Os Bandeirantes - Parte 5 de 6

"A exploração das índias, pelos brancos e mamelucos, era uma constante em toda a Colônia. Desconsideradas na sua condição humana, eram violentadas e apropriadas das mais diversas formais. Essa situação se agudizava ainda mais nas bandeiras, onde grassava a permissividade".


Os Bandeirantes - Parte 5 de 6

Por: Leandro Vilar

"A exploração das índias, pelos brancos e mamelucos, era uma constante em toda a Colônia. Desconsideradas na sua condição humana, eram violentadas e apropriadas das mais diversas formais. Essa situação se agudizava ainda mais nas bandeiras, onde grassava a permissividade". (VOLPATO, 1986, p. 73).

Sabe-se através de relatos de cronistas da época que era comum muitos bandeirantes terem filhos bastardos com índias, onde alguns destes filhos eram reconhecidos, como pode ser visto em testamentos deixados por alguns destes bandeirantes, onde os mesmos deixavam heranças para estes filhos bastardos, ou simplesmente o filho bastardo não era reconhecido oficialmente, mas a sua mãe era comprada e passava a viver com a família do bandeirante. Alguns destes filhos bastardos se tornaram bandeirantes e acompanharam seus pais nas bandeiras.

Após uma tribo ser conquistada e subjugada, a mesma era pilhada, os índios eram acorrentados, e as mulheres eram divididas entre os membros como espólios de guerra. Ao longo das bandeiras, as mulheres eram abusadas constantemente, além de também serem obrigadas a servirem seus "donos". Houveram casos onde índias que possuíam maridos, tiveram os maridos mortos, para que estes não causassem problemas aos bandeirantes que as queriam como concubinas. O concubinato indígena fora comum nos sertões, até mesmo o africano também, pois os senhores de engenho, possuíam africanas como concubinas, e filhos bastardos com estas. Até mesmo homens que não eram senhores de engenho, chegavam a ter entre suas próprias escravas, algumas amantes. Embora a Igreja condenasse tal ato de concubinato e adultério, muitos o praticavam pela colônia, principalmente nas fazendas e nas regiões mais distantes onde a "fiscalização" da Igreja era menor.

Porém, uma questão deve ter vindo a mente de alguns leitores: se havia índios que participavam das bandeiras, estes não relutavam em ajudar os outros índios? A resposta era que havia uns que queriam ajudar os outros índios, mas se assim o tentassem, seriam mortos. Por outro lado, entre os povos indígenas do Brasil, não havia uma noção de uma identidade nacional, embora pudessem pertencer a mesma etnia, falar a mesma língua e ter os mesmos costumes, cada tribo era uma sociedade particular em si. As alianças quando formadas, eram mais de ordem bélica, para formar forças contra um inimigo em comum, embora os brancos fossem esse inimigo em comum, muitas tribos lutavam cada uma por si. Além disso, havia o fato de que algumas tribos indígenas eram inimigas de outras, logo, lutar contra estes não seria algo tão ruim assim, mas de certa forma digno ao indígena, pois a guerra estava profundamente enraizada em sua cultura. 

A fé do bandeirante

"No entanto, o homem dos Tempos Modernos era profundamente religioso. Seu aparato ideológico o mantinha muito vinculado a justificativas religiosas, sua vida estava profundamente vinculada a crenças e dogmas. Sua religiosidade, porém, trazia em si muitas das características presentes no cotidiano". (VOLPATO, 1986, p. 74).

Geralmente de forma errônea o senso comum acredita que a Igreja fora apenas forte durante a Idade Média, mas na realidade isso está errado. A Igreja se mantivera forte até o século XIX, embora não com a mesma influência em todas as nações cristãs, um fato a respeito disso é que o sistema inquisitorial se tornou poderoso a partir da Idade Moderna e continuou ativo até o primeiro quinquênio do século XIX, em Portugal, Espanha e Itália. Muitas mulheres que foram queimadas vivas por bruxaria foram condenadas durante ao longo da Idade Moderna, assim como pessoas acusadas de vampirismo e homens acusados de licantropia. O medo de ir para o Inferno era grande mesmo na modernidade, assim como o fora no período medieval. 

"A maior desgraça que poderia cair sobre a cabeça de um cristão da Idade Moderna era morrer sem o consolo dos Santos Sacramentos. Isso porque, mesmo que o indivíduo, tivesse uma vida devassa, Deus abria-lhe o caminho para o Céu através do arrependimento, nos últimos instantes da vida". (VOLPATO, 1986, p. 74-75).

A exigência de um capelão nas bandeiras era algo obrigatório, pois em caso de algum bandeirante estivesse a beira da morte ou ter morrido, o capelão lhe daria a extrema-unção e realizaria a missa fúnebre. Os bandeirantes acreditavam que por mais que tivessem cometido assassinatos, estupros, adultério, vingança, inveja, traição, luxúria, ganância, ira, etc., Deus iria perdoá-los, diante de seu arrependimento, pois a extrema-unção era entendida como um salvo-conduto para poderem ir para o Céu. 

"O capelão era figura obrigatória, e dele dá notícias, em novembro de 1692, Domingos Jorge Velho, exigindo sua presença para a entrada que pretende realizar: 'Peço-lhe pelo amor de Deus me mande um clérigo em falta de um frade, poi se não pode andar na campanha e sendo com tanto risco de vida sem capelão". (DAVIDOFF, 1984, p. 26).

Porém, não bastava apenas o arrependimento no leito de morte, alguns bandeirantes, em seus últimos momentos ou ainda em vida, deixava acertado com seus pares, que em caso de morte, parte de seus bens seria doada para caridade, missas deveriam ser rezadas por sua alma; filhos bastardos deveriam ser reconhecidos, dívida pendentes deveriam ser quitadas pelos seus familiares. Dessa forma, acreditava-se que Deus teria maiores motivos para perdoar seus pecados. 

