O Menino de 6 Anos que o Porto Nunca Deixou

Memória íntima de Rui Duque sobre a infância no Porto, a Capela das Almas e a amizade que resistiu ao tempo.
Rua de Santa Catarina e Capela das Almas, no Porto, em 28-10-2025

A cidade muda, mas as memórias verdadeiras continuam a saber a infância

"O tempo muda a pedra da cidade, mas não consegue 
desgastar o granito das memórias que nos fizeram homens."
Vímara Porto

 
Por: Rui Duque


​Em 1963, o Porto tinha uma luz diferente, filtrada pelo granito e pela neblina que subia do rio. Eu era apenas um menino de seis anos quando a minha mãe me entregou aos cuidados de uma ama na Travessa das Almas. Ali, naquela rua de vizinhança vibrante, vivi a minha pequena eternidade semanal, crescendo entre o afeto daquela casa e a liberdade do asfalto.

​A Travessa das Almas era o nosso reino de descobertas, mas era a Rua de Santa Catarina que me enchia os olhos com o seu movimento e elegância.
 
Lembro-me de correr por ali fora, com o coração aos saltos, a tentar alcançar os elétricos que subiam a encosta. Naquelas aventuras, eu tinha a companhia constante do Armindo, do Augusto e do Bernardo, os meus parceiros de todas as folias e risadas. Mais perto de nós, sempre atento, estava o Sebastião. Mais velho e sensato — hoje com os seus admiráveis 80 anos —, o Sebastião era quem nos guiava, oferecendo os seus conselhos e garantindo que os nossos passos de criança não se perdessem na imensidão da cidade.
 
No Bolhão, os amigos Sebastião, Bernardo, Rui, Gusto e Mindo.

​Havia uma doçura especial naqueles dias. Lembro-me de ficarmos parados, quase hipnotizados, a ouvir as canções de Roberto Carlos que ecoavam pelas janelas, enquanto o nosso olhar de menino se perdia numa vizinha muito linda que vivia ali perto. Era o despertar de um romantismo inocente, embalado por melodias que ainda hoje sei de cor.

​Tudo isso era pontuado pelo badalar solene do sino da Capela das Almas. Aquele som parecia parar o mundo. Foi naquela capela, emoldurada pelo azul profundo dos azulejos, que vivi um momento sagrado: o dia em que, com apenas seis anos, tomei a hóstia pela primeira vez. O toque do sino e a luz que entrava pela porta ficaram gravados em mim como uma marca de pureza e pertença.

​O tempo passou e as décadas voaram, mas os laços que o Porto ajudou a selar nunca se quebraram. Em 2025, o destino levou-me de volta para visitar os amigos e recordar. Reencontrei o Sebastião, o Armindo, o Augusto e o Bernardo para uma caminhada pelas nossas memórias felizes. Ao percorrermos juntos os mesmos caminhos, passando novamente pela Capela e pela Santa Catarina, o peso dos anos pareceu desvanecer por entre as pedras da calçada.

​O Sebastião continua a ser a nossa voz da experiência, e nós, para ele, continuaremos a ser os garotos que ele protegia. Percebi que, embora a cidade tenha mudado, a nossa essência permanece intacta. Olhar para este grupo é como abraçar a minha própria infância; um lembrete feliz de que seremos sempre aqueles meninos que, sob o olhar da Capela das Almas e ao som de uma canção romântica, aprenderam que a maior riqueza da vida é a amizade que resiste ao tempo.
 
*Nota do Editor – Portal Splish Splash*
Este texto é um testemunho raro da memória afetiva do Porto, onde a cidade não é cenário, mas personagem viva. Um elogio simples e honesto à amizade que sobrevive às décadas.

Porto - Portugal


1 Comentários

Comentários

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  1. Oi maninho, que recordação linda! bateu fundo no meu coração. Me fez lembrar do meu tempo em Franca/SP, e de Santos/SP, quando para lá nos mudamos justamente em 1963. Foi lá que Roberto Carlos entrou na minha vida, justamente na Jovem Guarda. Lá, em Santos, eu criei meus filhos, sempre ao som das músicas e da voz de Roberto Carlos. Meus filhos cresceram ouvindo e vendo RC. Tenho seguido o crescimento de Franca e de Santos, e como crescem, mas para mim elas continuam como eu as conheci e vivenciei. Amigos? Já não os tenho de ambas cidades. Os que tenho hoje foram me dados por Deus e Roberto Carlos, como você, meu irmão, embora você tenha idade para ser meu filho.
    Desculpe o comentário prolongado mas essas lembranças mexeram comigo.
    Te amo.
    Beijinho.

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