Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Este ano as castanhas são muito gradas

Lugar dos Dois Caminhos, 7 de Outubro
Consolidado o jardim, apesar de todos os planos que ainda temos para melhorá-lo, pensamos agora num pequeno pomar. Já houve aqui um pomar, que em nefasta hora eu e os meus primos secámos com salmoura para construir um campo de futebol, ainda o meu avô era vivo, e talvez fosse razoável eu me inibir agora de usufruir daquilo que lhe roubei. Mas umas trocas de lotes na família deixaram-me na posse da parcela por detrás do castanheiro grande, aqui mesmo ao lado de casa, e nada ficaria ali tão bem como um pequeno pomar.
De modo que, de passagem pelos Biscoitos, onde vamos comprar ovos de codorniz em curtume, fazemos um desvio na última canada antes de chegar ao caminho corrente, à procura desses venturosos viveiros de que se diz fornecerem as melhores árvores de fruto da ilha. Uma velhinha explica-nos que os donos vivem na casa alta, a do portão verde grande, e é aí que vamos encontrar o Sr. Carlos.
Demora a descer, algo contrariado. Mas eu explico-lhe que já sei que os pessegueiros são demasiado frágeis e que, por outro lado, tenho um castanheiro, duas macieiras, quatro anoneiras e vários pés de citrinos, incluindo uma laranjeira, uma tangerineira e um limoeiro. Portanto, penso sobretudo (é tomar nota) numa nespereira, numa pereira e numa figueira. Já enxertadas – de outro modo não quero. E a preços razoáveis, evidentemente.
O homem olha para mim, com a condescendência infinita do agricultor experiente que se cruza com o rapaz da cidade tão excitado com a ideia de fazer um pomar como em breve, provavelmente, esquecido dela em favor de outra excitação qualquer, e faz-me a pergunta sacramental:
– Na Terra Chã? Zona dos Dois Caminhos? O meu amigo diga-me uma coisa: conhece alguma figueira ali à volta?
Eu já ouvi aquela pergunta outras vezes, pelo que sei o que significa: se não há uma só figueira à volta do lugar onde vivo, como julgo eu que vou fazer vingar nele uma figueira – acaso pensarei haver sido o primeiro, em terra de agricultores e camponeses, a ter tal ideia?
De maneira que nem respondo. Digo apenas, mais seco:
– Então uma pereira. O que acha?
E ele:
– Pêra rocha?
– É melhor, sim senhor. Amarelinha e doce.
O homem semicerra os olhos. Respira fundo:
– As pessoas querem sempre pêra rocha, pêra rocha, pêra rocha... A pêra rocha dá fruto muito tarde na estação. Quando chega a dá-lo, já ele vem cheio de bicho. Pêra rocha, nesta terra, não dá, estou farto de dizer.
E eu, já quase vencido:
– Pronto, uma nespereira.
– Ah, uma nespereira está bem.
– Então, se calhar, até levo duas – reanimo-me. – Podemos ir escolhê-las?
Ele revira os olhos. Respira fundo e longamente, agora – como se lhe impendesse sobre os ombros um peso demasiado antigo.
– Nesta altura, caro amigo? Nesta altura não se plantam árvores de fruto. Plantadas antes de Dezembro/Janeiro, não há uma que sobreviva.
E o resto não vale a pena contar, porque não é que tenha piorado, mas também não melhorou.
Confirma-se, portanto, que o meu pomar vai começar como todas as outras demandas cá de casa: fazendo perguntas estúpidas, trocando causas e consequências, submetendo-me à frustração, às vezes ao escárnio e, em momentos seleccionados, até à ira daqueles que me ajudarão. Não me deixarei abater, mais uma vez. O Sr. Carlos, está visto, sabe tudo sobre árvores de fruto: há-de ser ele a ajudar-me a fazer um pomar dos diabos, fértil e lindo – nem que em Dezembro, para começarmos de novo, eu tenha de levar-lhe uma garrafinha de aguardente da terra.
E esse pomar, aviso já, não só há-de dar nêsperas, como pêras rocha, figos e – agora é pessoal – até pêssegos, ou eu não me chamo Joel nem ele Sr. Carlos dos Biscoitos.

Lugar dos Dois Caminhos, 8 de Outubro
Passo no quiosque do Guarita, a comprar cigarros e jornais, e detenho-me nas capas das revistas tontas. Às vezes até me esqueço delas, mas desta vez são irresistíveis. Onde outrora estavam José Mourinho e Cristiano Ronaldo, reunidos sob o primeiro pretexto de que a revista conseguia lembrar-se, aparecem agora Marcelo Rebelo de Sousa e Salvador Sobral.
Este último está doente, dizem os títulos. Aquele, por sua vez, consome-se de preocupação, até porque interpreta o sentir do povo que representa.
E eu penso: que feio é o tempo que vivemos. E depois: e, porém, que paradigmática, a história daquele rapaz, sobre este tempo que vivemos – as suas ambições e contradições, a pequena beleza com que se compromete e o vago exotismo que se lhe proporciona.
Um rapaz brilhante, habituado a procurar o sublime, ousa permitir-se um momento de compromisso. Ao fazê-lo, e para sua própria surpresa, chega tão alto como nunca chegara e mais alto, de certo modo, do que alguma vez tinha chegado qualquer outro compatriota antes de si. Quando o faz, já vai doente, e o excesso de solicitações pode fazer-lhe tudo, menos bem à saúde. A situação agudiza-se e, agora, luta pela recuperação no papel de um rapaz famoso, no clímax de uma história em que a palavra sublime não encontra o seu lugar.
Até na ficção torceríamos o nariz: seria demasiado inverosímil – demasiado evidente. Mas aí está a história de Salvador: um talento superlativo que arranjámos maneira de reduzir às capas das revistas tontas. Se houver uma réstia de ordem neste caos, há-de ter uma segunda oportunidade.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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