ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

9 de outubro de 2016

Cowboys Portugueses




Por: Armindo Guimarães
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Na nossa anterior reportagem sob o título “Descoberta foto do séc. XVI que se pensa ser de Leonardo D’Avintes com padeira de Avintes de nome Genoveva, a famosa Gioconda”, veio a propósito referirmos Buck Jones dos Santos, director da empresa norte-americana onde mandamos efectuar análises à foto e trineto do famoso cowboy do faroeste, natural de São Miguel, nos Açores e que emigrou para os Estados Unidos no século XIX, recebemos um comentário de um leitor que aplaudiu as nossas investigações, pondo unicamente em dúvida a existência do cowboy português. A esse leitor, agradecemos as felicitações, ao mesmo tempo que o informamos que nós não brincamos em serviço. Porém, ficções à parte, o nosso estimado leitor talvez não saiba que nos Estados Unidos foram muitos os cowboys portugueses, alguns com fama de heróis e outros nem por isso pois dedicavam-se a assaltar bancos e diligências, muitas vezes com o apoio dos índios.

Alguns exemplos são descritos por Sílvia Caneco, Jornal “i”, que transcrevemos:

“John Enos, um homem "alto, escuro e carrancudo", mais conhecido por "Portuguese Joe", era o bicho-papão nas terras áridas do Big Bend Country, na zona oriental de Washington, nos EUA. Quando as mães precisavam de assustar as crianças ameaçavam: "Se não te portares bem, vem aí o Portuguese Joe." Quase um século depois da sua morte, ainda se diz que John Enos odiava os índios e envenenou três com feijão estragado, enterrou os três no pasto, juntamente com dois vaqueiros, era ladrão de cavalos ou um assassino com 25 marcas no cano da pistola.

O nome real de John Enos era, na verdade, João Ignácio d'Oliveira. Nascido na ilha de São Jorge, nos Açores, destacou-se como um dos maiores criadores de gado da história do estado de Washington. No fim do século xix, quase 22.500 portugueses viviam na zona nordeste dos EUA, 90% deles no Massachusetts e em Rhode Island. A grande maioria - 99% - dos imigrantes portugueses vinha das ilhas dos Açores e da Madeira, a ponto de a Califórnia ficar conhecida como "a décima ilha dos Açores". O trabalho nos baleeiros americanos era a principal porta de entrada, a corrida ao ouro o mais tentador. A aventura nos mares soava a promessa de mais cedo ou mais tarde pisar a América prometida.

Os historiadores americanos Donald Warrin e Geoffrey L. Gomes investigaram durante 15 anos a presença portuguesa no Oeste dos EUA. Depois de consultas dos censos da época e de entrevistas a descendentes de portugueses, conseguiram descrever em "Os Portugueses no Faroeste: Terra a Perder de Vista" quem era, de onde vinha e o que fazia esse grupo restrito de portugueses que escolheu emigrar para aquele território.

Quem eram? Houve heróis, dramaturgos, políticos, homens de negócios, mulheres responsáveis pela contabilidade dos negócios dos maridos e de charuto na boca, numa atitude vanguardista para a época. Houve quem se tornasse empresário de sucesso em ramos inverosímeis como a produção de "tamales" - especialidade nunca usada na gastronomia portuguesa -, o comércio de peles ou a exploração mineira. Outros, pastores de profissão, conseguiram, com salários que não iam além dos 25 dólares por mês, poupar o suficiente para investir em rebanhos que ultrapassaram as 30 mil cabeças.

Mais de 60% não sabiam assinar o próprio nome, mas isso não os impediu de fazer fortuna ou de ser bem-sucedidos. "Naturalmente poupados", quase todos arrecadavam dinheiro, ora para comprar uma fazenda, ora para montar um negócio. O açoriano Manuel Lewis (anteriormente Manuel Luiz), por exemplo, começou com um rebanho de 2 mil animais comprado a crédito e chegou a ter o rebanho mais numeroso a sul de Central Valley - 32 mil ovelhas. John Enos - que progrediu de marinheiro a rancheiro e negociante de propriedades - nunca aprendeu a ler nem a escrever; só no final da vida aprendeu a assinar o nome, mas diz-se que "ninguém era capaz de o ler a não ser ele mesmo".

