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sábado, julho 17, 2021

Carteiristas Portugueses e Galegos criam no Porto o Light Hands Force



Por: Armindo Guimarães

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Fez no passado dia 15 de julho, precisamente 2 anos que em Lisboa (15-07-2019), um juiz proibiu carteiristas de andar, especificamente em dois elétricos (bonde no Brasil). Contudo, tais carteiristas não foram impedidos de circular noutros elétricos ou outros tipos de transportes urbanos.


Na altura, publicamos tal notícia através da imagem que anexamos, ao mesmo tempo que comentamos estar certa tal sentença jurídica, na medida em que os referidos carteiristas, sendo "habitués" nos tais 2 elétricos, eram por demais conhecidos e como tal o remédio era proibi-los de trabalhar sempre no mesmo sítio, mandando-os roubar para outros lados.




Acontece que como é sabido, poucos meses depois (Dezembro de 2019) surge o famigerado Covid 19 que restringiu toda uma série de atividades em todo o mundo e no caso particular em Portugal, onde o setor do Turismo foi e continua a ser um dos que mais sofre com a pandemia, já que, não havendo turistas, pouco ou nada funciona neste setor, incluindo os típicos elétricos tão atraentes para quem nos visita e em especial para os carteiristas que faziam deles pontos estratégicos para darem as boas-vindas aos forasteiros.


É caso para dizer que um mal nunca vem só, pois já em 23-10-2018 a imprensa dava conta que o número de carteiristas em Lisboa estava a aumentar e que nos últimos nove meses mais de 200 foram detidos, a maioria com origem na Europa de Leste e que a polícia estimava que mais de quatro milhões de euros teriam sido roubados só no último semestre do ano, sendo que as polícias portuguesa e romena trabalhavam em conjunto para diminuir carteiristas em Lisboa e Porto.


ENTREVISTAMOS O DEDO MINDINHO


O Portal Splish Splash foi às paragens do metro, autocarros, camionetas e táxis, em frente ao Hospital de São João, no Porto, e entrevistou o conceituado carteirista portuense Dedo Mindinho, amicíssimo da carteirista mais velha de Portugal, a octogenária Joaquina Gonçalves, de Ermesinde, mais conhecida por "Quina do Porto". Quando chegamos, estava o Dedo Mindinho na fase final de um serviço, pelo que tivemos que aguardar cerca de 15 minutos, altura em que chegou o autocarro 604 com destino ao Aeroporto do Porto. Após a partida do autocarro, logo o Dedo Mindinho veio ter connosco, levando a sua mão à altura da cabeça com os dedos indicador e médio juntos e um pouco curvados, facto que nos levou logo a começar a entrevista precisamente sobre tal gesto e o que ele significava. 


Boa tarde, amigo Dedo Mindinho! Antes de mais, o nosso muito obrigado por aceitar esta entrevista. Ao vermos esse seu gesto de mão com os dedos indicador e médio juntos e ligeiramente curvados, começamos por lhe perguntar qual o significado de tal gesto.


"Boa tarde, malta do Splish-Splash! Tudo fixe/legal? O meu gesto, que não é só meu mas de muitos colegas de profissom, surgiu da necessidade de adotarmos um cumprimento de jeito que substituísse com alguma dignidade o anterior aperto de mom, beijo ou abraço que a pandemia nos retirou há quase 2 anos."


Mas há muito que foram inventados substitutos dos anteriores cumprimentos, como juntar cotovelo com cotovelo, punho com punho...


"Por amor de Deus! Isso mais parece uma macacada de que um cumprimento. Se quem morreu antes da pandemia biesse agora ao mundo e bisse o nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa e todos os deputados da Assembleia da República a cumprimentarem-se com o cotobelo ou com o punho, o que iriam pensar? Que andaba tudo maluco? O cumprimento pode num ser o mesmo que antes, mas tem que ter sempre a sua dignidade e não uma fantochada. Por isso é que damos mil bezes preferência ao nosso cumprimento com o indicador e médio fechados, que em carteirismo significa uma pinça sempre pronta a abrir e a fechar para pegar a presa, qual caranguejo cujas pinças mantêm respeito."


