Como os algoritmos e a busca por cliques alimentam falsas polémicas entre Portugal e o Brasil
Muitos culpam os portugueses pelo que aprenderam na escola, sem notar que estão a minimizar e a culpabilizar os seus próprios antepassados
"Quem deturpa a história planta minas no chão que o futuro pisará."
Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Quando, em 3 de Julho de 2025, publiquei o artigo intitulado "A Vaidade Digital: Todos Criadores, Poucos Conteúdos", no qual problematizava o surgimento súbito e massificado de criadores de conteúdos digitais nas redes sociais — com particular incidência no Facebook, cuja funcionalidade "Modo Profissional" facilitou essa transformação — não antecipava que, volvido um ano, tal fenómeno viesse a assumir contornos de manifesta desordem informacional.
Com efeito, num contexto em que se proclama a necessidade de combater a disseminação de notícias falsas, o que se observa actualmente naquela plataforma constitui, em larga medida, a antítese desse desígnio. Multiplicam-se conteúdos de natureza fraudulenta, frequentemente revestidos de sensacionalismo ou provocação, cuja circulação não é eficazmente travada pelos mecanismos de moderação existentes. Acresce que, quando denunciadas, tais publicações tendem apenas a ser ocultadas ao denunciante, permanecendo acessíveis à generalidade dos utilizadores, o que compromete a integridade do espaço informativo.
Conflito cultural ou manipulação algorítmica?
Este estado de coisas não é fortuito. Resulta, antes, de um modelo que privilegia a maximização de métricas de interacção — visualizações, reacções e comentários — em detrimento da qualidade e veracidade dos conteúdos. A monetização associada a estes indicadores cria incentivos claros à produção de material enganador ou deliberadamente inflamatório, frequentemente difundido por páginas de aparência credível.
O Modelo de Negócio do Clique e da Provocação
Bem vistas as coisas, não seria de esperar outra coisa, já que a criação dos tais "criadores de conteúdos digitais" visou aumentar a todo o custo o número de publicações, o número de cliques nas mesmas, o número de reacções ("Gosto") e o número de comentários. O valor monetário que o autor da publicação recebe varia consoante os números obtidos.
"A Internet deu voz a toda a gente. O problema não foi terem começado a falar.
Foi terem descoberto que também lhes pagavam por isso."
— Isolino Prata
Acontece que hoje vi, por acaso, um vídeo no qual a autora diz o seguinte: "Eu sou brasileira, sou imigrante e tenho uma dúvida. Se Portugal descobriu o Brasil em 1500, por que essa rivalidade entre essas duas nacionalidades? É ciúme? É um querendo ser melhor que o outro? Se Portugal e Brasil são irmãos, ou melhor dizendo, será que é pai e filho? Qual é o problema da nossa nacionalidade brasileira e a nacionalidade portuguesa? Me diz aí. Somos irmãos, somos parentes, estamos aqui unidos por uma só nação. Qual é o motivo que gera tanto repercussão na internet ou tanto problema entre brasileiros e portugueses? Diz aí a sua opinião, me conta aqui nos comentários."
A Fabricação de Rivalidades no Espaço Virtual
Trata-se de uma realidade cuja resposta quase que já foi dada no que atrás ficou escrito. Porém, há que começar por dizer que tal rivalidade parte frequentemente de publicações de brasileiros que esperam ansiosamente os comentários de revolta do leitor português. Referi acima páginas de nomes insuspeitos e dou, a propósito, o exemplo de uma página com o nome "Mais Geografia" que, em vez de voltada para o tema em si, publica uma série de posts com o mapa do Brasil, mapas de estados brasileiros e de países do mundo, comparando-os um a um com o mapa de Portugal, que quase não se vê. Isto é, por si só, uma resposta: não se vê fenómeno semelhante criado por portugueses em relação ao Brasil e aos brasileiros. Entretanto, devido à revolta de inúmeros portugueses, o Facebook acabou por eliminar tais publicações que incitavam ao ódio; mas, mesmo assim, posts idênticos vão aparecendo, como é o caso recente deste.
Convivência em Portugal e episódios mediáticos
Além disso, há também um considerável número de brasileiros em Portugal cujo comportamento não é o mais adequado para quem pretende viver num país com outros costumes e leis que devem ser respeitados por todos, e não apenas pelos nacionais. Mas, infelizmente, verifica-se que isso não acontece com certos cidadãos que teimam em viver em Portugal como viviam no Brasil, com festas em casa até altas horas da noite, quando sabem que, a partir das 23 horas, o silêncio é lei e sagrado em todas as casas, e mesmo antes daquela hora deve manter-se dentro dos limites legais para não ser considerado excessivo. O mesmo se diga nas praias, em que muitos fazem questão de actuar como se estivessem em praias brasileiras, com aparelhos de som em altos decibéis que incomodam outros veraneantes, obrigados a ouvir o que não querem.
Não raras vezes, tais casos causam conflitos que muitas vezes são taxados de xenófobos quando, na realidade, os conflitos aconteceriam igualmente se fossem entre portugueses, e não apenas por os infractores serem brasileiros. Isto significa que os termos "xenofobia" e "racismo" são usados por tudo e por nada como arma de defesa para o vitimismo doentio de certos indivíduos.
Criadores de Conteúdo e a Exploração do Conflito
No plano mediático, a instrumentalização destes episódios é evidente, sobretudo quando associada à produção de conteúdos digitais com fins lucrativos, incluindo a captação e difusão de imagens sem o devido consentimento. Tal prática levanta, aliás, questões jurídicas relevantes, nomeadamente no âmbito do direito à imagem e à reserva da vida privada.