Thomé Luiz de Freitas, açoriano da ilha das Flores, foi o primeiro dramaturgo do Idaho. Antonio Joseph, filho de português nascido em São Miguel, foi o primeiro luso-americano no Congresso: esteve dez anos como delegado do Novo México à Câmara dos Representantes dos EUA. E os Joe tornaram-se figuras omnipresentes nas fronteiras do Oeste: Joe era a alcunha mais utilizada entre os cidadãos lusos, devido a tantos dos seus nomes - José, João ou Joaquim - começarem por Jo.

Os heróis e os vilões John "Portuguese" Phillips ficou na cabeça dos americanos como o homem que salvou da morte uma guarnição militar na fronteira do Wyoming. Nasceu na ilha do Pico, nos Açores, e não se sabe em que altura o seu nome passou de Manuel Filipe a John Phillips. Depois de 79 soldados e dois civis terem sido mortos numa batalha contra os índios, o português "seco e rijo, de pequena estatura" esgueirou-se do forte e percorreu a cavalo 320 quilómetros debaixo de um pesado nevão. John, que já tinha encontrado um amigo nu com 105 flechas cravadas no corpo, foi o primeiro a oferecer-se para levar uma mensagem ao comandante de Fort Laramie a pedir reforços. Em troca recebeu 300 dólares (o equivalente a 3 mil dólares hoje) e o rótulo de "herói da fronteira do Wyoming".

Já Manuel S. Brazil, natural de São Jorge, experimentou a fama de vilão por ter denunciado Billy the Kid, o mais famoso fora-da-lei de todo o Oeste, que uns viam como herói, outros como bandido. O criador de gado português comprou um rancho por 400 dólares e Billy the Kid - que já era procurado pela justiça por assassínio e roubo de gado e cavalos mas continuava a circular livremente pelo condado de Lincoln - testemunhou o contrato.

O foragido e o português eram amigos, mas na hora H foi John Phillips a explicar ao xerife que andava no encalço do criminoso qual o rasto de Billy the Kid e da sua quadrilha. Em 1881, Kid foi condenado a morrer na forca mas escapou da cadeia depois de matar dois guardas. O xerife voltou a procurar Manuel Brazil na tentativa de obter informações sobre Kid, mas Brazil já estava em paradeiro incerto. Lá ficou até Billy the Kid morrer, temendo a vingança do mais célebre foragido do Oeste Americano.“

O livro “Land, as far as the eye can see – Portuguese in old west”, de Donald Warrin e Geoffrey L. Gomes, 352 p. Arthur H. Clark, 2001, publica biografias ilustradas de pioneiros portugueses no faroeste. O livro foi traduzido em Portugal com o título Portugueses no faroeste – Terra a perder de vista. Bertrand Editora, 2008.

Já em 2004, a revista portuguesa Grande Reportagem havia publicado durante nove semanas uma tradução resumida do livro, focalizando onze principais figuras, das quais oito açorianos, e menciona brevemente mais treze portugueses, dos quais onze açorianos, que emigraram para o faroeste dos EUA no século XIX, onde viveram sagas fabulosas.

Eis os nomes desses onze primeiros:

1. John Enos (o cowboy) = João Ignácio d’Oliveira
2. John ‘Portugee’ Philips = Manuel Felipe Cardoso
3. Manuel Silveira Brazil (participou da prisão de Billy the Kid)
4. Peter Joseph = Pedro José de Teves (o denunciante de Billy the Kid)
5. António Soares Monteiro
6. Tom de Freitas = Thomé Luiz de Freitas (o escritor)
7. Joe King = Joaquim
8. John Dovell (o carpinteiro)
9. Louis Silvers = Luís Silva (o mórmon)
10. Ennez Kunha = Ignez Cunha
11. John Ennes = João Ignácio de Souza (magnata do petróleo, deixou uma fortuna equivalente a 10 milhões de euros atuais.

Billy Dean - Billy The Kid

Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

1 comentário:

  1. Como sempre, mais um excelente trabalho do Armindo. São histórias marcantes e esta tem ma ver também com a açorianidade. Fala-se de uma Dramaturgo da ilha das Flores, que faz parte do Grupo Ocidental do Arquipélago dos Açores. Uma das ilhas mais bonitas em termos de belezas naturais. Aliás, nesta encruzilhada da emigração. nomeadamente nos Estados Unidos da América do Norte, os açorianos marcaram,e hoje continuam a marcar, presença significativa no campo cultural e não só.
    Carlos Alberto Alves

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