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2/03/2011

Os emigrantes




Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com
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Provavelmente por causa das minhas raízes, nutro uma admiração especial pelos nossos emigrantes. Espanto-me com o sucesso da integração dos portugueses nos diversos países e continentes em que se estabeleceram. Como sabem muitos países desenvolvidos sofrem graves problemas com várias comunidades imigrantes. Pelo contrário, os portugueses, sem nunca abdicar das suas raízes, nunca deram chatices.

É sempre impressionante ver procissões do Espírito Santo em ruas do Canadá ou assistir a touradas à corda nos Estados Unidos. Essa integração bem sucedida também possibilitou que as gerações mais novas de luso-descendentes participassem activamente na sociedade, na cultura e na política, conseguindo desempenhar altas funções no país de acolhimento. Por isso, temos agora dois tipos de emigrantes: por um lado, os das primeiras gerações, com ligações muito fortes a Portugal, que vivem no espírito das comunidades e, por outro, os filhos destes emigrantes, mais individualistas, que se integraram totalmente, mas que aos poucos vão deixando as suas raízes para trás. Ter uma simbiose dos dois é praticamente impossível.

Ultimamente, tenho andado muito pessimista em relação a Portugal. Por vezes, penso que não vamos a lado nenhum, que este país é uma m.... Enquanto que o judeu andou séculos à procura de uma terra, o português anda, há séculos, a fugir da sua porque só fica bem quando está longe dela.

A integração é uma questão de perspectiva. A maioria dos imigrantes em Portugal também está bem integrada. Por outro lado, também há portugueses a dar problemas em países estrangeiros. Parece-me ingénuo pensarmos que os portugueses têm um dom especial que outros povos não têm. Quanto ao facto de haver portugueses espalhados pelo mundo à procura de vida melhor, não me parece que seja por si um factor negativo. Fernando Pessoa nunca definiu o V Império na sua especificidade funcional... Talvez o D. Sebastião esteja neste momento a construir uma maison em Paris. Ou a vender pão neste Brasil onde me encontro... Estereótipos à parte, a comunidade emigrante cada vez mais qualificada e integrada em países preponderantes na cena mundial, pode ser um ponto de influência suave, mas eficaz para a consolidação de Portugal no Mundo. Não nos esqueçamos da importância vital (sem exagero) dos imigrantes para a amenização de graves crises financeiras que ameaçaram o país no pós 25 de Abril. A verdade é que o lobbying profissional ainda é uma profissão desprezada neste país onde se prefere o tráfico de influências puro e duro. Sim, para que haja mudanças significativas é preciso que o país crie condições para a superação.


Eu não desgosto da imagem romanceada do emigrante português que, graças à sua natureza amena, se adapta a qualquer parte do mundo. A música «Lançado», do Auto da Pimenta de Rui Veloso, é um exemplo disso. Conta a história de como um condenado à morte aceita ser “lançado” (leia-se abandonado) numa praia africana, com apenas «um biscoito, medo e fé», e a missão de se integrar com os nativos para «saber das fontes do ouro e conhecer essas culturas».

A música conta-nos como o desgraçado consegue fazer-se amigo dos indígenas, criar família e tornar-se um elemento importante naquela tribo, acreditando sempre que lhe seria concedido perdão quando regressasse. A verdade é que, por ter sido tão bem sucedido, o Rei não só lhe concede o perdão como também o manda de regresso e ele não pode negar…

Entre os nossos emigrantes existem casos de sucesso e de insucesso, tal como com emigrantes de outros países. Acredito no potencial do meu povo e da minha história, mas não sou ingénuo ao ponto de afirmar que os nossos emigrantes são diferentes.

Para finalizar, acresce dizer que, não tendo o estatuto de emigrante (sabe-se que vim para o Brasil de visita turística e por aqui fiquei), vejo-me, no entanto, metido no mesmo no que diz respeito às saudades da terra e também no início quando, por opção própria, recorri ao processo de legalização. Foi difícil, foi moroso, enfim, parafraseando outros companheiros que estiveram envolvidos nesta mesma luta, “isto é Brasil”, tudo tem que ser resolvido em Brasília.

Os Emigrantes


2 comentários:

  1. Sendo certo que muito se tem escrito sobre os emigrantes (neste caso, os portugueses) e que muito há ainda que escrever sobre tão importante temática, o que é certo é que este texto do Carlos Alberto tem o condão de dizer muito em tão poucas palavras.

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  2. Ola! Carlos Alberto!

    Muito oportuna esta sua matéria, pois quê hoje em dia é o que mais se vê nos jornais, são exatamente os grandes problemas da emigração, enquanto fracassos, mas também vemos muitos se sobressairem muito bem, numa outra pátria, às vezes, até bem longe da sua.

    O homem é nômade por excelência. A história mostra isso, na medida em quê, o progresso da humanidade se consolidou, a partir das grandes andanças e navegações.

    É certo que temos nações que se cofinaram em milênios, buscando manter suas tradições seculares, no que concerne ao seu modus vivendi, sobretudo dos antepassados.

    Em contrapartida, a história também mostra que naçôes estas, individualistas têm uma grande tendência de serem agressivas com seu povo até mesmo com aqueles que queiram interferir em sua política de vida. Estas, podem até avançar o terreno do vizinho, porque pensam que são fortes o suficientes pra isso.

    Como eu disse, sendo nômades, o pensamento daquele que emigra para imigrar, procura na negação do ócio(negar o ócio é procurar o seu negócio), buscar a sua paz, harmonia e, por conseguinte, sua felicidade.

    Se me permites um ponto de vista, ilustre jornalista, em seu 3º parágrafo, vsa. formou aí, algo quê, - não obstante perceber que és um gajo do carago, e, diga-se de passagem escreves muito bem - um pensamento negativista, a meu ver sem necessidades para tanto, haja visto quê, não é de se acreditar em uma boa lógica que uma pessoa possa se sentir tão extremamente feliz, longe de sua terra natal; de seus entes queridos; do seu canto que tanto gostava de produzir.

    Não acredito que "os portugueses somente ficam bem numa outra pátria!" Na verdade sabemos que por força das circunstãncias estão produzindo a contento em outra nação e felizes por isso, mas será que não gostariam de fazê-lo em sua pátria?

    Tenho por mim, um gajo bisneto de italiano, que os meus bisavós não estavam saindo nada satisfeitos da Itália, para trabalhar aqui, no Brasil, no ciclo do café, numa terra até então desconhecida por eles. Muitos são os motivos, mas sempre na qualidade de nômades, que todos somos, até porquê, deveria acabar no mundo este negócio de minha pátria, passando a humanidade pensar num contexto maior, qual seja, nosso planeta Terra.

    Quanto à este Portal, tá ficando muito fixe, pois até história estamos podendo conversar, ou melhor, na linguagem da informática, "teclar", acerca dos conhecimentos gerais.

    Abraços!

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