De facto, esse género de cumprimento é mais prático e limpo, como quem limpa carteiras. eheheheh Amigo Dedo Mindinho, depois desta introdução com uma certa dose de humor, vamos agora falar de coisas sérias: imaginamos que a situação atual está péssima para o exercício da vossa profissão...


"Se está! É de lamentar a falta de apoio do Estado a quem andou anos a queimar as pestanas na belha escola de carteiristas da Areosa (nos arredores do Porto), muito abançada para a época pois possuía e ainda possui tudo o que há de melhor para treinar o pessoal que só está autorizado a ir trabalhar para a rua quando os guizos dos manequins com que treinam num derem o alarme."


ESCOLA DA AREOSA

 

A Escola da Areosa é, de facto, uma escola mítica em Portugal que devia ser financiada com os fundos da UE como são os outros organismos e empresas. Fale-nos um pouco sobre a escola.


"Ainda me lembro quando andei a tirar o curso na Escola da Areosa, carago! A malta esfalfaba-se toda a tentar limpar a carteira àqueles manequins bestidos de camones e se a malta tibesse os dedos pesados e os guizos cantassem, o Sousa Lebezinho, que era o monitor mais exigente da escola, daba-nos cabo da cabeça.", contava-nos com efusiva saudade o Dedo Mindinho, que enquanto o entrevistávamos só muito fugidiamente os seus olhos se fixavam na nossa equipa de reportagem, já que o seu dever profissional mandava-o assegurar-se se estava tudo normal nos bolsos dos transeuntes que por ali passavam. 


"Em Lisboa a bófia está sempre a proibir os nossos colegas da capital de frequentarem os elétricos 15 e 28 da Carris e num tá certo pois eram os seus postos de trabalho há décadas e quem ganhou com isso num foram os passageiros mas os gajos que bieram da Europa do Leste sem preparaçom nenhuma pois substituíram-se aos portugueses tão mal, tão mal, que passabam a bida a dar na bronca a fazer o trabalhinho e depois quem pagaba eram os carteiristas portugueses que trabalham com profissionalismo e sem biolência como sempre fazemos de forma a que Portugal continue na lista como o país mais seguro do mundo. Um gajo tem que ser patriota, carago!", continuou o nosso entrevistado Dedo Mindinho, aproveitando para desabafar o que lhe ia na alma.


"Como se num bastasse esses contratempos, temos agora essa coisa do bírus Cobid 19 que beio fragilizar a nossa classe, pois num habendo turistas, temos que nos boltar pro turismo nacional que, diga-se, num é nada fácil pois também esse está pela hora da morte, mas enfim, a malta bai fazendo o que pode. Olhe, a única coisa boa que o bírus nos trouxe foi podermos andar mascarados a trabalhar, coisa que às bezes dá-nos nos muito jeito, como ainda ontem estaba eu e o Peso Pluma aqui no nosso posto de trabalho à espera do melhor momento para aplicarmos a técnica da sandwich humana, quando aparece um bófia à paisana que só não nos chateou porque não nos reconheceu por estarmos mascarados, senão estábamos lixados."


DEDO MINDINHO REVELA TÉCNICAS


Pode revelar para os leitores do Splish-Splash que técnica é essa da sandwich?


"Num costumamos rebelar as nossas técnicas, mas tratando-se do Splish-Splash bou abrir uma exceçom: a técnica da sandwich, tal como o nome diz, consiste em procurar os clientes em ajuntamentos, nas bichas para os transportes ou outros serbiços públicos, nas escadas rolantes, passagens estreitas, etc., onde o trabalho a dois é indispensábel a fim de na melhor ocasiom apertarmos o cliente entre nós, como quem não quer a coisa. Deste modo, o colega da frente faz a misdirection, enquanto o de trás alibia o cliente."


Misdirection?


