Caetano Veloso fala sobre música, Salvador e política

Caetano e Teresa em temporada baiana - Fernando Iglesias

'Brasil chegou a ser saudado como força mundial, mas acho que sabíamos que não era'

Daniel Oliveira e Simone Ribeiro

Com o passar dos anos, Caetano Veloso amplia o seu percurso no universo da música popular. Nunca acomodado ou repetitivo. Os seus novos projetos surgem e ganham a real dimensão. Rodam o mundo em apresentações memoráveis tanto para norte-americanos como para brasileiros e japoneses. 

 Entre dezembro e fevereiro, no ensolarado verão da Bahia, o cantor e compositor diminui o ritmo das viagens. Descansa e curte uma espécie de férias. Isso porque circula nas ruas de Salvador, se informa dos hits (e não só) do momento, recebe amigos e faz shows. Na próxima semana, sexta e sábado,  às 19h, ele realiza o espetáculo Caetano Apresenta Teresa, no qual divide o palco com a carioca Teresa Cristina. Será na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. 

Ela começa cantando Cartola –  roteiro baseado no álbum em que interpreta o sambista. Depois o baiano entra em cena e passeia por algumas de suas canções que não fizeram parte da turnê Dois Amigos, Um Século de Música  com Gilberto Gil, entre 2015 e 2016. Finalizam juntos. De sua casa soteropolitana, no Rio Vermelho, Caetano falou por e-mail ao A TARDE da conexão com Teresa Cristina, dos caminhos e descaminhos do Brasil, dos 50 anos da Tropicália, de Anitta, do passeio “comovente”  na Barra com Pedro Almodóvar – e das reformas no lugar –, além do sucesso Me Libera Nega, de Ítalo Gonçalves, o MC Beijinho. 
               
É recorrente em sua vida a parceria com cantoras. De Gal Costa, sua amiga desde os anos 1960, até Maria Gadú, que você conheceu no Rio e gravou o CD/DVD. Isso para citar duas que tiveram alcance massivo. O que mais te chamou a atenção nas interpretações e na personalidade de Teresa Cristina?

Eu ouvia falar de Teresa e logo que saiu o CD com a obra de Paulinho da Viola  comprei para ouvir. Admirei o tom de respeito: tudo o que Paulinho fez estava ali de forma correta. Mas, o que dizia Teresa? Ela parecia se defender das próprias emoções. Depois ouvi coisas em que ela estava mais presente. E sua gravação de minha Gema  me levou a querer que ela cantasse comigo numa das noites da série Obra em Progresso, que mantive no Vivo Rio durante a feitura de Zii e Zie. Quando nos encontramos para ensaiar, uma nova pessoa se revelou: ela sabia tudo sobre minhas canções, tinha uma cabeça 
desembaraçada e uma vastíssima cultura de música popular. 

De Candeia a heavy metal, Teresa estava impregnada de música. E sabia falar sobre isso. Agora, quando ela ia fazer o Teresa Canta Cartola, tive uma conversa com ela sobre a impressão de neutralidade que ela transmitia. Foi um papo rápido. Mas ela soube aproveitar  de forma muito impressionante. O show ficou lindo, com o violão de Carlinhos Sete Cordas dando o amparo preciso para as interpretações sóbrias mas cheias de nuances de Teresa. 

O CD/DVD disso entusiasmou o presidente do selo americano Nonesuch (que lança minha obra nos EUA) e teve lançamento mundial. Para reforçar a promoção do  lançamento, eles me convidaram para dividir um show com ela em Nova York, no qual uma parte fosse o show dela e outra uma apresentação minha só com meu violão. Isso levou a outros convites, inclusive os do Brasil.

Você disse que ficou impressionado com o conhecimento de Teresa Cristina tanto das suas músicas quanto do samba carioca e de sons estrangeiros. Essa   vontade de conhecer profundamente o cancioneiro popular também é constante na sua trajetória. Nos anos 1960 chegou a participar de quadros na  TV com competição para completar a letra da música. Se identificou com esse interesse?

Totalmente. Teresa é um grande papo sobre canções.

