Humor e Sensibilidade: O Mesmo Coração

Reflexão sobre como o humor refinado e a sensibilidade emocional coexistem na forma como lidamos com o riso, a perda e os momentos mais humanos da vid
Cartaz sobre a relação entre humor e sensibilidade na experiência humana

Quando o riso nasce da atenção ao humano, a emoção vem do mesmo lugar

O humor que aproxima nasce da sensibilidade que também nos faz chorar

"Quem sabe rir da vida, sabe sentir quando ela não tem graça nenhuma."
Vímara Porto

Por: Armindo Guimarães


Há quem acredite que o humor e a sensibilidade vivem em casas separadas. Que quem faz rir os outros terá, por natureza, uma espécie de armadura emocional que o protege — ou o afasta — das coisas mais profundas da vida. Como se o riso fosse sempre sinal de leveza e a lágrima, inevitavelmente, sinal de gravidade.

Mas nem sempre é assim.

Sempre apreciei um humor mais refinado. Aquele que nasce da observação, da ironia subtil, do reconhecimento das pequenas contradições humanas que nos tornam tão… humanos. Um humor que cria boa disposição entre família e amigos sem precisar de humilhar ninguém, sem recorrer ao choque fácil ou à troça gratuita. Um humor que aproxima, em vez de dividir.

E, no entanto, há dias em que a vida nos lembra que a mesma sensibilidade que nos permite encontrar graça no quotidiano é também aquela que nos deixa desarmados perante o que realmente importa.

Recentemente, estive presente no funeral de um amigo com quem convivia regularmente em atividades desportivas, passeios e momentos de convívio. Tinha deixado expresso o desejo de ser cremado e de não ter qualquer cerimónia religiosa. Assim, à hora marcada, a única filha, ao lado da mãe junto ao caixão, informou os presentes desse seu último desejo.

De seguida, puxou do telemóvel e começou a ler um texto que tinha escrito para o pai.

Falou do homem que ele foi. De como era um bom pai, ainda que por vezes teimoso nas suas convicções, mas sempre disponível para a família e para quem dele precisasse. Falou de um desejo antigo que parecia destinado a nunca se cumprir: o de ter uma neta. O tempo ia passando e a esperança esmorecia… até ao dia em que chegou a notícia de que, afinal, seria mesmo uma menina. A Beatriz.

A filha convidou então os pais, que vivem no Porto, a irem a Setúbal conhecer a neta em determinada data. Entretanto, o pai perde a voz. O dia chega, mas a doença não permite a viagem. Dias depois, é a neta que vai a casa dos avós — e o avô, finalmente, pega na sua Beatriz ao colo.

Morreu poucos dias depois. Não consegui conter as lágrimas.

Pelo caminho de regresso, ocorreu-me o quão estranho poderia parecer que alguém que se identifica com o humor — que tantas vezes cria boa disposição nos outros — se deixasse comover daquela forma. Mas talvez não haja, afinal, estranheza nenhuma.

Porque o humor que verdadeiramente une não nasce da indiferença. Nasce da atenção.

E quem está atento às fragilidades, às ironias e aos absurdos da vida — quem repara nas pequenas verdades escondidas nas rotinas de todos os dias — está, inevitavelmente, mais exposto ao que é essencial quando ele se revela sem aviso.

No humor, há uma folga entre o que esperamos e o que acontece. No luto, não há folga nenhuma.

Talvez por isso o humor refinado seja, no fundo, uma tentativa de criar pequenas almofadas simbólicas para as quedas inevitáveis da vida. Não para negar a dor, mas para que ela não nos esmague sempre da mesma maneira.

Porque, às vezes, a vida resume-se a isto:

- um avô que esperou por uma neta
- uma viagem que a doença roubou
- um colo que chegou mesmo a tempo
- e uma morte que veio logo a seguir 
3 Comentários

Comentários

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  1. Menino Armindo, que texto emocionante!
    Conseguiste nos emocionar narrando tudo o que sentiste estando lá participando da despedida do teu amigo. 😔

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  2. Oi maninho querido! Que texto lindo! Eu que tenho o coração apertado pelo luto e saudade, senti com você o seu pesar. Te amo! Beijinho.

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