"É um termo dos nossos colegas britânicos, que significa "desbio da atençom", quando, por exemplo, o colega da frente deixa cair de propósito um objeto para se demorar a apanhá-lo e com isso barrar o cliente o tempo suficiente para o colega de trás fazer o serbiço. Mas há muitas mais, como aquela em que um colega se arma em camone, de óculos Paco Rabanne comprados nos chineses e máquina fotográfica ao peito, e pede a um camone berdadeiro que bai a passar, para lhe tirar uma foto de recordaçom. O camone todo solícito pega na nossa máquina fotográfica e enquanto nós demoramos um pouco para escolhermos a melhor pose, outro colega por trás do camone faz o serbiço nas calmas. Mas a técnica que eu gosto mais é a do encontrom..."


Do encontrom, digo, do encontrão?


"Sim. É a minha técnica preferida pois permite-me trabalhar em qualquer situaçom, sem problemas. Manjo um camone ao longe no passeio e quando o gajo está a passar por mim eu "sem querer" bou contra ele pedindo desculpa, ao mesmo tempo que lhe alíbio do bolso a carteira, continuando a andar. Essa também era a técnica do falecido Dois Dedos, do Marquês, Deus o tenha em eterno descanso e a terra lhe seja lebe."


Ámen! Já vi que vocês usam alcunhas esquisitas e essa "Dois Dedos" é uma delas...


"A maior parte das nossas alcunhas num som dados por nós mas pela bófia que assim nos identifica, como foi o caso do Neca do Marquês que era conhecido por "Dois dedos" por ser exímio a pinçar carteiras usando apenas dois dedos, no caso, o indicador e o médio, sempre como o diabo esfrega um olho.


A ARTE PAGA-SE CARA


E há também a técnica do esticão em que vocês vão de bicicleta ou motorizada junto ao passeio e arrancam a carteira de mão das transeuntes, não é?


"Essa é uma técnica biolenta que não é de carteiristas profissionais mas sim de autênticos ladrões que não querem perder tempo a tirar o curso profissional e andam por aí a deixar ficar mal a nossa classe, como aqueles gajos que nos transportes públicos ficam de pé junto aos assentos ao lado das portas onde alguns passageiros pousam objetos no colo ou junto aos seus pés e quando a porta automática estiver a fechar, pimba que lá se foi o embrulho! Carteiristas que se prezem não usam esse tipo de técnicas que mais parecem próprias de abutres. Para nós, as pessoas são clientes e não bítimas. Carteiristas que se prezem gostam de respeitar a ética profissional, sendo que uma das regras primordiais é depois do serbiço fazer com que o cliente possa receber de bolta todos os seus documentos oficiais que dom um trabalho do carago a pedir nobamente."


São clientes?


"Obbiamente que sim! Nós fazemos o serbiço com arte e como bocê sabe a arte paga-se cara!"


Visto por esse prisma... não deixa de ter a sua razão. Mas você só fala em carteiristas do Porto e de Lisboa. E no resto do país não há carteiristas?


"Entom, num há, carago! E olhe que num som poucos. Só para lhe falar de alguns, temos o Relhanlha de Lagos, no Algarbe, que faz os comboios Alfa Pendulares Faro-Porto-Faro todos os dias, o Mons de Aranha, de Braga, que faz os Intercidades Braga-Lisboa-Braga, o..."


Espere, amigo Dedo Mindinho! Nós não nos estávamos a referir a trabalhadores da CP mas sim aos seus colegas carteiristas...


"E é desses que eu estou a falar, carago! Os Alfa Pendulares e os Intercidades são locais de trabalho fixes para o trabalhinho pois está tudo facilitado. Começa logo quando os passageiros estom a entrar para as carruagens e se dirigem para os seus lugares. Aí, só temos que ser gentis e ajudar os passageiros a colocar as suas malas na bagageira acima dos seus lugares, sendo que é na hora em que o passageiro se estica para colocar a sua pasta na bagageira, que nós o alibiamos do peso da carteira. E se por acaso não pudermos ser gentis ajudando na colocação das malas nas bagageiras, podemos sempre tentar nobamente ajudando aquando da saída com a retirada das bagagens."




NO PORTO, POLÍCIA COLOCA E RETIRA AVISOS


Impressionante, tanta gentileza da vossa parte. E aqui no Porto, o trabalho vai rolando, ou quê? 


