Reforma do antigo hospital Hilton Rocha: uma chance à vida




Roberto Porto Fonseca (*)

Exerço a medicina há 43 anos - a maior parte deste tempo dedicado ao tratamento de pessoas acometidas pelo câncer – e preciso confessar que nunca imaginei que a compra por leilão do prédio do antigo hospital Hilton Rocha, no bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte, fosse gerar tanta polêmica e tantos empecilhos à Oncomed-BH, instituição da qual muito me orgulho de fazer parte. Da compra do prédio até hoje, lá se vão sete longos anos de muito trabalho investido em projetos arquitetônico e ambiental, estudos de biodiversidade, aprovações junto a órgãos públicos, atendimento a condicionantes e, infelizmente, uma luta exaustiva na justiça.

Nossa intenção com a compra sempre foi muito clara: reformar o prédio que agora encontra-se abandonado para oferecer à população de Belo Horizonte e de todo o nosso Estado um centro de referência em tratamento de câncer, com 220 leitos disponíveis para pacientes oncológicos. Além disso, o projeto prevê a manutenção da especialidade de oftalmologia, área do antigo Hilton Rocha, e atendimento em cardiologia.

Isso significa, como tanto já disse, uma diminuição na carência de leitos hospitalares – problema crônico não só em nossa cidade como em todo o país – e, mais que isso, qualidade de vida para pacientes e seus familiares durante o tratamento. Dentro do hospital, os doentes teriam consulta com o médico, exames os mais diversos, tratamentos quimioterápico e radioterápico e possibilidade de cirurgia nos casos que o requerem. Ou seja, tudo em um mesmo ambiente, garantindo agilidade ao tratamento.

Nem vou me estender sobre a importância do tempo para quem luta contra um câncer. Estou falando de uma das doenças que mais leva à morte no mundo e também no Brasil. Seu tratamento é longo e doloroso, atingindo emocionalmente não só o paciente, mas todos os que o rodeiam.

Infelizmente, ao longo dos últimos sete anos, cheguei a ouvir que esse discurso do câncer é apelativo. Prefiro não responder. O que a Oncomed-BH tenta fazer durante todo este tempo desde a compra do equipamento é executar a obra respeitando sempre, com o máximo de rigor, todas as legislações pertinentes ao caso.

Entre as etapas que já cumprimos estão a liberação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM-BH), além do certificado de Licença Ambiental, Alvará de Construção pela Secretaria Municipal Adjunta de Regulação Urbana (Smaru) e licença para início das obras pelo Conselho Municipal do Meio Ambiente (CMMA) e Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA). Só o CMMA nos colocou 32 condicionantes para execução do projeto, todas elas respeitadas.

Entregamos o projeto arquitetônico a um dos principais especialistas em patrimônio histórico, artístico e cultural deste país. O conceito da reforma leva em consideração a redução de dicotomias hoje existentes entre o antigo prédio e a paisagem da Serra do Curral; a correção de cicatrizes causadas no solo da Serra; e o trabalho para evitar descaracterizações do terreno.

Tudo isso feito, com todas as aprovações em mãos e prontos para, enfim, darmos início às obras, foi com muita tristeza e indignação que nós da Oncomed-BH recebemos, em outubro de 2016, um oficial da Justiça Federal para nos entregar uma liminar que impede a reforma do antigo Hilton Rocha. A liminar atende aos pleitos da Associação dos Moradores do Bairro Mangabeiras, que alertam para o fato de a Serra do Curral ser patrimônio paisagístico tombado. O sentimento que despertou em nós foi de insegurança jurídica. Um imóvel adquirido em hasta pública e com todos os requisitos legais para a reforma previamente atendidas.

Nem eu nem nenhum dos profissionais da Oncomed-BH atentamos ou atentaríamos, em qualquer momento, contra um patrimônio tão caro à nossa cidade a ponto de ter sido eleito nosso cartão-postal. O que reiteramos, sempre, é que estamos agindo dentro da legalidade e em total respeito ao meio ambiente. Não chegamos para erguer um prédio no sopé da Serra do Curral. O que vamos fazer é reformar uma construção já existente, e que hoje se encontra abandonada, integrando-a à paisagem local.

Por isso, deixo aqui um apelo e um convite aos moradores do Bairro Mangabeiras, aos integrantes da Associação que os representa e a toda a população de Belo Horizonte: o hospital Hilton Rocha ocupa uma área que representa 0,2% do espaço da Serra do Curral. Área que, repito, já é ocupada pela construção e que, após a reforma, vai ser destinada a salvar milhares de vidas acometidas por uma das doenças mais agressivas que existem. Vamos, então, todos nos unir e lutar juntos, diariamente, pela preservação de toda a área ainda não construída desta serra? Sim, meio ambiente e saúde são complementares. Os dois lutam pela preservação da vida. E eu não tenho a menor dúvida de que, juntos, somos capazes de preservar milhares de vidas não só da nossa geração, mas também das que virão.

(*) Dr. Roberto Porto Fonseca é médico oncologista, Presidente do Conselho Superior da Sociedade Brasileira de Cancerologia e diretor da Oncomed-BH.
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