Além disso, algumas entidades religiosas patrocinaram algumas bandeiras. Os jesuítas foram contra as bandeiras de preação, porém as ordens carmelita e franciscana chegaram a patrocinar algumas bandeiras, no interesse de poderem criar missões, e conseguir índios para serem catequizados, pois um dos objetivos destas ordens no Brasil era a catequização do máximo número possível de indígenas. Havia também a justificativa da chamada "guerra justa", onde os indígenas seriam combatidos, por estarem ameaçando os cristãos, e por serem pagãos, era dever dos cristãos confrontá-los a fim de evangelizá-los. Em 1570, o rei de Portugal limitou a ação de preação dos índios, mas a lei não tivera êxito. Em 1596, cinco leis já haviam sido decretadas para se evitar as bandeiras de preação e  trabalho escravo indígena, mas isso acabou na surtindo efeito, pois a escravidão se mantivera pelos séculos seguintes. 

Os bandeirantes como mercenários, paramilitares e rapinas

Alguns bandeirantes no início do Ciclo das Bandeiras, chegaram a lutar contra os índios e participarem de entradas contra estes, com a dificuldade e severidade da vida de um bandeirante na selva para ter que realizar seu trabalho, muitos acabaram se tornando bons guerreiros, isso levou a serem convocados no século XVII a ajudar particulares e autoridades do Estado colonial a combater algumas ameaças ao governo e a paz da colônia. Nesse caso, algumas bandeiras que migraram para o Nordeste, foram no intuito meramente bélico, passaram a atuar como mercenários ou uma força paramilitar. O governo ofereceu recompensas como terras, títulos, patentes e mercês, para atrair esses bandeirantes a lhe servir, e muitos consentiram, e se tornaram fazendeiros, ganharam patentes no exército, assumiram cargos públicos, etc. 

"São Paulo chegou mesmo a sofrer um processo de 'militarização', como atesta a decisão do governador geral D. Francisco de Souza, de 1610, no sentido de que se fizesse o alistamento militar de 'toda a gente de guerra', desde os quatorze anos, o que incluía os índios, e o arrolamento de todas as armas, espingardas, espadas, arcos e flechas". (DAVIDOFF, 1984, p. 26. 

Nas primeiras décadas do século XVII os bandeirantes já eram conhecidos na colônia e no reino como experientes desbravadores e guerreiros, fama esta conquistada com mais de quarenta anos de expedições. Além disso, os bandeirantes eram conhecidos por serem corajosos e rudes. 

"As condições de defesa da colonização no Brasil sempre foram precárias. A distância da Metrópole, a grande extensão da costa, o grande custo da manutenção de um aparelhamento militar condizente na Colônia eram fatores que dificultavam a melhoria das condições da defesa do Brasil, no primeiro século do descobrimento". (VOLPATO, 1986, p. 47).

Alguns portos brasileiros foram vítimas de piratas franceses, holandeses, ingleses, espanhóis e até mesmo portugueses. O comércio de açúcar no final do século XVI e no começo do XVII era bem lucrativo, açúcar era o "ouro branco" da época, e o Brasil já despontava como o maior produtor de açúcar do mundo. Há relatos de navios piratas que invadiram a baía de Guanabara e a baía de Todos os Santos, e no caso da Capitania de São Vicente, o porto de Santos chegou a ser roubado algumas vezes, uma das soluções que as autoridades encontraram, fora contratar bandeiras para atuarem como forças paramilitares e defenderem os portos. Há relatos de bandeiras que atuaram em Santos, no Rio de Janeiro, em Salvador e Recife.

Além da defesa dos portos, bandeiras também foram convocadas para destruírem quilombos e mocambos no Nordeste, principalmente na Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará. As bandeiras que levavam centenas de homens na ocasião, juntavam forças com tropas locais para combater os quilombolas, destruindo o quilombo e aprisionando os quilombolas. Um dos exemplos acerca de bandeiras contra quilombos fora a bandeira de Domingos Jorge Velho (1641-1705) no final do século XVII já era um dos mais respeitados e famosos bandeirantes. Em 1693 ele chegou a Pernambuco com a missão de destruir o famoso Quilombo dos Palmares, o maior quilombo do Brasil que chegou a conter entre 15 a 20 mil indivíduos, entre negros, índios, mestiços e brancos. Dois anos se passaram de intensos conflitos, pois Palmares era uma verdadeira fortaleza, mas finalmente em 20 de novembro de 1695, o quilombo caiu, muitos foram mortos, outros fugiram e os que ficaram foram recapturados. Zumbi dos Palmares o último líder do quilombo fora morto e decapitado, e sua cabeça fora exibida em Recife como um troféu de guerra e um aviso para aqueles que tentassem se rebelar novamente. 

Mas, além de defenderem portos e lutar contra quilombolas, os bandeirantes também combateram os holandeses e os espanhóis. Em 1624 durante o período da União Ibérica (1580-1640) período no qual Portugal e seu império ultramarino estavam sob o controle da Dinastia Filipina de Espanha, que fora governada pelos reis Filipe II, Filipe III e Filipe IV, os holandeses ansiosos em conseguirem terras no Brasil e terem um maior acesso ao lucrativo comércio açucareiro, tomaram a capital Salvador e ali permaneceram por quase um ano, vindo a ser expulsos no ano seguinte, porém cinco anos depois eles retornaram e conquistaram Recife e Olinda, e posteriormente Pernambuco, a principal produtora de açúcar da colônia. 

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