Ouvindo Minas


Por Ivan Angelo

Ouvir certas palavras é ouvir Minas. Para um mineiro que mora longe dos seus lugares, elas funcionam como uma visitinha. Minas é linguagem.

Ouvir dizer, por exemplo, de passagem, que alguém aprumou, ou está aprumado. É Minas. Significa que a pessoa está bem de vida, ficou de pé. 

Certo uso de “agarrar” como verbo auxiliar: agarrou ler e esqueceu da vida; esse menino agarra a chorar e não para. isso dá à ação do verbo que é auxiliado um visgo, um grude: não larga. É Minas. 

Quer um vocativo mais queridinho, um modo de pedir a atenção de uma pessoa mais meigo do que “aqui”? É como eles dizem, dizemos: aqui, onde cê tá morando? aqui, cê vai lá hoje?

Algumas palavras parece que nasceram lá ou, se não é isso, desistiram de se mostrar em outro lugar. 

Balangar. O bêbado veio balangando. a manga ficou balangando no vento, cai não cai. 

Espandongado. É bagunçado, espalhado. Ladrão entrou na casa, deixou tudo espandongado. 

Desgadanhada. É desgrenhada, desguedelhada. a mãe não cuida, essa menina vive desgadanhada. 

Fuxicada. É amarrotada. roupa fuxicada, amassada. Toma modo, menina, tá fuxicando a roupa. 

Sungar. Erguer algo que está caindo. Sunga essa calça, homem! até coriza se pode sungar: sunga esse nariz, menino! 

Grila. Jogar para o alto, quem pegar leva. Jogar bala de grila. 

Babujada. Babada. O copo ou a colher que alguém usou estão babujados. a comida que sobrou no prato está babujada. 

Trasanteontem. Hoje é quinta?, foi na segunda-feira, trasanteontem, trasantontem, trasantonte. 

Osga. Uma osga, não vale nada.

Expressões com sabor de pão de queijo, não se ouvem de nascidos além da fronteira. 

De primeiro. antes, antigamente. De primeiro eu gostava de brovidade (modo de dizer o bolinho que se chama brevidade), não gosto mais. De primeiro eu ia lá com meu pai. 

De fasto. Vem de fasto. recua, vem de costas, vem de ré. O carro veio vindo de fasto e bateu no muro. 

Em antes. antes. Em antes de conhecer chuveiro nunca tinha tomado água na cacunda, só de chuva. Cacunda. É o alto das costas, corruptela de corcunda. 

Demais da conta. além dos limites. Menino levado demais da conta. 

Tomar modo. Comportar-se. Toma modo, menino. 

E tanto; e tanta. É fração: 1 quilo e tanto. Que horas são? Oito e tanta. indica também sobra de qualidade: é um trabalhador e tanto; é um rapaz e tanto.

Palavras que todo mundo usa e que mineiro usa diferente. 

Pedindo. É um modo de perguntar o preço. Quanto cê tá pedindo nessa sandália? Tem variante: querendo. Quanto é que cê tá querendo nela? (É jeito sutilíssimo de dizer, de antemão, que não é o que a coisa vale, é o que o vendedor quer.) 

Mexer. Trabalhar. Cê mexe com quê? Cê tá mexendo com quê? Tô mexendo com isso mais não. 

Bobo. não é insulto, é carinho, quando vem no fim da frase. Liga pra isso não, bobo; escreve pra ela, bobo; come um pouquinho, bobo; deixa pra amanhã, bobo. 

Bombeiro. É encanador. Chama o bombeiro para consertar essa pia.

Palavras há que vieram nas naus, subiram montanhas atrás de ouro e ficaram por lá, residentes. 

Unto. É banha, gordura para cozinhar. Encontro o substantivo num livro de receitas do século XVi, e em Minas ainda se usa. Já o verbo, untar, é comum.

Mantimento. São alimentos. Estou sem mantimento, preciso comprar. 

Sacudido. Homem forte, sacudido; moça grande, sacudida. 

Consoada. Ceia de véspera de natal. Vem comer a consoada conosco. 

Regateira. namoradeira, moça que não serve para casar. 

Coió. É bocó. Bocó. É coió. Minas é linguagem.

(Ilustração: Negreiros)

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