Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Não bebas isso à fugalaça, rapaz!

Lugar dos Dois Caminhos, 9 de Setembro
Esta tarde fui comprar figos aos Biscoitos. Seccionei a ilha ao meio e estacionei em frente à grande figueira na reentrância da estrada que desce ao porto. Atravessei o quintal antigo, impecavelmente limpo. Bati as palmas, elogiei as flores e tornei a explicar que não fazia sentido comprar muitos, visto sermos apenas dois aqui em casa.
Pedi, ainda assim, dois quilos deles – sempre podia oferecer alguns aos meus sobrinhos.
Agora já estão a quatro euros, muito abaixo dos dez com que começa a temporada. Mas, mesmo nessa altura, e apesar de duzentos metros mais abaixo haver barraquinhas a vendê-los a oito, mesmo a seis – e às vezes maiores –, continuo a preferir ir comprá-los ali (eu e outros), como num ritual. De maneira que, pedidos os dois quilos, a senhora trouxe a velha balança cromada, belíssima, sacou o fundo a uma caixa de pirolitos, encheu-a até aos dois quilos e depois pôs-lhe mais um par de figos, para não restarem dúvidas.
Vim-me embora, com a Catarina já a debicar neles e, lá atrás, os cães esgadanhando-se por atravessar a rede e filar um figo à caixa. E, em vez de pensar nos três velhotes que vivem naquela casa impecavelmente limpa, ordenando o seu quintal e cultivando as suas flores, penso na figueira deles. Na quantidade de figos que dá. Nas décadas que leva a dá-los. No quão longe viajam tantos terceirenses para os irem comprar. Na quantidade de famílias que, nesta terra de ordenados mínimos e um rendimento por agregado, poderia ter sustentado, e durante quantas gerações.
Uma figueira só. Enorme e tentacular – suportada por estacas, já, nos seus ramos mais gordos e trémulos. Em quantas mesas de jantar terão estado os seus frutos? A quantos aniversários terão assistido? E nascimentos? E casamentos? E divórcios? De quantos momentos de alegria esfuziante terão partilhado? De quantas tragédias sem redenção? De quantos silêncios lentos e irreparáveis? Poderiam as amoras das minhas amoreiras partilhar desses momentos também? Poderia eu plantar uma figueira igual àquela e ainda ir a tempo de viver dela?
Sempre deram boas parábolas, as figueiras.
Para a semana volto lá. Se consegui perceber o padrão, ao longo destes anos, para a semana os figos estão a dois euros e meio.

Lugar dos Dois Caminhos, 13 de Setembro
Já proclamei umas três vezes a chegada do Outono, e o tempo continua quente. Talvez as noites tenham começado a refrescar, mas mesmo assim. Tivemos um Verão fervente, o calor e a humidade e o orvalho fundindo-se numa só espécie de névoa térmica, sufocante, e de repente faz-me falta o Inverno.
A verdade é que chega esta altura do ano e suspiro sempre pelo Inverno. Suspiro pelas noites longas, pelo bruxulear da lareira e pelo tempo para trabalhar. Suspiro pelo ressonar sereno dos cães, pela serenidade das pessoas, pela serenidade em geral – mesmo quando, no fundo, ela significa tristeza.
Suspiro pela rotina, essa poderosa aliada, e também, lá mais para a frente, pelos primeiros calores da Primavera, com os seus melros pretos e as suas azáleas.
Custa-me a chuva que nos espera, como me custam os sobressaltos das tempestades. Durante o Inverno, os jornais do dia chegam tarde, falham a Internet e os telemóveis, e às vezes até falta a luz. Cansar-me-ei de tudo isso, no fim, e não haverá razões para me censurar: o Inverno é demasiado comprido, aqui.
Mas, por agora, tenho saudades dele. E de trabalhar em sossego.

Lugar dos Dois Caminhos, 14 de Setembro
Morreu Correia da Cunha. Tinha 90 anos e um extraordinário passado como servidor público, inclusive nos domínios do ambiente. Teria dado um belo ministro das Obras Públicas e ainda bem que não deu, porque poderia ter-se perdido um grande operacional.
Devemos-lhe – nós, portugueses – o saneamento do Algarve e a recuperação do Chiado depois do incêndio. Devemos-lhe – nós, portugueses, e nós, açorianos – a reconstrução da Terceira após o terramoto.
Foi o primeiro grande teste à autonomia destas ilhas, aquele sismo, e os recursos eram mínimos. Ramalho Eanes, Cavaco Silva e Mota Amaral foram, a muitos títulos, exemplares. Mas a melhor de todas as suas decisões foi a criação do Gabinete de Apoio À Reconstrução e o destacamento de Correia da Cunha para a sua gestão.
O GAR não mandou as pessoas ficarem quietinhas à espera de um contentor, de um pré-fabricado e, finalmente, de uma casa. O GAR distribuiu contentores, pré-fabricados e casas, mas contou com as famílias. Foram as próprias famílias quem governou o dinheiro do crédito de sinistrado. Trocavam materiais entre si e, em muitos casos, começaram a reconstruir logo no dia do abalo, com o que tinham em casa.
Em cinco anos, estava quase tudo reerguido. Em menos do que isso, Angra do Heroísmo tornava-se a primeira cidade portuguesa a obter o estatuto de Património da Humanidade. Poucas outras vezes na História – e, creio, nenhuma depois disso – os açorianos demonstraram tanta coragem, tanta responsabilidade e tanta comunhão.
Costumo creditá-lo, em boa parte, a Correia da Cunha. É justo.





* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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