Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Calié as maçãs que a senhora quer?




Lugar dos Dois Caminhos, 28 de Novembro
Pelas dez, volto a abrir a porta à Jasmim. É a segunda vez que ela vai à rua. De manhã, foi dar um passeio com a Catarina. À noite, recolhido o Melville do pátio lateral, é a vez de ir ela à sua higiene.
Não se passam cinco minutos sem que comece a choramingar. Nós continuamos a comer, embora com sentimentos de culpa: queremos que mantenha alguma autonomia, para o caso de um dia ser preciso, mas condoemo-nos dela. Viveu demasiados anos na rua – nem sabemos quantos. Chegamos a jantar depressa só para podermos dizer-nos, no tom mais profiláctico possível, que ficou no pátio até ao fim. Então, levanto-me num salto, ainda mal asseados os cantos aos lábios, e vou abrir-lhe a porta. Ela entra, dá uma volta às minhas pernas e senta-se numa imobilidade esfíngica, para que lhe limpe as patas.
Assim mesmo: entra, levanta o focinho para mim, dá uma volta às minhas pernas e senta-se. Às vezes diverte-me tanto, aquela voltinha, que digo:
– Vá, Jasmim, só mais uma!
E ela torna a dá-la, porque não lhe custa nada e faz-me feliz.
Não sei onde foi aprender aquilo. Talvez a tenha dado por acaso, um dia, enquanto procurava a posição mais do meu agrado para lhe limpar as patas, e, perante a minha aprovação, a gravasse no seu livro de afazeres diários. A Jasmim é assim: aprende tudo à primeira, o que talvez demonstre a supremacia dos genes border collie sobre os outros com que os misturou. Todos os dias faz uma coisa qualquer que dá jeito ou tem graça, e, quando aquele de nós que está a cuidar dela olha para o outro e pergunta:
– Então, ela agora faz isto?
O outro encolhe invariavelmente os ombros:
– Parece que sim. Fez esta manhã e eu ri-me.
Não conheço outro animal assim. Se agora me ocorresse aventurar-me num top3 das suas preocupações, acho que só colocaria uma acima do desejo de agradar-nos: o de receber mimos. Comer viria, quando muito, em terceiro lugar. E, mesmo assim, não sei se olhar para o Melville não viria primeiro.
Só não viria primeiro porque apenas uma parte do modo como a Jasmim olha para o Melville é afecto. A outra parte é respeito. Desde que entrou nesta casa, posta com mil cuidados ao lado do macho abrutalhado e pouco sociável, ficou muito claro na sua cabeça que lugar lhe cabia na matilha: o Melville primeiro. Se os chamo ao mesmo tempo para comer, fica no meio do corredor, sentada com toda a reverência, para que o Melville coma primeiro. Se abro o porta-bagagens para irmos passear, deixa o Melville entrar, certifica-se de que ele está instalado e só então salta para o carro.
O Melville é o meu cão. O veterinário disse para nós não fazermos equipas cá em casa, mas acho que as fizemos na mesma. A Jasmim passa o dia no escritório da Catarina, o Melville no meu. Dá-me muito trabalho e faz-me muita companhia, o Melville. Não tenho um só gesto cujas intenções não antecipe. Mas a verdade é que, se um dia me ocorrer ficcionar estes cães, como às vezes me sinto tentado a fazer, o meu herói é bem capaz de ser uma fêmea. A Jasmim.
A Jasmim tem a escola da vida, como poderia inscrever à cabeça de um perfil de Facebook. Aprendeu a desviar-se dos carros, aprendeu a proteger-se dos cães agressivos, aprendeu a procurar comida, aprendeu a agradar às pessoas. No dia em que a trouxemos, o Henrique tirou-lhe umas quatrocentas carraças. Ela nunca se esqueceu. Desde que passou esta porta, nem por uma vez teve um descuido (coisa que também aprendeu sozinha). Acata cada ordem como a desse a si mesma e celebra cada alegria como um triunfo. Quando vai passear com a Catarina, não há um só carro que não pare a conferir se não será o meu, porque um dia decidi apanhá-las no caminho e fomos ao Guarita tomar café.
Entretanto, tornei-o uma rotina. Costumo dizer que é prático, mas o que quero é ver a alegria dela à minha espera.
Gosta tanto de passear de carro como a pé, a Jasmim. As suas orelhinhas são como que um segundo rosto, cheias de expressões e sorrisos. Sabe quais as plantas do jardim que pode e não pode mordiscar. Limpa-se-lhe as patas e as patas são fofinhas. Chega a Sónia, para se ocupar da limpeza da casa, e faz-lhe uma festa. Chega a Catarina, vinda da biblioteca ou do ginásio, e faz-lhe uma festa. Chego eu, vindo seja de onde for, e faz-me uma festa. E, se por alguma razão o Melville está meio amuado porque o deixámos muito tempo no pátio, põe-se a dançar à volta dele, como se dissesse:
– Anda lá, rapaz, anima-te que a vida são dois dias.
Não sabemos quantos dias serão para ela. Quando a recolhemos disseram-nos que era novinha, apesar de já ter procriado uma vez, e o veterinário, com certa magnanimidade, atribui-lhe mais seis meses do que ao Melville. O Melville também foi trazido da rua, mas era uma cria, pelo que sabemos que terá agora quatro anos e meio. Se a Jasmim tiver de facto cinco, será bom. Mas acho que, até ao fim, haveremos de temer que tenha mais.
A Jasmim defende, reconforta, alerta, apazigua. É a melhor de nós os quatro. Sabe sempre qual é a necessidade da pessoa (ou do animal) ao lado e faz dessa necessidade a dela – tudo em nome da concórdia. Custa conceber que um bicho possa ter adquirido tanta sabedoria em tão pouco tempo.
A Jasmim salvaria o mundo, se lhe dessem a oportunidade. Às vezes salva-nos o dia.


* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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