ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

18 de maio de 2016

Rádios em Portugal: E agora, para variar, vamos ter música portuguesa!



Por: Armindo Guimarães
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Em Portugal, a música portuguesa vai bem, mas o mesmo já não podem dizer aqueles que a compõem, que a cantam.

A necessidade da adoção de quotas mínimas de música portuguesa a serem obrigatoriamente difundidas pelas rádios, através da Lei da Rádio, nunca foi, nem é, respeitada. Se formos a Espanha, ouvimos música espanhola, se formos a França, música francesa, sem que lei análoga exista naqueles e noutros países, enquanto em Portugal qualquer turista que o visite avaliará pelas rádios que está num país anglo-saxónico, já que a maioria das rádios em Portugal, não só não transmitem música portuguesa, como nem sequer música de língua portuguesa, ou seja, dos países lusófonos, e muito menos espanhola, francesa, alemã, holandesa. Música anglo-saxónica, isso, sim, até dizer, chega!

E o que devia ser uma regra é um exceção. Experimentem, agora mesmo, uma rádio portuguesa, e pode ser que tenham a sorte de a sintonizarem num daqueles momentos maravilhosos em que o locutor diz: "E agora, vamos ter um espaço de música portuguesa!". E os portugueses agradecem momento tão especial que justifica a contribuição audiovisual que pagam.

Contudo, nas rádios locais, quiçá mais próximas dos ouvintes, ainda é possível ouvir-se os tradicionais Discos Pe(r)didos.

- Rádio Bom dia. Boa tarde, estimado ouvinte, peça o que quiser, mas não se esqueça de dizer a frase: I love música portuguesa.
- Olá, senhor Antero, daqui fala a Isaurinha da Areosa, tá bonzinho? Agora a nossa rádio chama-se Rádio Bom dia boa tarde?
- Olá, menina Isaurinha, eu disse Rádio Bom dia, ponto final, e depois disse boa tarde, para a cumprimentar. Seja bem-vinda ao nosso programa.
- Iria jurar que não ouvi o senhor Antero dizer ponto final, mas está bem. Eu queria ouvir o Pedro Barroso numa música que não me lembro o título.
- É fácil, menina Isaurinha. Se a trautear pode ser que eu saiba qual é o título.
- Aprendi a amar a madrugada, Que desponta em mim quando sorris, És um rio cheio de água lavada, E dás rumo à fragata…
- Menina Isaurinha, não precisa de cantar mais. É a “Menina dos olhos de água”. Agora tem que dizer a frase.
- A frase é: adoro música portuguesa!
- Não é assim, menina Isaurinha, tem que dizer: I love música portuguesa.
- Ó senhor Antero, como se não bastasse a televisão, com os programas com nomes estrangeiros, agora também temos a rádio?
- Menina Isaurinha, são normas da produção que nós locutores temos que seguir. Por isso…
- Estamos no fim do mundo, senhor Antero!
- A menina Isaurinha queria dizer, no fim da língua portuguesa. Eh eh eh Diga a frase, sim?
- A frase é: I love música portuguesa. Senhor Antero, posso dedicar a música?
- Pode, sim.
- Queria dedicar ao meu falecido Paulinho, Deus o tenha em eterno descanso e a terra lhe seja leve.
- Com certeza, menina Isaurinha. Está na hora de eu me despir, digo, de eu me despedir da menina Isaurinha. Obrigado pela sua participação.
- O senhor Antero disse que ia despir-se?
- Disse, mas depois emendei, pois faço sempre confusão com essas duas palavras.
- O senhor Antero é um malandreco! Agora com as novas normas da produção, você não tem que se despedir em inglês?
- Por enquanto, não. Mas nunca se sabe. Eh eh eh
- Então vou eu despedir-me com um gudvai.
- Depois o malandreco sou eu. Eh eh eh Gudvai que eu gudfico!

Diz o art.º 41.º da Lei n.º 54/2010, de 24 de Dezembro (Lei da Rádio):

Difusão de música portuguesa

1 - A programação musical dos serviços de programas radiofónicos é obrigatoriamente preenchida, em quota mínima variável de 25 % a 40 %, com música portuguesa.

2 - Para os efeitos do presente artigo, consideram-se música portuguesa as composições musicais:

a) Que veiculem a língua portuguesa ou reflitam o património cultural português, inspirando-se, nomeadamente, nas suas tradições, ambientes ou sonoridades características, seja qual for a nacionalidade dos seus autores ou intérpretes; ou

b) Que, não veiculando a língua portuguesa por razões associadas à natureza dos géneros musicais praticados, representem uma contribuição para a cultura portuguesa.

E agora perguntem a Fausto Bordalo Dias, Vitorino, José Mário Branco, Pedro Barroso, Sérgio Godinho, Amélia Muge, Janita Salomé, Pedro Caldeira Cabral, e a muitos outros quem é que lhes anda a dar música.

E neste fado, está também o Fado, Património Cultural Imaterial da Humanidade, que raramente é ouvido e achado.

Compete à Entidade Reguladora para a Comunicação Social a fiscalização do cumprimento da lei. Desconhecemos se tal fiscalização é realizada, mas acreditamos que não, porquanto está atual a notícia que veio a terreiro em 14 de Julho de 2007, já lá vão 9 anos, sob o título “Rádios não cumprem quotas de música portuguesa”. Ver aqui http://www.rtp.pt/noticias/cultura/radios-nao-cumprem-quotas-de-musica-portuguesa_n161924
Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

2 comentários:

  1. Desde do meu início na rádio, como editor, sempre se dizia que as rádios em Portugal teriam que dar muito mais atenção à nossa música, aos nossos cantores, em suma. E agora é caso para se dizer até que enfim.

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    1. Amigo Carlos Alberto, o seu "até que enfim", infelizmente não se aplica, já que o título do artigo, tal como o texto, e a foto que o suporta, é uma critica em jeito de sátira. Grande abraço. :)

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