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1/22/2020

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Leta Hong Fincher mostra por que o futuro da China depende das mulheres


A socióloga Leta Hong Fincher define a prisão do Quinteto Feminista, em 2015, como fundador de 
      como fundador de um novo feminismo chinês.
Crédito: Reprodução (Matrix Editora)

Livro “Enfrentando o Dragão”, indicado como um dos melhores de 2018 pelas revistas Vanity Fair e Newsweek, chega ao Brasil pela Matrix Editora

Um novo feminismo surge nas redes e nas ruas na China. Esse é o tema do livro Enfrentando o Dragão – O Despertar do Feminismo na China, da jornalista e socióloga sino-americana Leta Hong Fincher, recém-lançado no Brasil pela Matrix Editora (264 páginas, R$ 54). A obra tem prefácio assinado pela jornalista Sonia Bridi, que atuou durante muito tempo como correspondente internacional na China. No país mais populoso do planeta, na segunda maior economia do globo, com a maior mão-de-obra feminina do mundo, o futuro da China depende das mulheres. Segundo a autora, a arbitrariedade da prisão de ativistas feministas, o medo, a rígida censura digital governamental a posts e páginas como Vozes Feministas, a perseguição e a violência, em vez de silenciar as mulheres chinesas, teve o efeito inverso: reacendeu a luta pela igualdade de gênero no país.

O livro parte de um episódio específico, mas vai muito além dele para traçar um panorama da situação das mulheres na China contemporânea. Na véspera do Dia Internacional da Mulher de 2015, cinco mulheres foram detidas em Pequim sob a acusação de atividades subversivas. O “crime”: elas tinham planejado distribuir material de protesto contra o assédio sexual nos transportes públicos. O caso acabou tomando proporções mundiais e a hashtag #FreeTheFive inundou as redes sociais chinesas Weibo e WeChat e repercutiu internacionalmente no Twitter, Facebook e Instagram – todos proibidos na China. Depois de 37 dias de detenção e de pressão social, elas foram libertadas. As militantes presas tornaram-se ícones feministas e motivo de inspiração para outras mulheres mundo afora.

Até mesmo para Leta Hong Fincher. Diante do relato tão contundente das militantes chinesas, a própria autora tomou coragem para revelar – no livro – um trauma que sofreu na adolescência, foi vítima de abuso sexual. Filha de mãe chinesa (uma linguista) e de pai americano (um diplomata), Leta Hong Fincher cresceu entre China, Hong Kong e diversos países. Fluente em mandarim, doutora em Sociologia pela Universidade de Tsinghua, em Pequim, na China, tem vários estudos sobre o país, como Leftover Women: The Resurgence of Gender Inequality in China (As Mulheres Que Sobraram: o Ressurgimento da Desigualdade de Gênero na China, 2014), livro que ganhou vários prêmios de política externa e ainda sem edição em português. Como jornalista e correspondente internacional, já escreveu para o New York Times, Washington Post, The Guardian, BBC e CNN, entre outros. Ganhou o prêmio Sigma Delta Chi da Society of Professional Journalists por suas reportagens na China. Atualmente é professora do Instituto de Estudos do Leste Asiático da Universidade Columbia, em Nova York, onde mora.

Por meio de entrevistas com as cinco feministas e outras ativistas importantes, em Enfrentando o Dragão, Leta Hong Fincher realça este momento como fundador de um novo feminismo chinês e capaz de resgatar os próprios princípios da China revolucionária. No início do século XX, o Partido Comunista Chinês apoiou-se no sonho revolucionário da liberação feminina e no princípio da igualdade entre homens e mulheres. Mao Tsé-Tung chegou a descrever a sociedade chinesa como intrinsicamente violenta com as mulheres, “uma relação de estupro diário”. Seu sonho era liberar as mulheres por meio do trabalho. Um dos pilares da Revolução Comunista, a Lei do Matrimônio, de 1950, abolia os casamentos arranjados, noivas menores de idade, a poligamia, a prostituição e instituía a lei do divórcio. 

