Os Bandeirantes - Parte 3 de 6

"O bandeirante foi fruto social de uma região marginalizada, de escassos recursos materiais e de vida econômica restrita, e suas ações se orientaram ou no sentido de tirar o máximo proveito das brechas que a economia colonial eventualmente oferecia para a efetivação de lucros rápidos e passageiros em conjunturas favoráveis - como no caso da caça do índio".


Os Bandeirantes - Parte 3 de 6

Por: Leandro Vilar

"O bandeirante foi fruto social de uma região marginalizada, de escassos recursos materiais e de vida econômica restrita, e suas ações se orientaram ou no sentido de tirar o máximo proveito das brechas que a economia colonial eventualmente oferecia para a efetivação de lucros rápidos e passageiros em conjunturas favoráveis - como no caso da caça do índio". (DAVIDOFF, 1984, p. 29). 

As bandeiras eram organizadas através de contratos entre o armador e os bandeirantes. Alguns contratos eram apenas verbais, outros eram escritos e assinados pelo armador e os participantes da bandeira. No contrato, estipulava-se a porcentagem que cada um receberia com o lucro da bandeira, e as medidas tomadas em caso de prejuízo. Em caso de o armador não ser um bandeirante, ele deixava estabelecido no contrato que se a bandeira fracassasse em sua missão, os bandeirantes deveriam pagar uma compensação pelo investimento feito pelo armador ou armadores. A quitação dessa dívida variava de contrato para contrato. Outro ponto a mencionar no contrato, era o fato que no mesmo se encontrava uma cláusula de risco de vida, pois as bandeiras eram expedições perigosas, e o bandeirante poderia ser morto por um índio, ou se afogar, se perder, ser atacado por uma onça, ser picado por uma cobra, adoecer, etc. 

Em caso de um bandeirante consegui-se cumprir com sua missão, mas acaba-se morrendo na viagem de volta, sua parte do lucro seria dada a sua família, ou em caso deste tivesse dívidas, seu lucro seria utilizado para quitá-las. Em caso do bandeirante morre-se e a bandeira não tivesse sucesso, sua dívida seria cobrada de sua família. 

Em alguns casos um bandeirante poderia se oferecer para participar da bandeira, ele ofereceria uma quantia que seria paga ao líder da bandeira, também chamado cabo-de-tropa, o qual se comprometeria em levá-lo e trazê-lo em segurança, assim se Deus permitisse, pois em alguns contratos nota-se trechos dizendo que: "Deus lhe guarde sua saúde", "Deus lhe guarde sua vida", "Deus lhe traga vivo", etc.

"Digo eu Martim do Prado que me concerto com Filipe de Veres o levar nesta entrada adonde vai Lázaro da Costa, o qual me obrigo a levar por ida e vinda, dando-me Nosso Senhor vida e saúde, por preço e quantia de dez mil réis em dinheiro, de contanto ou em fazenda". (VOLPATO, 1986, p. 60 apud MACHADO, 1929). 

O chefe, cabo-de-tropa, líder ou capitão de uma bandeira era a autoridade maior numa bandeira, seu poder era imenso, ao ponto de agir como um juiz. O chefe era o responsável por coordenar a bandeira, definir o trajeto a ser percorrido a estratégia de ataque, a divisão dos afazeres e do lucro, claro que ele contava com ajuda de homens de sua confiança para fazer isso. Além disso, em caso de indisciplina, os indisciplinados eram punidos para dar o exemplo, e em casos de rebelião contra a autoridade do chefe, os rebeldes eram geralmente executados por sua traição. Fernão Dias Paes tivera que enfrentar uma rebelião desta, onde ele condenou os traidores a pena de morte, e um dos traidores era um filho bastardo seu. 

Todos os membros da bandeira, com exceção do capelão o representante religioso da expedição, sabiam lutar, haviam recebido pelo menos um razoável treinamento militar, tanto para manusear e combater com armas de fogo, espadas, lanças, como também utilizar armas indígenas, como o arco e o porrete de batalha. Os próprios indígenas que seguiam com as bandeiras, treinavam constantemente o manejo do arco, pois embora as armas de fogo fossem superiores, a demora de se recarregá-la e a imprecisão do alcance do projétil a longas distâncias, as tornava preferíveis para afugentar, ameaçar ou serem usadas em batalhas de curta distância. Pelo contrário, as flechas iam mais longe, eram mais precisas e silenciosas.

Com a profissionalização das bandeiras, a tropa de índios flecheiros em muitas das bandeiras se tornou algo necessário e quase obrigatório, além do mais, quanto maior o número de índios flecheiros, maiores eram as possibilidades de sucesso da expedição, e o prestígio que ela tinha, pois tais índios embora fossem escravos e não recebessem pagamento, tinham que ser comprados ou capturados, e educados. 

Pois embora as bandeiras de preação (ou captura) de índios fossem as mais armadas e com o maior número de gente, as bandeiras de exploração, também iam bem armadas, embora com menor número de gente e poder bélico, pois embora não fossem caçar índios, eventualmente poderia se deparar com tribos hostis, ou até mesmo com expedições espanholas, como ocorrera várias vezes ao longo do século XVII, onde bandeiras guerrearam contra expedições espanholas. 

"A bandeira era, portanto, uma expedição agressiva, destinada a marchar sertão adentro em busca de índios, contra os quais efetiva a guerra. Seu sucesso dependia, por conseguinte, do número de seus componentes, e deu sua capacidade bélica e do aparelhamento da expedição em armas e munição. A montagem de uma bandeira era, consequentemente, um empreendimento que demandava investimento de capital". (VOLPATO, 1986, p. 58).

