Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Não comeces já a cramar

Lugar dos Dois Caminhos, 5 de Setembro
De vez em quando volto àquela noite. Era terça ou quarta-feira – era seguramente um dia que não de fim-de-semana, porque as galerias das Amoreiras estavam vazias. Cirandámos os dois pelas montras, a recolher básicos e necessidades. Parámos a comer naquela coisa do peixe, que, não sendo propriamente sushi (matéria escassa aqui na ilha), sempre engana. Conferimos o horário inscrito nos bilhetes do cinema e, antes de nos dirigirmos à sala, fui lavar as mãos à casa de banho, em frente a cuja porta dois irmãozinhos se despediam um do outro.
Reparei neles por isso: porque se despediam um do outro. Ela, espigadinha e já meio desconjuntada da adolescência precoce, tinha talvez uns onze anos. Ele, mais pequeno e rechonchudo, oito. Imaginei-os acompanhando-se à casa de banho num momento de rara autonomia, e eram uma ternura. A menina disse: “Vais a essa que eu vou a esta. Espera-me aqui fora.” E o menino: “Aqui mesmo em frente à porta?” – Postou-se no sítio exacto, como que a testá-lo. “Aqui? E se acabares antes de mim?” Trazia uma camisola do Barcelona, número 10, e não tinha o andar mauzão dos futebolistas.
Teve dificuldades com o fecho éclair, mas lá se desenvencilhou, prendendo a bordinha da camisola com o queixo, para não se sujar. Esticou as mãos bem ao alto, para recolher o sabonete, e lavou-as à altura do rosto, cuidando para que a água não lhe escorresse braços abaixo. Secou-as demoradamente e, quando a máquina se desligou, aproximou-as de novo, para voltar a accioná-la. Finalmente, conferiu que tinha o fecho éclair convenientemente fechado e postou-se atrás da porta, à espera de que alguém a abrisse.
Não queria sujar as mãos. Imaginei a mãe ensinando-lhe que a maçaneta da porta de uma casa de banho pública é um propagador de bactérias sem igual. Sequei eu próprio as minhas e, como entretanto não chegou a entrar ninguém, abri a porta lá por cima, segurando no vidro entreaberto. E disse: “Com que então, número 10. Também és canhoto, como o Messi?”
O miúdo olhou para mim, hesitante (imaginei a mãe avisando-o para não falar com estranhos), mas deve ter achado que eu tinha uma cara confiável. Respondeu: “Jogo com os dois pés e de cabeça também”, o que me divertiu. E depois acrescentou aquilo que anda desde essa noite comigo: “Mas eu, como o Messi, já não vou ser. O Messi, quando tinha oito anos, já tinha marcado mais de cem golos. Eu ainda só marquei quatro.”
Fiquei ali, a vê-lo juntar-se à irmã e a caminharem os dois corredor fora, com um ar quase adulto. Soube logo que aquela história queria dizer alguma coisa sobre este tempo em que vivemos, mas a cada significado que lhe encontrava decidia que não era suficiente.
Esta manhã, acordei com a impressão de que tinha sonhado com aquele menino. Não consigo determinar a situação em que se encontrava, mas não creio que o tenha projectado no Campo Nou, marcando golos e fazendo olhinhos às garotas nas bancadas. Sei apenas que sonhei com ele e que, de repente, a expressão daquele encontro que tivemos nas Amoreiras era a mais simples e definitiva de todas: não há apenas um momento para se ser criança, há mesmo um momento em que a verdade é o mais inútil dos valores.
Triste menino, aquele da camisola do Messi, que se comportou demasiado bem cedo de mais, que soube demasiado cedo de mais, e que nunca apontará às estrelas.

Lugar dos Dois Caminhos, 8 de Setembro
Esta semana demorei pelo menos três dias até perceber que Madonna tinha tido problemas com a alfândega portuguesa. Sabia que andara à procura de um lugar tranquilo para criar os filhos, sabia que havia estado na escola do Louis, meu afilhado, durante o processo de escolha de educação para eles e sabia até que tinha comprado uma casa em Sintra. Mas não sabia que se estava mesmo a instalar, e muito menos que tivera problemas com a alfândega.
Nem precisava de saber.
Às vezes digo que regressar à província fez de mim um homem mais inteligente e alguém torce o nariz. Não quero dizer que me tornei de facto inteligente. Tanto quanto posso imaginar, é bem possível que o ponto de partida fosse demasiado baixo. Mas, em comparação, cresci. Eliminou-se-me muito do ruído em volta. Quando vivia em Lisboa, imaginar Madonna a cantar o Papa Don’t Preach ao bigodes do terminal do aeroporto seria pelo menos motivo para uma piadinha de Facebook, se não para uma crónica armada ao engraçado. Agora, nem sei da história.
Temos uma imagem distorcida da província, quando vivemos numa grande cidade. Muitos daqueles que vivem em Lisboa acham que o resto do país é metade folia pegada e metade ócio infinito, o povo todo a viver dentro de um querido-mês-de-agosto gigante, como naquele filme do Miguel Gomes. Mas, na verdade, o que a província faz é libertar-nos da obrigação de pensar no que todos os demais estão a pensar. O que a província faz é abrir uma possibilidade de silêncio.
Muitos, sem outro antídoto para a loucura, reocupam-no com música pimba, televisão diurna e despedidas de solteira. Mas também é possível, se estamos nessa fase da vida, simplesmente olhar. Ponderar proporções. Talvez ler.
Na província, só não se torna mais inteligente quem não quer. Nas grandes cidades, toda a gente quer e nem sempre consegue.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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