Como explicar, então, tantos retrocessos a ponto de, na China de Xi Jinping, as mulheres serem presas por fazerem uma simples manifestação contra o assédio sexual no metrô? O presidente Xi Jinping – com slogans hipermasculinizados como “Paizão Xi, homem cheio de heroísmo” – é um declarado opositor do feminismo e dos direitos das mulheres. “A propaganda oficial do governo Xi Jinping tem recorrido ao resgate de elementos sexistas do confucionismo, em especial para tentar impor a noção de que a família tradicional (baseada no casamento entre um homem e uma mulher virtuosa e obediente) é a base para um governo estável”, aponta Leta Hong Fincher. 

O envelhecimento da população e a falta de mão-de-obra jovem afetam as contas públicas do país. Apesar do fim da política de filho único em 2015, as taxas de natalidade e de casamento só caem na China. Atualmente, há 30 milhões de homens a mais do que mulheres na China. Daí o incentivo governamental para as mulheres casarem e terem filhos. O futuro da economia chinesa passa pela equidade de gênero.

Embora o Partido Comunista Chinês apoie e defenda a igualdade de gêneros, na prática, suas lideranças baniram o uso do termo “feminismo” (“niiquan-zhuyi”) por considerá-lo “liberal” e “financiado por ONGs estrangeiras que querem sabotar o país”. Mas nem é preciso recorrer a ONGs estrangeiras para ter acesso a números assustadores. Segundo dados da China Family Planning Association, China Labour Bulletin e do próprio governo chinês, mais de um terço das universitárias chinesas passou por experiências de assédio ou violência sexual, uma em cada quatro mulheres casadas apanha do marido, 70% das mulheres operárias de fábricas de Guangzhou já foram assediadas e nunca houve uma só mulher fazendo parte da elite do Partido Comunista. A prisão do Quinteto Feminista na China escancarou esses problemas e incentivou mulheres a denunciarem todo tipo de opressão patriarcal. Advogados de direitos civis, ativistas trabalhistas, artistas performáticos e guerreiros on line se mobilizaram para dar vez e voz às mulheres. As vozes das mulheres soam como sinos da liberdade e do futuro da própria China. Não à toa Li Maizi, uma das ativistas presas e entrevistadas do livro, define: “nossos corpos são nossos campos de batalha”.

Ficha técnica:
Título: Enfrentando o Dragão – O Despertar do Feminismo na China
Autora: Leta Hong Fincher
Tradução: Daniela Belmiro
Editora Matrix, São Paulo, dezembro de 2019. 
Formato: 16 cm x 23 cm
Páginas: 264
Preço: R$ 54 
Onde comprar: nas principais livrarias do país
Vendas on-line: www.matrixeditora.com.br
Tel. 11 3868-2863

Sobre a Matrix Editora:
Apostar em novos talentos, formatos e leitores. Essa é a marca da Matrix Editora, desde o seu início em 1999. Criada pelo publicitário e escritor paulistano Paulo Tadeu, a Matrix surgiu de uma necessidade: o autor teve um livro seu recusado por grandes editoras. Buscando novos desafios, resolveu deixar o trabalho em agências de publicidade para fundar a sua própria editora, a Matrix, em São Paulo. A Matrix é hoje uma das mais respeitadas editoras do país com 670 títulos publicados, dez novos lançamentos a cada mês, com venda on line e nas maiores redes de livrarias de todo o país. A Matrix Editora se especializou em livros de não-ficção, como biografias e livros-reportagem, além de obras de negócios, motivacionais e livros infantis. Hoje, Paulo Tadeu é autor de 82 livros e de sucessos como Proibido para Maiores, que ficou 54 semanas na lista de mais vendidos do segmento infanto-juvenil, com mais de 180 mil exemplares. No catálogo da Matrix constam, ainda, best-sellers como Biografia da Televisão Brasileira, Bem-Vindo ao Inferno e Chaves – Foi Sem Querer Querendo, e autores renomados como Millôr Fernandes. A Matrix Editora criou, no Brasil, o que chama de livro-caixinha, com cartas em vez de páginas, como um baralho, de formato lúdico e interativo. A Matrix foi também pioneira ao transformar textos e personagens de internet em livros, do on line para o off line, como Diva Depressão (a primeira página do Facebook a virar livro) e Mothern (o primeiro livro surgido a partir de um blog homônimo e que virou série de sucesso na GNT). 

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