Após 20 anos, presença do raro gavião-real é registrada em São Paulo

Gavião-real, também conhecido como harpia, se aproxima de ninho em Alta Floresta, no Mato Grosso/Rudimar Cipriani

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

A presença de um gavião-real, uma das maiores aves de rapina do mundo, foi documentada no Estado de São Paulo pela primeira vez em ao menos 20 anos.
O canto da harpia –a outra denominação do pássaro–, foi registrado pelo biólogo Bruno Lima em 2012, na região do rio Preto, em Itanhaém, e depositado na semana passada na plataforma Wikiaves, fórum utilizado para divulgação prévia de resultados da área.

O artigo em que é descrito o raro achado acaba de ser enviado para a revista científica "Atualidades Ornitológicas" e aguarda a aceitação. Mas especialistas que ouviram o áudio a pedido da Folha creem que se trata mesmo de uma harpia, animal considerado criticamente ameaçado em SP.

Para Felipe Bittioli Gomes, professor da Universidade Federal do Pará, não há dúvida de que se trata do canto de um gavião-real. "É um registro indiscutível. Dentre os vários tipos de canto do gavião-real, o mais característico é o territorial, justamente o que foi registrado."

Tânia Sanaiotti, pesquisadora do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e coordenadora do Projeto Harpia, é um pouco mais cautelosa. "Ele de fato parece o canto de uma harpia, embora seja curto." Já o biólogo Marco Antonio Granzinolli, especialista em aves de rapina, é enfático: "É o canto de uma harpia".

Além disso, entre os 20 comentários no Wikiaves a respeito do áudio registrado por Lima, não há nenhuma contestação de sua veracidade.

Embora avistamentos de harpias tenham sido reportados em São Paulo nos últimos anos, os registros documentados são raros. Os últimos são de um espécime capturado supostamente no início dos anos 1970, pertencente ao museu de zoologia da Unesp de São José do Rio Preto, e outro, realizado em 1993, no município de Cananeia, no litoral paulista.

"É um registro bastante importante", diz Sanaiotti, "e só reforça a urgência de proteção dessa espécie." A especialista em ecologia de aves Martha Argel afirma que se trata de um achado relevante, já que a harpia pode ter desaparecido da maior parte de São Paulo.

Ocorrência gavião-real-Editoria de Arte/Folhapress

Argel explica ainda que, na ornitologia, registros sonoros são equivalentes aos fotográficos. "Algumas espécies são até mais registradas pela voz do que por fotografias."

A harpia habita sobretudo a Amazônia e é considerada a ave mais poderosa do mundo devido ao seu incrível poder de tração, que lhe possibilita, por exemplo, arrancar um bicho-preguiça de uma árvore.

É, ademais, aquilo que na ecologia é chamado de um predador de topo de cadeia, ou seja, tem no seu habitat a mesma importância que uma onça ou um tubarão têm em seus respectivos ecossistemas.

"A presença de uma harpia indica que o ambiente está equilibrado, pois um predador de topo só irá existir se a floresta estiver saudável e conseguir sustentar as presas. Ou seja, se contiver todos os elementos biológicos para a manutenção do ecossistema como um todo ", diz Gomes.
Estima-se que um casal da espécie necessite de uma área de ao menos 100 km2 para sobreviver.

TERMELÉTRICA

Em outubro de 2012, Lima caminhava numa trilha na mata de Itanhaém quando ouviu uma gralha-azul cerca de 25 metros acima de sua cabeça. "Ela fazia um chamado de alarme, como se houvesse algum predador por perto."
"Escutei então o grito inconfundível de uma ave de rapina. Liguei o gravador e vi a cabeça da harpia em meio à folhagem de uma árvore."

Lima conta que guardou o registro por cinco anos por receio de que a divulgação pudesse ameaçar a vida da ave. "Anteriormente, quando divulguei a existência dos papagaios-de-cara-roxa, que poucos sabiam existir naquela área, queimaram o ninho com os filhotes dentro dele. Fiquei com medo de que o mesmo pudesse acontecer à harpia."

A motivação para a publicação do registro agora é a possibilidade de um complexo termelétrico ser instalado em Peruíbe, segundo explica Lima. De acordo com o projeto –em processo de licenciamento ambiental–, torres de transmissão passarão pela região onde a harpia foi encontrada.

"Se as torres forem instaladas, há um risco enorme de que essa ave, que há décadas não víamos em SP, morra ao colidir com elas, como ocorre com os Tuiuiús no Pantanal."

Procurada, a Gastrading, empresa responsável pelo empreendimento, diz que o Estudo de Impacto Ambiental aponta o potencial impacto sobre as aves da região devido ao aumento do risco de colisão com as torres e cabos.

Devido a isso, foram propostas "medidas de controle e monitoramento, considerando a implantação de sinalizadores nos cabos da linha de transmissão, a diminuição da distância entre cabos, o que minimiza o risco de colisão, além de monitoramento de potenciais acidentes".

O GAVIÃO-REAL

HABITAT
Vive em florestas de planície e altitudes de até 2.000 m acima do nível do mar
DISTRIBUIÇÃO
Pode ser encontrada na região amazônica e em alguns pequenos trechos da mata atlântica, especialmente no sul da Bahia e no norte do Espírito Santo
TAMANHO
Mede de 90 a 105 cm de comprimento e pode atingir até 2 metros de envergadura
PESO
Machos pesam de 4 kg a 5 kg, e fêmeas de 7,6 kg a 9 kg
ALIMENTAÇÃO
É constituída principalmente de mamíferos como preguiças, veados, quatis e tatus. Também captura aves como seriemas e araras. Suas garras de até 7 cm permitem ao gavião-real capturar presas com mais de 6 kg
REPRODUÇÃO
É monogâmico e constrói o ninho em formato de plataforma no alto de árvores
STATUS DE PRESERVAÇÃO
A espécie é considerada criticamente ameaçada em toda a região Sul e nos nos Estados de SP, MG, ES

Fonte: Aves de Rapina Brasil



Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal.

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