Os Bandeirantes - Parte 6 de 6



Os Bandeirantes - Parte 6 de 6

Por: Leandro Vilar

O governo-geral e a Coroa espanhola, convocaram bandeiras para ajudarem as forças coloniais a expulsarem os holandeses. No entanto, de 1630 a 1637, os holandeses acabaram conquistando a Paraíba e o Rio Grande do Norte, os conflitos não tiveram sucesso e pararam por algum tempo. A partir de 1644, novas rebeliões iniciadas em Pernambuco, logo após a saída de Maurício de Nassau do cargo de governador da Nova Holanda, como ficou conhecida a colônia neerlandesa no Brasil, levou a convocação de tropas paramilitares, incluindo bandeirantes, para expulsarem os holandeses, guerra esta que durou dez anos. Tais conflitos ficaram conhecidos como a Insurreição Pernambucana (1644-1654). 

No caso dos espanhóis a situação fora mais complexa e começou anos antes. A medida que as bandeiras de preação e exploração em busca de ouro penetravam cada vez mais o interior de São Paulo, indo para o que hoje é Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, os bandeirantes esbarraram em vilas e missões espanholas. Já nessa época o Brasil estava sob o domínio espanhol, logo oficialmente não haviam mais fronteiras entre os domínios coloniais portugueses e espanhóis, pois a Espanha considerava quase toda América do Sul sendo sua colônia, logo os bandeirantes avançaram sem medo de receberem represálias do governo por terem invadido terras espanhóis, no entanto, isso acabou se revelando um problema. 

Algumas bandeiras vieram a adentrar a Província do Paraguai, motivadas por descobrir a suposta Serra da Prata que ficaria localizada no mítico Reino de Paytiti que se dizia ficar em algum lugar no centro do continente, onde hoje é o território do Paraguai e do estado do Mato Grosso do Sul no Brasil. Muitos acreditavam que tal lugar pudesse ser real devido as Minas de Prata de Potosi que geravam grande lucro a Coroa espanhola. 

Desde 1537 o Paraguai já vinha sendo ocupado pelos espanhóis, quando fora fundado a Vila de Assunção, atual capital do país. Nos anos seguintes, novas vilas foram erguidas, depois cidades e missões jesuíticas. O território da província no século XVI e XVII englobava o que hoje são os territórios do Paraná e de Santa Catarina no Brasil. A ideia dos espanhóis era abrir caminho até o mar. Tal região ficara conhecida como Guairá. 

No final do século XVI e começo do XVII, bandeiras acabaram alcançando a região do Gauirá a qual pertencia a administração paraguaia, lá se localizavam muitas missões jesuíticas implantadas desde 1588. Como os jesuítas eram contra a escravização dos indígenas  as missões se mostraram um empecilho aos bandeirantes, mas por outro lado uma oportunidade ao mesmo tempo. Anos depois outras bandeiras vieram a região com o propósito de atacarem as missões e lhe capturar os indígenas que ali residiam. Logo, tais bandeiras atuaram como tropas paramilitares, cometendo atos de rapina e outras atrocidades. Nesse período, registra-se bandeiras contendo milhares de indivíduos, nesse caso, grande parte do contingente era formado pelos índios aprisionados das missões. 

"Inúmeras foram as súplicas e denúncias que os inacianos endereçaram às autoridades coloniais e à Coroa, em todas elas descreviam com ênfase a ferocidade dos paulistas. Em seus ataques, os bandeirantes investiam com tudo, invadindo casas, profanando templos, preocupados apenas em prear o maior número de índios possível. Os padres e seus catecúmenos defendiam-se como podiam, porém, em grande desvantagem. Os paulistas atacavam de surpresa e eram favorecidos pelo uso das armas de fogo, cuja utilização era proibida aos jesuítas. [...]. Os bandeirantes avançavam promovendo razias, ateando fogo, efetivando uma ação destruidora". (VOLPATO, 1986), p. 82). 

Missões acabaram sendo abandonadas ou destruídas. Das 13 missões existentes no Guairá, antes de meados do século XVII, 11 já haviam sido abandonadas após os ataques das bandeiras. Vila Rica e Ciudad Real, que ficavam na região foram invadidas, saqueadas e abandonas pela população. A cidade de Santiago do Xerez, localizada no norte da província, hoje em território do Mato Grosso do Sul, fora destruída entre 1632 ou 1633. O Vice-rei do Peru, Conde de Chinchou chegou a escrever uma carta ao rei Filipe IV pedindo medidas urgentes para frear o avanço das bandeiras na província paraguaiana e ao mesmo tempo punir os responsáveis. O rei enviou em 1638 uma comissão para avaliar os prejuízos e a situação, a comissão entregou o parecer no ano seguinte, porém em 1640 Portugal se separou da União Ibérica, logo, a sentença passou a caber ao rei português, na época D. João II. Porém, o novo rei estava preocupado mais com a precária situação do Brasil e das colônias em África, e como também expulsar os holandeses do nordeste. A punição nunca veio a ocorrer.