Muitas das armas e munição utilizadas nas bandeiras vinham de fora, de outras cidades e vilas da colônia, ou até mesmo da metrópole, pois as ferrarias na colônia ainda eram poucas. Logo, conservar as armas e a munição era algo muito necessário, pois se a pólvora molha-se ela ficaria inutilizável por vários dias; e disparar à toa, não era algo viável, pois a munição era pouca e a demora para se recarregar as armas era um problema, pois a mesmas disparavam um projétil por vez, com exceção do bacamarte, onde seu cano largo possibilitava até mesmo se usar pedras, cacos de vidro, pregos, etc., como munição, porém, o alcance era disperso e curto. 

"O grosso do aparelhamento dessas bandeiras e o maior dispêndio de capital investido estavam ligados à aquisição de armas e munição. Entre as armas de fogo, as mais utilizadas eram as escopetas e os bacamarte, também as carabinas e as pistolas. Atenção especial era dada às armas de fogo. Isso porque eram elas que garantiam a superioridade bélica aos paulistas". (VOLPATO, 1986, p. 61).

Além das armas, da água e da comida, pois embora algumas bandeiras seguissem caminho pelo curso de rios, muitas não faziam isso, se embrenhavam pela mata fechada, e as vezes faltava-se água e comida. Os suprimentos duravam apenas os primeiros dias ou as primeiras semanas da expedição, entretanto, algumas expedições poderia durar meses ou até anos. Logo, como não havia meios para se preservar os alimentos, os quais em poucos dias se estragavam, um dos alimentos básicos da expedição era a farinha de mandioca, a qual era aquecida, para melhorar sua conservação, podendo durar até mesmo meses, se não fosse molhada. Sobre isso retomarei mais adiante no texto.

As bandeiras levavam consigo várias ferramentas, como cunhas calçadas, pás, machados, facões, enxós (instrumento de carpintaria, usado para raspar a madeira), enxadas, foices, tendas, redes de dormir, mudas de roupa, cestos, panelas, pratos ou tigelas, facas, cantis, cobertores, travesseiros, toalhas, panos, agulhas de costura, redes e varas de pesca, medicamentos (nesse caso preparos de ervas medicinais, unguentos ou poções), etc; levavam também cordas, correntes e algemas, para prenderem os indígenas. No caso de bandeiras que procuravam por ouro, levavam consigo, picaretas, almocafre (tipo de enxada usada na mineração) e bateias (tipo de peneira usada para separar o ouro da areia, cascalho, terra, etc.). 

O vestuário dos bandeirantes

O caso do vestuário dos bandeirantes é bem marcante, pois por longo tempo, fora divulgado a imagem de homens usando botas de cano alto, calças de algodão, gibões de couro, e chapéus de abas largas. Mas na realidade, a vestimenta dos bandeirantes variava de membro para membro, pois os mais pobres não tinham dinheiro para comprar boas roupas, e outros preferiam até mesmo andar descalço. Além do mais, eles carregavam apenas o necessário; muitos bandeirantes levavam apenas umas duas mudas de roupas, geralmente uma blusa extra e uma ceroula extra (cueca). Mas tirando isso, eles usariam a mesma roupa a viagem toda, as lavando quando possível, e as remendando a medida que rasgassem e furassem. Daí alguns relatos falam que quando os bandeirantes retornavam de viagem, dependendo de quanto tempo passaram fora, suas roupas voltavam em farrapos em alguns casos.

Os bandeirantes carregavam suas roupas e pertences em cestos de couro curtido também chamados de baú-de-boi ou cesto encourado. A roupa básica de um bandeirante consistia em um simples chapéu pardo roçado, carapuça ou num lenço para cobrir a cabeça; meias de cabrestilho, sapatos ou botas feitas de couro de boi, veado, carneiro, porco ou de anta; camisa de algodão, ceroula (cueca), uma roupeta (tipo de casaco leve), calções de baeta ou de picote (tecido grosseiro feito de lã). No entanto, alguns bandeirantes usavam outros tipos de botas, com cano alto ou largo, usavam sandálias, ou até mesmo andavam descalços como fora salientado. 

Usavam calças longas ou curtas, blusas de algodão, lã ou de outro tecido, e alguns usavam gibões de couro ou de algodão, embora o de algodão, chamado de escupil fora o mais comum, pois além de proteger do frio, era utilizado como armadura, pois era grosso ao ponto de amortecer o impacto de flechas, e também poderia servir de cobertor ou esteira. Tantos os portugueses como os espanhóis já usavam o escupil há vários anos. O problema dos gibões fossem de couro e de algodão, embora servissem de proteção, quando molhados, se tornavam pesados, e em dias muito quentes, andar vestidos com estes era um desafio. 

"Os gibões usados pelos paulistas eram espontados em quadrados. Podiam ser de dois tipos: descendo até os joelhos e cobrindo parte dos braços ou apenas protegendo ventre e peito. Este modelo mais longo destinava-se a regiões onde havia o risco de flechas ervadas". (VOLPATO, 1986, p. 72).

Além de usar gibões de couro ou de algodão como proteção, os bandeirantes também usavam escudos, sendo estes principalmente feitos de couro curtido de boi ou de preferência de couro de anta, o qual após ser curtido, ganhava uma grande rigidez. Os escudos poderiam ser redondos ou retangulares. Uso de escudos é algo interessante, pois a imagem habitual que temos dos bandeirantes não os menciona usando escudos, arco e flecha e lanças, mas apenas armas de fogo e espadas. 
 
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