Com 180 km, maior trilha urbana do país atravessará Rio pelas montanhas

Vista de um dos mirantes da trilha Transcarioca, que atravessa o Rio de Janeiro da zona oeste à sul
Luiza  Franco
do Rio

As montanhas cariocas que se veem em todo cartão postal parecem pedras inatingíveis ou florestas fechadas, mas são uma verdadeira via expressa para trilheiros, um só bloco de mata de um extremo a outro da cidade.

Esse corredor será revelado neste sábado (11) com a inauguração da maior trilha urbana do país, a Transcarioca. Ela atravessa o Rio de Janeiro de Barra de Guaratiba, na zona oeste, ao Morro da Urca, aos pés do Pão de Açúcar, na zona sul, em um caminho de 180 quilômetros.

Seus 25 trechos passam por sete unidades de conservação. No trajeto, vistas de praias desertas e áreas urbanas, bichos, cachoeiras, ruínas.
A Folha percorreu um dos trechos em busca do que sobrou de uma fazenda colonial. Achou pistas, como partes de uma calçada de "pé-de-moleque" e uma pequena ponte de pedra, mas não encontrou a ruína principal.


No caminho, passou por duas quedas d'água, cobras e lagartos inofensivos, um mirante de onde se vê a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Jockey Clube no primeiro plano e, no fundo, as praias de Ipanema e Leblon. Pegadas pintadas em árvores e pedra indicam o caminho.
A caminhada foi quase toda morro acima, com partes leves, outras cansativas. Houve exemplos do que gestores da trilha chamam de "escalaminhada", onde é bom usar as mãos para vencer alguns metros. É possível ver o grau de dificuldade, a exposição a risco e a insolação de cada trecho no site da trilha.

ORIGEM

Ao contrário de outras caminhadas de longo percurso, não é possível percorrer a Transcarioca toda de uma só vez porque a maior parte das unidades de conservação que ela atravessa proíbem pernoite. Não fosse por isso, os gestores acreditam que a viagem duraria por volta de duas semanas.A trilha tem saídas para o asfalto a intervalos regulares, e a maioria dos trechos leva poucas horas.

Quem teve a ideia de criá-la foi um diplomata, Pedro da Cunha e Menezes. Na juventude, foi comissário da Varig. Da janela da cabine via que o Maciço da Pedra Branca, na zona oeste, e da Tijuca, a leste, eram uma coisa só. "Pensava: tem que ter um jeito de atravessar", conta ele.

No livro "Transcarioca: Todos os Passos de Um Sonho" (2000) ele detalha a proposta no contexto de outras trilhas de longo percurso, como a Appalachian Trail (EUA), a Huella Andina (Argentina), a Hoerikwaggo Trail (África do Sul) e a Te Araroa Trail (Nova Zelândia).

Além de ser mais uma opção de programa para cariocas e turistas, a ideia é que a trilha gere emprego e renda para quem mora perto dela e traga melhorias ambientais.

Se der certo, espera-se que sirva de modelo de conservação da Mata Atlântica. "Fazer a ligação entre áreas protegidas estimula trocas entre espécies e beneficia a biodiversidade", afirma o biólogo Marcelo Andrade, coordenador do Mosaico Carioca.

Os responsáveis pela gestão são os membros do Mosaico Carioca, união de unidades de conservação municipal, estadual e federal na cidade do Rio de Janeiro.

Mas entidades ambientais não ligadas ao governo e mais de mil voluntários foram decisivos para tirar a ideia da trilha do papel. Nos últimos anos, foram feitos diversos mutirões de limpeza das trilhas e de aplicação da sinalização. Empresas e ONGs "adotaram" trechos e colaboraram para o processo.

PERIGO

Um grupo que já usa o corredor montanhoso são os traficantes. Quintal de algumas favelas, a mata é usada por criminosos como rotas invisíveis para a polícia. Também há assaltos em trilhas. Polícia Militar e Guarda Municipal atuam nas matas, mas nem sempre é o bastante.

Os gestores estão mapeando os trechos onde há mais ocorrências. Acreditam que a existência da trilha ajude a reduzir a criminalidade. "A experiência internacional mostra que, quanto mais ocupada uma mata, mais segura ela se torna", diz Adriano Melo, coordenador de projetos da Conservação Internacional.

Um ponto negativo nesse quesito é que nem todos os trechos têm controle de quem entra e sai. Por isso gestores recomendam que se faça trilhas só de dia e em grupos de, no mínimo, três pessoas.
Menezes, o idealizador da trilha, diz que, em 2016, houve maior número de ocorrências nas proximidades do Corcovado, o que ele atribui à Olimpíada e ao grande número de turistas lá.

"A incidência de assalto é muito maior no asfalto do que na mata. A segurança pública é um problema estrutural do Brasil e do Rio. Não será resolvida do dia para a noite. Podemos cruzar os braços e não fazer nada no país, ou fazer e tentar garantir que tudo corra da melhor maneira possível. Acho a segunda opção melhor", afirma Menezes. 

Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal.

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