Considerações finais: o brilho do ouro ofusca as bandeiras

As bandeiras se desenvolveram ao longo do século XVII, entre irem prear índios, servir como mercenários ou paramilitares no Nordeste, combatendo quilombos, e lutando contra os holandeses; atuaram também como paramilitares no sul, atacando os domínios espanhóis, outras viajaram para a Floresta Amazônica e outras continuaram a procurar por ouro nas regiões que hoje compreendem Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Por volta da segunda metade do século XVII, indícios de minas de ouro começaram a correr pelos sertões hoje mineiro e goiense, ouro já havia sido descoberto ainda no século XVI na bandeira de Afonso Sardinha em 1598, o mesmo descobriu ouro na Serra da Mantiqueira (serra que se estende pelos atuais estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais). 

O ouro descoberto fora em pouca quantidade, porém outros pequenos veios de aluvião foram encontrados em outras áreas da Capitania de São Vicente, mais devido a pouca quantidade, acabou não gerando uma "corrida do ouro" como seria vista no final do século XVII. Por volta de 1694 ou 1695, minas de ouro foram descobertas e a região fora batizada de Minas Gerais. A "corrida do ouro" havia começado, e em pouco tempo se tornaria em uma "febre do ouro". Pessoas de todos os cantos da colônia, da metrópole e de outras nações se dirigiram para Minas Gerais atrás dessa pedra dourada.

As bandeiras ainda continuaram pelos trinta anos seguinte, procurando novas minas de ouro, onde acabaram encontrado outras minas por Minas Gerais, Goiás e no Mato Grosso. Além de também terem descoberto minas de esmeraldas e de diamante. Porém, a medida que o ciclo do ouro crescia, muitos bandeirantes acabaram deixando as bandeiras para se juntarem as levas de imigrantes que chegavam as regiões mineradoras para tentarem a sorte de enriquecer. As bandeiras de preação, já não davam tanto lucro como antes e era um investimento arriscado. Aqueles bandeirantes que não foram atrás de ouro ou foram lutar para conseguir monopólio sobre as minas, como fora o caso da Guerra dos Emboabas (1707-1709), ou ficaram em São Paulo e se tornaram provedores de gêneros alimentícios e outros artigos para a região mineradora a qual carecia desses gêneros. Outros se mudaram para o Rio de Janeiro e para o Nordeste. 

Para historiadores como Volpato, Magalhães [1978), Davidoff e Taunay [1975], o século XVIII marcou o final do Ciclo das Bandeiras, pois antes de meados do século, muitas minas haviam sido descobertas, e as bandeiras que procuravam por mais minas, começaram a desistir de continuar com o objetivo, e passaram a se concentrar em explorar o que fora encontrado. Magalhães e Volpato também falam que algumas expedições que ainda continuaram a ocorrer pelo século XVIII eram chamadas de bandeiras, eram expedições punitivas, mas ele defende que tais expedições embora compartilhassem o nome, não devem ser inseridas no movimento do bandeirismo, pois não tinham nenhuma semelhança fora o nome.  O ouro descoberto ofuscou o brilho das bandeiras pondo fim a um legado de quase dois séculos. 

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NOTA: Na cidade de São Paulo existe um famoso monumento dedicado as bandeiras, o chamado Monumento às Bandeiras, esculpido por Victor Brecheret.
NOTA 2: No estado de São Paulo, muitas cidades possuem nomes de ruas e de praças, contendo o nome de bandeirantes famosos, ou simplesmente chamadas de "rua dos bandeirantes", ou "rua das bandeiras". 
NOTA 3: Na cidade do Rio de Janeiro, existe o famoso bairro nobre chamado Recreio dos Bandeirantes. 
NOTA 4: Entradas e Bandeiras é o nome do terceiro álbum musical da cantora Rita Lee com a banda Tutti Frutti, lançado em 1976. 
NOTA 5: A palavra bandeirante também é utilizada para se referir a escoteira. 
NOTA 6: Alguns historiadores preferem separar bandeirismo de bandeirantismo, pois o primeiro termo refere-se ao movimento das bandeiras, já o segundo tem alusão ao movimento escoteiro. 
NOTA 7: Dia 14 de novembro é celebrado o Dia dos Bandeirantes no Brasil. 
NOTA 8: Em 1937 em São Paulo fora fundada a Rádio Bandeirante, hoje faz parte do Grupo Bandeirante de Comunicações, que incluem emissoras de rádio e televisão, na qual inclui a Rede Bandeirantes (Band) fundada em 1967. 

Referências bibliográficas: 
VOLPATO, Luiza. Entradas e Bandeiras. 2a edição, São Paulo, Global, 1986. (Coleção História Popular - 2).
DAVIDOFF, Carlos Henrique. Bandeirantismo: verso e reverso. 2a edição, São Paulo, Brasiliense, 1984. 
MAGALHÃES, Basílio de. Expansão geográfica do Brasil colonial. 4a edição, São Paulo, Nacional, 1978. (Coleção Brasiliana - volume 45). 
TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas - tomo I. 3a edição, São Paulo, Melhoramentos, 1975. 

Links relacionados:
Uma breve história das Entradas e Bandeiras
A União Ibérica
Conde Maurício de Nassau
A fortaleza negra

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