"Aqui no coraçom da Inbicta e arredores, tá tudo fixe, mas uma ocasiom o comandante da bófia armou-se em espertinho e mandou colocar nos locais mais frequentados pelos turistas, uns abisos em letras garrafais que diziam em português "CUIDADO COM OS CARTEIRISTAS! Fique atento e não facilite.", em inglês "WATCH OUT FOR PICKPOCKETS! Stay tuned and don’t make it easy.", e em francês "MÉFIEZ-VOUS DES PICKPOCKETS! Restez vigilants et ne facilitez pas".


Dessa não sabíamos nós. Essa iniciativa ainda foi pior para a vossa classe do que a do juiz de Lisboa...


"Qual quê? O que nós queríamos era mais iniciatibas dessas mas a bófia não só foi rápida a retirar os abisos, como nunca mais os colocou...".


Porquê? Vocês foram trabalhar para outro lado e os avisos já não faziam sentido?


PORTUGUESES E GALEGOS FUNDAM O LIGHT HANDS FORCE


"Não, carago! Até os gajos da Galiza e de Lisboa bieram aqui pro Porto pois era um bê se te abias com os turistas parados a lerem atentamente os abisos e a malta por trás deles a fazer o serbicinho. Outros liam os abisos enquanto caminhabam mas por instinto metiam a mom no sítio onde tinham a carteira e nós, pimba, sabendo onde ela estaba era tudo mais fácil. A coisa estaba a correr tão bem que conbocamos todos os carteiristas de Portugal e da Galiza, para fundarmos o Light Hands Force. A malta...


O Light Hands Force?


"Sim, carago! Entom bocê num bê que há muito que o que está a dar é falar, escreber e até cantar como os camones? Bocê liga o rádio numa estaçom qualquer e só oube música na língua dos camones e apenas nos dias de festa é que oube música portuguesa nos interbalos da publicidade; Beja o Dragon Force, que é nem mais nem menos que a Escola de Formaçom do Futebol Clube do Porto; ligue a televisom e ouça falar numa empresa portuguesa de assistência ao transporte aéreo que se chama Groundforce; liga para outro canal e fica a saber que o Serbiço Nacional de Saúde criou o Task Force para gerir essa coisa das bacinas contra o Cobid 19, bocê liga...


Já percebi, mas bocês, digo, vocês, convidaram os carteiristas galegos para fazerem parte da Light Hands Force, a que título?


"A que título? Entom bocê num sabe que desde que foram abertas as fronteiras entre os países da Uniom Europeia, começou a haber o intercâmbio entre os carteiristas da Galiza e de Portugal? Umas bezes nós bamos trabalhar para lá, outras bezes bêm eles trabalhar pra cá. Além disso, os nossos colegas da Galiza sempre foram bons a trabalhar na arte, razom da belha expressom "trabalhar como um galego". A malta dá-se bem. 


Mas eu nunca bi, digo, nunca vi, esses avisos nas ruas do Porto...


CARTEIRA ROUBADA E DEVOLVIDA


"Não é de admirar pois logo no primeiro dia o nosso trabalho foi tanto que a bófia biu que foi pior a emenda do que o soneto e no dia seguinte nem um abiso habia. E agora lamento mas o meu interbalo de descanso já terminou e bou ter que continuar a trabalhar. Quando quiserem noba entrebista é só dizerem."


O Splish-Splash agradece-lhe a entrevista que, estamos certos irá ser do agrado dos nossos leitores. Se vocês precisarem de um logótipo para a vossa organização Light Hands Force, digam, pois temos na nossa equipa uma redatora que é especialista em Design Gráfico.


"Num tem que agradecer. O prazer foi todo meu, pois sou um ferrinho no Portal Splish Splash. E quanto ao logótipo, é uma boa ideia. Lebe isto de recordaçom."


A minha carteira? Como é que ela foi parar às suas mãos se eu nem sequer me cheguei a si? Há coisas do carago!


AVISO:

O texto que acabaram de ler é fictício.

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.


A ficção revela verdades que a realidade omite

Jassemin West





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Um comentário:

  1. Os carteiristas já não se safam como antigamente pois a maior parte do pessoal já não anda com dinheiro desde que em todo o sítio se começou a poder pagar com cartões de crédito.
    Mas gostei da entrevista.
    Miguel Diogo

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