrição das Chapas Sínicas no Registo da Memória do Mundo vão ser organizadas exposições dos documentos em Macau, em 2018, e em Lisboa, em 2019, estando também prevista a emissão de selos comemorativos nos dois locais.

In DN
Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

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