Como têm sido as experiências do show no exterior? Você foi no ano passado fazer um espetáculo de celebração e memória com Gilberto Gil e agora volta para apresentar uma cantora ainda desconhecida lá fora…

Os shows foram muito bem. Teresa e Carlinhos arrasam na primeira parte e eu, na segunda, entro com um show totalmente diferente: com canções minhas e apenas duas (estrangeiras) de outros autores. Meu critério foi escolher canções relevantes que não  tivessem constado do repertório do show com Gil. 

Tive a surpresa de gostar mais de minhas antigas canções do que gostava. O show com Gil foi glorioso, uma mirada histórica em tom informal. Com Teresa, é uma apresentação de como se move a música brasileira agora mesmo –  e de umas olhadelas para o lugar que minhas musiquinhas ocupam nela.

Nessas viagens, enxerga a crise política e econômica brasileira reverberando em outros lugares? Há pouco tempo havia uma crença internacional na força crescente do Brasil...

O Brasil sempre foi um grande desconhecido mundial. Minha geração viu isso ensaiar deixar de ser assim. Com a bossa nova de João e Tom, com o Cinema Novo de Glauber e Cia., com o Clube da Esquina de Milton e sua turma –  e, depois, com a redemocratização trazendo Fernando Henrique e Lula para a presidência – a vida brasileira passou a ser vislumbrada pelos povos de fora. 

O país chegou até mesmo –  com a alta das commodities e a grande ampliação do Bolsa Família –  a ser saudado como uma nova força mundial. Acho que nós sabíamos que não era. Brasileiros emigravam como nunca antes em nossa história. E os que aqui ficávamos tínhamos intimidade com o caos moral na organização do poder, sabíamos que viver de vender commodities é esquema de colônia, e conhecíamos o horror das nossas prisões. Nos perguntávamos quando é que tudo iria ruir de novo. Aconteceu. De minha parte, acho que o Brasil não pode se afirmar pelos métodos convencionados pelo Ocidente ainda dominante. Tem que saber que deve inventar outra coisa.

A discussão sobre o Brasil é presente nos seus textos e nas opiniões em entrevistas. Com frequência você exalta os potenciais e as realizações do país, mas também pondera os seus caminhos e descaminhos. Nos últimos anos falou com entusiasmo do pensamento do filósofo Mangabeira Unger, da contínua renovação e do vigor da canção na música brasileira e criticou a extinção do Ministério da Cultura e o impeachment de Dilma Rousseff. Em novembro do ano passado disse que “o Brasil deve repensar tudo”. O que isso significa nesse momento?

Acho que disse quase tudo na resposta anterior. Fui e sou contra o impeachment de Dilma. Acho que desestabiliza as instituições ver legisladores acusados de crimes deporem uma presidente sobre quem não pesavam acusações graves e claras. Sempre sentimos o gosto de Eduardo Cunha conseguindo não ser punido enquanto tocava o processo de impeachment e vir a sê-lo depois de tudo consumado. 

Mesmo assim, os protestos contra a extinção do MinC implicavam um reconhecimento do governo que tinha assumido. O ministro Calero  reagiu duro contra a turma do filme Aquarius mas terminou virando a Clara (personagem encarnada por Sônia Braga, que, no filme, luta contra a violência da especulação imobiliária) do Porto da Barra. Mas o governo segue cheio de geddéis e jucás. Agora, diante do descalabro da situação prisional abrir-se como chaga exposta, temos mais certeza de que tudo deve ser repensado. 

Admiro Mangabeira porque ele sempre procurou as respostas difíceis. Nunca acolheu as interpretações convencionais. E crê num dever de grandeza do Brasil. Conversei poucas vezes com ele e li alguns dos seus livros. É um pensador original e pode contribuir muito na busca do nosso caminho. Talvez conversas como as que tive com ele, somadas ou contrapostas às que tenho com Antonio Cicero, e às leituras da escrita argumentativa tão potentes quanto a de Eduardo Viveiros de Castro, mais o que ouço em canto e papo com sambistas, roqueiros e cancionistas –  e, ainda, as falas curtas mas sempre consequentes de Zé Almino (sem falar em Mautner, Augusto de Campos, Luiz Tenório, Eduardo Giannetti...) me ajudem a formar figuras da nossa situação e da nossa natureza.

