Festival Mimo encerra em clima de baile com nomes como Moacyr Luz e Bruno Pernadas

Moacyr Luz se apresenta no Festival Mimo, em Amarante, Portugal - André Henriques  Divulgação

Último dia do evento teve também shows de Goran Bregovic e GoGo Penguin
  

POR LEONARDO LICHOTE * 

AMARANTE, Portugal — O primeiro dia do Mimo Amarante, em Portugal, teve a celebração da diáspora africana — com nomes como o novaiorquino Matthew Whitaker, os moçambicanos do Timbila Muzimba e os brasileiros do BaianaSystem. No segundo dia, a contemplação folk-blues-jazz-rock, em diferentes sotaques, deu o tom na maior parte das atrações — como o israelense Shai Maestro, a cantora Noura Mint Seymali, da Mauritânia, e o português Rui Veloso. O encerramento do festival, neste domingo, teve o baile como palavra de ordem — fosse pela roda de samba de Moacyr Luz, pela anarquia cool do português Bruno Pernadas ou pela festa balcânica do sérvio Goran Bregovic.

Mas a noite teve ainda como atrações musicais o experimentalismo hipnótico do GoGo Penguin e a Orquestra Chinesa Cheong Hong de Macau. O quarteto formado pelos americanos Jack DeJohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley, assim como o sérvio Goran Bregovic e sua Wedding & Funeral Band, ainda se apresentam neste domingo.

Moacyr Luz abriu o dia ao lado de Carlinhos Sete Cordas (violão) e Sergio Krakowski (pandeiro) no palco do Museu Amadeo de Souza-Cardoso. Dentro do contexto do festival, da formação instrumental enxuta e mesmo do espaço, podia se esperar que o show possibilitasse uma apreciação mais camerística de seus sambas, que a despeito do apelo popular, trazem ricos caminhos harmônicos. O roteiro, distribuído na entrada, parecia apontar pra isso, assim como o início com a linda "Zuela de Oxum", tratada com delicadeza pelo trio.

Porém, já na segunda música, Moacyr subverteu a ordem puxando "Saudades da Guanabara", chamou o público português emendando Chico Buarque ("Quem te viu, quem te vê") e Tom e Vinicius ("Chega de saudade") e instaurou a lógica de roda de samba, sentindo o pulso da plateia e comandando-a para onde queria — o que, no fim das contas, incluiu praticamente todo o repertório previsto, entre outras de compositores como Cartola. O museu viveu seus instantes de Renascença, e o Mimo Amarante se converteu no Samba do Trabalhador — com direito a canja de convidados, no caso a cantora Branka, que interpretou "Bença, Nã-Buruquê", de Moacyr e Aldir Blanc.

Bruno Pernadas, na sequência, manteve a temperatura. Em excelente show (um dos melhores do festival), ele apresentou temas longos que passeavam pelo soul, pelo blues, pelo rock dos anos 1950, pelo funk e pelo romantismo no limiar entre sofisticação e kitsch de um Burt Bacharach.

 Bruno Pernadas no festival Mimo, em Amarante - Lino Silva / Divulgação
A sonoridade quente era construída pela (grande) banda grande que incluía trio de metais e backing vocals, destilando faixas como "Spaceway 70", "Problem number 6" e "Ya ya breathe". O resultado era tão imagético quanto sugerem os títulos, num show que soava como a trilha sonora de um filme indie que cai no gosto do Oscar. A plateia do museu apreciava a música com os ouvidos e com os quadris.

Primeira atração da noite no palco Parque Ribeirinho, o principal do festival, o trio inglês GoGo Penquin também soava como trilha sonora — mas sem o caráter pop rasgado de Bruno Pernadas. As imagens sugeridas por sua música são mais fluidas e menos saturadas, chegando à abstração.

Seus temas têm estruturas cíclicas, centrados ora no piano de Chris Illingworth, ora no baixo de Nick Blacka, com a bateria de Rob Turner sustentando ritmos quebrados, não convencionais, inspirados na lógica eletrônica. O resultado se equilibra entre o clássico, o trip-hop e o jazz, que sem ter a força da comunicação instantânea consegue ser envolvente, como mostrou a plateia — ainda pequena, chegando ao espaço — que acompanhou o espetáculo com curiosidade e sinais claros de aprovação.

O quarteto formado pelos americanos Jack DeJohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley, assim como o sérvio Goran Bregovic e sua Wedding & Funeral Band, ainda sobem ao palco esta noite.

Das atrações que se apresentaram no Mimo Amarante, apenas uma está certa de tocar no Brasil, os portugueses do Dead Combo — como a agenda completa ainda está em aberto, outras podem se confirmar. No Brasil, o festival — que completa 15 anos e inclui uma mostra de cinema, oficinas e fórum de ideias — acontece no Rio, em São Paulo, em Paraty e em Olinda.

*O repórter viajou a convite do festival

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Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplicada e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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