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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura: o helicóptero que passou dentro de um túnel no Rio de Janeiro



Em 1967, o cantor Roberto Carlos e o movimento musical
da Jovem Guarda faziam grande sucesso. O cineasta
Roberto Farias,inspirado no sucesso dos filmes dos 
Beatles, produziu um filme estrelado pelo cantor, 
intitulado "Roberto Carlos em ritmo de aventura", 
em cuja trama ele era perseguido por uma quadrilha 
internacional,enquanto fazia um filme. O principal 
vilão era interpretado por José Lewgoy.

A história, um tanto ingênua, serviu como fundo para 
clipes de músicas de grande sucesso do cantor, à 
época, como "Quando", "Como é grande o meu amor por você", 
"Eu sou terrível" e outras. Na verdade, essa trilha sonora foi 
uma das melhores de todos os tempos, entre todas as  
trilhas produzidas para filmes, no Brasil.
Produzido há 44 anos, o filme é repleto de cenas 
extremamente nostálgicas de cidades como o Rio de Janeiro, 
São Paulo, Nova York e outras.

Cena de aventura do filme no Corcovado
Todavia,a mais famosa e memorável sequência, 
de aproximadamente seis minutos, produzida para o filme
foi um sobrevoo da cidade do Rio de Janeiro, a bordo
de um helicóptero, a baixa altura.

Executar tal sequência não foi uma tarefa fácil. 
O helicóptero foi contratado junto à VOTEC 
- Vôos Técnicos e Executivos S/A. Era um Hughes 300, 
matriculado PT-HAZ, pilotado pelo experiente e hábil 
comandante Antônio Carlos Nascimento.

A entrada do Túnel do Pasmado, em Botafogo, em cena do filme

Era necessário obter autorização tanto da Aeronáutica 
quanto da Prefeitura do Rio de Janeiro, pois o helicóptero 
passaria por dentro do Túnel do Pasmado, que liga o 
bairro do Botafogo aos de Copacabana e Urca, pelas 
Avenidas das Nações Unidas e Lauro Sodré, exigindo 
então um bloqueio temporário do trânsito no local. 
A preparação para tal sequência levou um mês inteiro.

A prefeitura concedeu autorização, válida para uma única 
manhã de domingo. O DAC - Departamento de Aviação 
Civil pediu ao piloto que fizesse uma exposição de como 
iria fazer o voo dentro do túnel, pois havia a preocupação 
que vento produzido pelo rotor subisse pelas paredes 
do túnel e derrubasse a aeronave. O comandante 
respondeu todas as perguntas e, diante de sua confiança, 
o DAC autorizou o voo.

De posse das duas autorizações, o comandante Nascimento 
e a equipe de filmagem foram para o túnel, em uma 
manhã de domingo, mas o voo não pode ser feito. 
Havia um engarrafamento de trânsito no local, devido a um 
trabalho de repintura das ruas, que deveria ter sido feita 
no dia anterior, mas que acabou atrasando. 
Um funcionário da Prefeitura foi ao local e pediu, 
"pelo amor de Deus", para não fazerem a filmagem 
naquele dia, para não piorar as coisas.

Não restou outra opção, senão adiar a filmagem. 
A produção teve que conseguir todas as autorizações 
de novo, pois eram válidas apenas para aquele dia. 
Ainda por cima, agora teriam que enfrentar, além 
da burocracia, o medo dos funcionários, que 
temiam que alguma coisa não desse certo, e 
que atrapalhasse o serviço deles.

Depois de duas semanas, a equipe novamente se 
 deslocou para o túnel, na entrada do lado do Botafogo. 
O piloto executou primeiro um voo de teste, o qual 
foi muito bem sucedido, apesar das dificuldades 
apresentadas: o túnel era baixo (6,3 metros de 
altura máxima), estreito (20 metros) e, embora não 
fosse muito longo (220 metros), tinha o 
Viaduto Pedro Álvares Cabral logo antes da entrada. 
Um único policial bloqueou o trânsito, pois as autoridades 
queriam o "menor escândalo possível".

Sobrevoando o Rio, em meio aos prédios

O voo seguinte foi feito com o próprio diretor Roberto Farias, 
com a câmera, ao lado do piloto. O helicóptero passou 
acima do viaduto, desceu entre esse e a boca do 
túnel, passou o mesmo em voo rasante, sobrevoou 
o Morro da Babilônia, ainda sem a favela, e passou 
a sobrevoar Copacabana, depois o centro do Rio, 
a Baía da Guanabara, até finalmente pousar no heliponto 
do prédio do Banco do Estado da Guanabara (BEG), 
que depois viraria Banerj e hoje é o Banco Itaú.

As cenas gravadas a bordo são de tirar o fôlego: 
o helicóptero, conduzido com audácia e precisão, voou 
em meio aos prédios da cidade. Logo no início, 
nota-se a ausência do Shopping Rio-Sul e do Edifício 
Rio-Sul Center, construídos muito depois, no final 
dos anos 70. Em outra cena, aparece o Palácio Monroe, 
que foi sede do Senado Federal, quando o Rio era a 
Capital Federal, e que foi demolido, sem necessidade, 
para as obras do Metrô, em março de 1976.


O Palácio Monroe

Pode-se ver, ainda, em Copacabana, a Avenida Atlântica, 
antes de ser duplicada, e sem o famoso calçadão.
O helicóptero sobrevoou, ainda, o saudoso transatlântico 
Eugênio C., que por mais de 20 anos ligou a Europa 
à América do Sul, e era assíduo frequentador do 
Porto do Rio de Janeiro. Pode-se ver, ainda, 
a Baía da Guanabara sem a Ponte Rio-Niterói.

O transatlântico italiano "Eugênio C"
Durante o voo, são executadas duas músicas,  
"Namoradinha de um amigo meu" e "Canzone per te". 
Roberto Carlos ganharia o Festival de San Remo 
no ano seguinte, com essa última música, de 
autoria de Sérgio Endrigo.

Depois do pouso, o helicóptero decolou e voltou para 
o túnel do Pasmado, repetindo a façanha da travessia,
com Roberto Farias, agora sem a câmera, servindo 
de dublê para Roberto Carlos, para as tomadas externas.

Roberto no terraço do Edifício Copan, em São Paulo, cantando
"Quando", em outra sequência do filme
Ao todo, o filme "Roberto Carlos em ritmo de aventura" 
é uma obra interessante, e hoje, muito nostálgica. 
Todos os clipes foram muito bem feitos, embora as 
"aventuras" fossem, em grande parte, inverossímeis. 
Entre as cenas de ação, além da sequência do helicóptero, 
merecem destaque uma perseguição de carros em plena 
descida do Corcovado e um voo da Esquadrilha da Fumaça, 
ainda com os velhos North American T-6. Em suma, 
o filme é imperdível.

Nos dias de hoje, seria praticamente impossível realizar 
a façanha do Comandante Nascimento no Túnel do Pasmado. 
Tal façanha talvez nem seria mais necessária, com a 
tecnologia de hoje, onde a computação gráfica 
e os efeitos especiais dominam o cinema. 
De qualquer forma, o sobrevoo do Rio de Janeiro de 1967, 
a bordo do pequeno Hughes, com ou sem 
Roberto Carlos, será sempre uma das mais 
marcantes cenas do cinema brasileiro.

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