Você tem o costume de passar um período do ano em Salvador, geralmente no verão. Há algumas semanas, inclusive, esteve com o cineasta Pedro Almodóvar, foram juntos ao Farol da Barra. O que pensa das recentes transformações urbanas da cidade?

O Farol estava muito bonito e comovente com gente simples da cidade passeando. O céu estava bonito. Andamos do Barravento ao Farol, o contornamos, seguimos andando até o Forte de Santa Maria. Voltamos andando até o Oceania. Tudo era bonito e tocante. 

Parecia que o Brasil era algo muito bom e que as obras feitas em Salvador eram todas corretas. Mas em outros momentos já tive uma impressão de que a obra da Barra fosse discutível. E acho que é. Mas é bom que tudo esteja limpo e cuidado. Quanto vai durar aquele chão taqueado de cimento? Por que tudo tão pouco arborizado? 

Se quem tem carro não tem onde parar lá, qual o risco de a área tender a se tornar lugar perigoso. No momento, estou feliz de estar aqui. Tinha saudades e meus amigos do Rio ou de Madri estavam encantados. Mas temos que prestar atenção.

Os seus vínculos iniciais com o Teatro Vila Velha (inauguração com o Teatro dos Novos e as apresentações no período pré-tropicalista) e a Sala Principal do Teatro Castro Alves (show  de despedida antes do exílio) são marcantes. Gostaria que falasse da sua ligação com a Concha Acústica.

Um dos momentos mais altos da cultura brasileira (como um todo, não apenas do mundo dos espetáculos de música popular) foi um show de Djavan que vi na Concha, em que ele, depois de cantar Capim, deixava a plateia repeti-la inteira, acompanhada da banda. Capim  tem melodia difícil e divisões rítmicas complexas e surpreendentes. 

Mas o público de Djavan, claro, se compõe principalmente de gente que tem talento para a música. Era no tempo do Sua Nota Vale Um Show: o público era majoritariamente de gente do povo e de jovens. Essa gente cantava a canção com segurança perfeita. Era coisa de chorar. É algo que devia ter sido gravado e filmado, para educação dos brasileiros. Somos muito habituados a não caprichar no que fazemos: tínhamos a ilusão de que nossa vida não conta muito mesmo. 

Mas a bossa nova quebrou isso. E Djavan é exemplo alto de onde podemos chegar. Adoro ver shows na Concha e adoro cantar na Concha. Desta vez, espero que os que vão nos ver sejam capazes de silêncio respeitoso (e comovido) e de coro afinado quando for o caso.

A Tropicália está completando 50 anos e homenagens já estão sendo preparadas. Como vai participar disso?

Não fiz planos nenhum  para celebrar e Tropicália. Acho que o show com Gil fez isso por mais de um ano.

A atitude estética-política de quebra de preconceitos e fronteiras entre estilos por meio da afirmação da mistura de sons e uma certa alteridade oswaldiana-atropófaga são legados da Tropicália, sobretudo para a música brasileira contemporânea e artistas do chamado mercado independente (não necessariamente por escolha). Em entrevista à BBC no ano passado você falou que a Tropicália inexplorada é o “funk carioca, o sertanejo universitário e os restos da axé music”. Ou seja, o mainstream. Considera isso um paradoxo?

Não. Em primeiro lugar, acho que chamar o funk carioca de mainstream soa esquisito: uma forma desenvolvida por favelados, esculachada  pela crítica durante anos e ainda considerada algo tosco e que não merece respeito não é bem um exemplo de mainstream. 

Depois, a axé music lutou, bravamente, por décadas, por algum prestígio entre os críticos e os bem-pensantes. O sertanejo universitário é a mais nova (e influenciada pelo axé) marola da grande onda do centro-oeste, de que a cultura dominante do litoral sempre sempre guardou desdenhosa distância. Finalmente, a Tropicália foi também mainstream, com algumas canções nas paradas da época, apresentações no Jovem Guarda e no Chacrinha, um programa de TV só seu etc. 

