Os Bandeirantes - Parte 1 de 6

"O tema entradas e bandeiras tem sempre espaço garantido nos livros didáticos de História do Brasil. Nos capítulos referentes à expansão territorial, o bandeirante é apresentado, na grande maioria das vezes, como herói responsável pelas dimensões continentais do país.


Os Bandeirantes - Parte 1/6

Por: Leandro Vilar

"O tema entradas e bandeiras tem sempre espaço garantido nos livros didáticos de História do Brasil. Nos capítulos referentes à expansão territorial, o bandeirante é apresentado, na grande maioria das vezes, como herói responsável pelas dimensões continentais do país. As ilustrações do texto apresentam, quase sempre a figura de um sertanista de botas de cano alto, chapéu de aba larga, gibão acolchoado, com uma escopeta ou um bacamarte na mão. No texto é passada a visão heroica do bravo que, vencendo dificuldades sem fim, conquistou áreas imensas para a Colônia e descobriu riquezas no interior do Brasil. Os livros didáticos, na verdade, reproduzem uma visão mítica do bandeirante, elaborada cuidadosamente pela historiografia do bandeirismo. Essa versão mítica está tão profundamente enraizada, que faz parte do senso comum e é tida e aceita como concreta e definitiva". (VOLPATO, 1986, p. 17). 

A proposta deste texto é apresentar os aspectos reais sobre as entradas e bandeiras, mas tendo foco na figura dos bandeirantes e no relato de algumas entradas e bandeiras. A ideia é mostrar como as bandeiras se estruturavam, quais eram seus objetivos, como era a vida numa bandeira, e sua importância para a ampliação do território colonial brasileiro, para a escravidão indígena, o combate aos quilombos e a descoberta das minas de ouro, esmeraldas e diamantes. 

O sertão selvagem: desbravando o interior da colônia

Desde que o Brasil foi "descoberto", em 22 de abril de 1500, por Pedro Álvares Cabral e sua armada de 12 naus e mais de mil homens, as novas terras que Portugal passava a oficialmente possuir desde o combinado, visto no Tratado de Tordesilhas em 1494, não vieram a serem colonizadas naquele momento, e nem no ano seguinte e nem depois. O lucro conseguido com as especiarias nos empórios nas Índias era bem mais satisfatório e promissor do que apenas comercializar pau-brasil o primeiro produto que mostrou possuir um mercado razoável para seu consumo e venda.

De 1500 a 1530, o Brasil era visitado com frequência por naus que iam explorar a costa, para mapeá-la, e por navios que iam coletar o pau-brasil, tais homens ficaram conhecidos como brasileiros (aquele que trabalha no comércio do pau-brasil). Feitorias foram fundadas durante estas três décadas, e até mesmo expedições terrestres foram feitas se adentrando poucas léguas de distância da costa, onde os exploradores iam atrás de descobrir minas de metais preciosos e joias, pois haviam visto índios usando adornos de ouro.

No entanto a colonização do Brasil começou de fato a partir de 1530, onde posteriormente D. João III em 1534 criou o sistema das capitanias hereditárias, nomeando capitães donatários para governá-las; doando terras através das sesmarias, nomeando funcionários para as vilas que começavam a surgir, além de incentivando a ida de famílias para colonizar aquelas vastas terras. Ao mesmo tempo que os colonos fundavam vilas e formavam roçados, ainda havia o incentivo de adentrar o interior, chamado de sertão, a fim de descobrir riquezas minerais ali escondidas. 

As entradas foram expedições organizadas e bancadas pelas finanças do Estado. Na ocasião, o donatário e fundador da Capitania de São Vicente, a capitania mais ao sul do país, onde hoje corresponderia a partes dos territórios dos atuais Rio de Janeiro e São Paulo, Martim Afonso de Sousa (1490/1500-1571) fora incumbido pelo rei de fundar uma vila, a Vila de São Vicente, sede da futura capitania, e ao mesmo tempo de organizar uma expedição para o sertão da capitania. Martim já vivia no Brasil desde 1530, tendo coordenado três entradas entre 1530-1532.

Em 1535, Brás Cubas, criara o povoado de Santos, dez anos depois viria a ser promovida a Vila de Santos. Além destas duas vilas, outro povoado fora criado no planalto por João Ramalho. Nos anos seguintes Martim focaria a atenção no desenvolvimento de sua capitania, fundando engenhos, dando início as plantações de cana de açúcar, trazendo gado bovino para a ilha, além de incentivar a vinda de mais colonos. Antes de Martim Afonso, outras entradas já haviam sido realizadas, mas sem muito sucesso e poucas são as fontes acerca destas entradas como aponta Magalhães [1978], onde a entrada mais antiga conhecida data de 1504, tendo sido organizada pelo italiano Américo Vespúcio. As entradas realizadas por Martim Afonso são as mais antigas em que se tem maiores detalhes sobre a mesmas. 

"As vilas de São Vicente e de Santos se firmaram como baluartes da ocupação lusa ao sul da extensa costa do Atlântico que cabia a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas. O cultivo da cana se fez de maneira satisfatória e a produção de açúcar se tornou intensa o suficiente para que o porto de Santos tivesse movimentado comércio. O povoamento não se alargou mais, porém, do que uma estreita faixa do litoral. Durante duas décadas a ocupação portuguesa na Capitania de São Vicente não foi além de uma estreita nesga de terra   fértil incrustada entre o Oceano e a Serra do Mar". (VOLPATO, 1986, p. 27).