Seria falta de memória pensar que a Tropicália foi um movimento de vanguarda cujos participantes agiram e ficaram na margem. Minha resposta a que você se refere foi provocativa. Enfatizava, de propósito, só um aspecto da realidade. Sei que Nação Zumbi, Adriana Calcanhotto, Liniker, Thiago Amud e muitos outros são expressão de aspectos fundamentais da Tropicália. Mas minha resposta provocava pensar mais do que isso. Ou isso de modo melhor.  

Em 2015, no texto de apresentação do disco Mãeana, de Ana Cláudia Lomelino, você elogiou Anitta.  Focou na questão técnica, nas suas palavras “a mais dotada” cantora brasileira nesse sentido. Porém, têm outros aspectos – repertório, musicalidade, presença, espontaneidade –  que na ocasião você não comentou. Como vê essas dimensões do trabalho dela?

O que mais me impressionou em Anitta, num ensaio para o Prêmio Multishow de dois anos atrás, foi a musicalidade. Ela cantava tão bem (e fazendo aqueles ornamentos que parecem eletrônicos), tão afinada e fincada no ritmo que perguntei a Kassin se era dublagem. 

Mas logo vi que ela parava, falava e voltava a cantar com a mesma categoria. Um ano depois, fiquei maravilhado ao ouvi-la cantar minha Gatas Extraordinárias. Durante a apresentação, achei que ela (em primeiro lugar), Pablo e Gerônimo  tinham sido os melhores da noite. E olha que a noite teve artistas muito bons: Ivete, Gadú, duplas sertanejas afinadíssimas etc. 

Mencionei Anitta no release do disco de Ana Claudia porque sou maluco. Parece que preciso mostrar minha independência para dar mais força às minhas escolhas. Ana Claudia tem o essencial de uma tradição cool que Anitta está longe de captar. Mas não era uma comparação. Nesse caso, não há lugar para comparação. De todo modo, ainda acho que citar Anitta no texto sobre uma igualmente nova cantora saída de ambiente totalmente diferente ajuda a desembaraçar a cabeça de quem lê e vai ouvir.

Pretende voltar a fazer shows acompanhado por um conjunto maior (o último talvez tenha sido Noites do Norte, entre 2001 e 2003) após os discos com a banda Cê –  formada por três músicos –  e as últimas turnês voz e violão?

Pode ser. Estou gostando das minhas músicas assim só com violão. Tenho vontade de tocar com meus filhos. Tenho saudade da banda Cê. Vou fazer alguma coisa com Jaquinho  (o instrumentista Jaques Morelenbaum). Mas nada é ainda um plano concreto.

O hit Me Libera Nega, do cantor e compositor MC Beijinho, ficou conhecido de modo inusitado e ganhou um grande destaque em pouco tempo. Inclusive, um vídeo no qual você canta esse novo sucesso tem circulado em redes sociais. Acompanhou a música feita na Bahia em 2016?

Não posso dizer que acompanhei. Em geral, chego aqui e ouço o que está sendo mais tocado. Me deparei com o caso especial do Ítalo Gonçalves, o MC Beijinho, com aquela música maravilhosa Me Libera, Nega. É uma canção especialmente inspirada e terna.  

O vídeo em que ele a canta (muito bem, com aquele efeito pseudo-eletrônico na voz) algemado no porta-mala de um carro de polícia é uma joia do audiovisual brasileiro. Essa frase “me libera”, cantada assim, no momento da prisão, mas com outra intenção semântica (ele está pedindo à nega para deixar que ele a acaricie – e ainda promete continuar desejando-a quando ela já for idosa!) soa lindamente e é rica de sentidos. 

A melhor gravação, no entanto, é uma em que ele está com amigos numa rua ou pátio e a canta inteira. Ele, além de inspirado, é muito afinado.  Mas vou ouvindo o que pinta entre dezembro e o Carnaval. Sempre no meio do Carnaval aprendo alguma coisa incrível de que nada sabia antes.

In:http://atarde.uol.com.br
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