Da mesma forma que o povoamento da Capitania de São Vicente ficara restrito ao litoral, o mesmo ocorreu no restante da colônia. A fim de contornar tal problema e o atraso do desenvolvimento da colônia, em 1548, D. João III criou o Governo-Geral e nomeou o político e militar Tomé de Sousa (1503-1579) para assumir como governador-geral do Brasil. Tomé anos antes já havia prestado alguns serviços à Coroa nas Índias em África, e por seu bom trabalho recebera a indicação ao cargo. No ano de 1549 ele chegou a Capitania da Bahia onde fundara a cidade de Salvador a primeira capital do Brasil. Uma das missões de Tomé, era explorar os sertões para descobrir riquezas e mapear o interior do território colonial. Em 1553 no final de seu mandato, ele ordenou a iniciativa da entrada que ficara sob o comando do espanhol Francisco Bruzo de Espinosa com o objetivo de desbravar os sertões da Bahia. A entrada que contou com centenas de integrantes, conseguira chegar ao rio São Francisco naquela ocasião, e indo até mais além deste no que viria a ser território de Minas Gerais onde fora fundada a Vila de Espinosa. A partir dessa entrada em 1554, outras entradas seriam promovidas pelo restante da colônia, incentivando os sertanistas como ficariam conhecidos estes homens, a desbravarem as terras interioranas em busca de riquezas, de se caçar indígenas para a escravidão, de montar missões religiosas para a catequização destes. 

Os motivos de impulsionar tais homens a desbravar os sertões atrás de riquezas minerais era o fato que eles haviam visto índios usando ouro; além dos indígenas também contarem histórias sobre minas de ouro e prata, e o fato de que em 1534, Francisco Pizarro havia conquistado o Império Inca, conseguindo para a Coroa Espanhola, dezenas de toneladas em ouro e prata, e posteriormente descobriram a localização destas minas, e muitas destas ficavam localizadas em Potosi no chamado Alto Peru que hoje é a Bolívia. Sabendo que o Brasil estava no mesmo continente que o Peru, logo deduziu-se que poderia-se seguir a pé, até estas minas que ficavam no Peru, embora não se soubesse exatamente a distância até elas.

Outro motivo que incentivou as entradas, fora a captura dos indígenas para o trabalho escravo, pois embora a escravidão negra tenha sido introduzida no Brasil ainda no século XVI, a escravidão indígena ainda continuou a ser utilizada até o século XIX em algumas regiões do Brasil, embora tenha sido proibida várias vezes ao longo da história colonial. Pois os escravos negros embora tenham abundando ao longo do período que vai de meados do século XVI até 1888, sendo que pelo menos quatro milhões de africanos tenham sido trazidos ao Brasil; muitos indígenas mesmo assim foram exterminados e escravizados, pois os africanos eram mercadorias caras, e nem todo mundo tinha condições financeiras de comprar uma quantidade razoável destes; por outro lado, os índios embora fossem "mais fracos" para o trabalho pesado, eram mais baratos de se comprar. Muitas das vilas que ficavam nos sertões, dispunham de maior quantidade de mão de obra indígena do que africana, pois essa ficava concentrada no litoral, nas cidades, vilas e nas plantações canavieiras, sendo poucos exemplares que iam ser vendidos no interior.

Um terceiro motivo fundamental que incentivou as entradas, fora a missão de ocupação, colonização e proteção, pois o litoral brasileiro era invadido por piratas francese, espanhóis e posteriormente holandeses que iam roubar pau-brasil e depois carregamento de açúcar. Algumas entradas partiram com o intuito de construir fortalezas, fundaram vilas e ocuparem as áreas desertas da colônia, a fim de garantir segurança e combater os intrusos. 

O início das bandeiras

Como o foco deste trabalho é falar a respeito das bandeiras e dos bandeirantes, não me prenderei a relatar a respeito das entradas, pois embora as bandeiras fossem essencialmente a mesma coisa, a história destas fica mais restrita a parte sul da colônia, embora houveram bandeiras na parte norte também, como será visto mais adiante. 

A diferença básica de uma bandeira para uma entrada, é que as entradas foram expedições organizadas pelo Estado o qual nomeava representantes para assumir sua organização e liderança, por outro lado, as bandeiras partiram da iniciativa privada, embora que houveram casos onde a Igreja e o Estado, chegaram a contribuir com equipamentos ou suprimentos, todavia, nas capitanias sulistas, o termo bandeira passou a ser mais empregado do que o termo entrada, logo os membros das bandeiras passaram a serem chamados de bandeirantes, e o bandeirante se tornou uma profissão específica e reconhecida.

Em 8 de setembro de 1553, o lugar-tenente Antonio de Oliveira e Brás Cubas, ordenados por Martim Afonso de Sousa, conseguiram com sua entrada, subir a Serra do Mar e alcançaram o planalto de Piratininga, fundando a Vila de Santo André da Borda do Campo. A vila fora fundada a partir da localização do povoado que João Ramalho havia erigido anos antes. Com a fundação da vila, Antonio de Oliveira, mudou-se para lá com sua esposa D. Genebra Leitão e o restante da família, além de levarem consigo, outras famílias vindas das vilas de São Vicente e Santos. . E no ano seguinte os jesuítas padre Manuel da Nóbrega e o irmão José de Anchieta, junto com outros jesuítas, bandeirantes e o apoio do cacique Tibiriça, fundaram o Colégio de São Paulo do Campo do Piratininga a 25 de janeiro de 1554. 

"'Como se sabe, o núcleo inicial da cidade de São Paulo foi o Colégio fundado pelo jesuítas, em 1554, uma paupérrima e estreita casinha, tendo 14 passos de comprimento e 10 de largura, feita de barro e coberta de palha...', no dizer de Manuel da Nóbrega". (DAVIDOFF, 1984, p. 16). 

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