Dois casos recentes protagonizados por animadores de rua brasileiros nos metros de Lisboa e Porto geraram polémica. Sobre o de Lisboa, foi criado um vídeo por um brasileiro revoltado pela atitude do seu conterrâneo. No metro do Porto, o animador — sabendo que, em Portugal, não são permitidos peditórios ou praticar qualquer arte nas carruagens para não incomodar os utentes, conforme avisos que constam de cartazes e de anúncios sonoros nas estações — entrou, mesmo assim, numa carruagem com a sua animação, que até poderia ser do agrado de alguns, mas não de todos. O fiscal foi obrigado a expulsá-lo, não sem que antes o prevaricador se insurgisse, invocando que era animador de rua, como se tal lhe desse o direito de ser animador de metro. Entretanto, achei estranho que o próprio filmasse toda a acção entre ele e o fiscal. Pesquisei e constatei que, pelos vistos, o animador de rua também é "criador de conteúdos digitais", ganhando com a publicação do vídeo que filmou sem autorização do fiscal e dos passageiros.
Outro caso flagrante foi o de um brasileiro em Portugal que filmou fixamente uma senhora na rua de uma cidade até alcançar o que queria: isto é, que ela reagisse mal e o insultasse pela sua insistência em a filmar. O objectivo resultou, pois a mulher, vendo que não podia demovê-lo de outra forma, passou ao insulto verbal, incluindo, como não podia deixar de ser, a frase "Vai para a tua terra!". Esta é uma frase feita, usada em especial no Norte de Portugal, direccionada não apenas a brasileiros, como se possa pensar, mas sim a todos aqueles que não são do sítio em questão e que não se comportam normalmente, sejam portugueses de outros locais, sejam estrangeiros em geral. Esta separação histórica tem que se lhe diga, visto que para os portugueses os brasileiros tradicionalmente não eram considerados estrangeiros; escrevi "não eram" porque, infelizmente, com o caminho que as coisas estão a levar, não sei se ainda é como antes.
O Laço Histórico e Cultural que nos Unia
Não obstante estas tensões, seria redutor ignorar o contexto histórico e cultural que, durante décadas, aproximou Portugal e o Brasil. A presença marcante de produções brasileiras — na televisão, na música e no humor — contribuiu significativamente para a construção de uma relação de proximidade e admiração mútua.
Todavia, essa relação não tem sido isenta de episódios controversos, alguns dos quais revelam persistência de estereótipos e representações desajustadas.
Em 2009, a actriz e apresentadora brasileira Maitê Proença (com imagens gravadas originalmente em 2007) exibiu um vídeo satírico no programa Saia Justa do canal GNT, no qual repetia estereótipos sobre os portugueses e finalizou as imagens cuspindo numa fonte do histórico Mosteiro dos Jerónimos.
A exibição das imagens gerou enorme indignação e repúdio em Portugal. O episódio desencadeou abaixo-assinados na Internet e revolta contra a forma como a História e o povo português foram retratados no vídeo. Na época, a polémica fez com que a artista admitisse publicamente que tinha receio de voltar a Portugal devido ao forte impacto do caso; no entanto, decorridos 10 anos, voltou a Portugal sem conhecimento da imprensa, para um período de descanso.
Mas neste aspecto, até altos cargos públicos do Brasil são apontados como maus exemplos perante os cidadãos, já que, face a um acontecimento ainda não completamente esclarecido, tomam de imediato posições irreflectidas na praça pública, que mais acicatam os problemas em vez de os relativizar, como seria de bom tom de um qualquer ministro da justiça ou presidente da república de um país.
A História Mal Contada e os Sobrenomes Partilhados
No domínio historiográfico, subsiste uma questão de fundo: a forma como a História do Brasil é ensinada e interpretada. Sem negar a existência de injustiças no período anterior à independência, mas lembrando que continuaram e continuam a existir mesmo depois dela, importa reconhecer a complexidade dos processos históricos e evitar leituras de dimensão restrita que tendem a imputar responsabilidades de forma simplista e anacrónica se tivermos em consideração que após 200 anos de independência, persistirem em culpar os portugueses por tudo quanto corre mal no Brasil, por tudo o que ainda não foi feito, por tudo o que não querem ou não sabem fazer.
A História do Brasil, para ser completa, terá de ter, forçosamente, um pouco da História de Portugal, para que os brasileiros melhor compreendam a sua própria história e o seu país. Em vez disso, os portugueses foram transformados nos "maus da fita" que criaram a escravatura, que dizimaram indígenas (como os seus vizinhos espanhóis), que espalharam doenças e que roubaram o ouro. Na História do Brasil nada é escrito sobre o legado positivo deixado pelos portugueses. Em vez disso, criou-se o mito do português anedótico da "terrinha", da Maria, do que toma leite nos supermercados porque no pacote está escrito: "ABRIR AQUI".
"O futuro de um país é diretamente proporcional ao orgulho que ele tem pelo seu passado."
— Vímara Porto
Nada é falado sobre a diferença entre o que se passava no Brasil e as outras terras sul-americanas sob a alçada de Espanha. Das lutas travadas por portugueses, brasileiros e indígenas em defesa do Brasil face a países invasores e dos imensos fortes construídos para a defesa do território, sendo que muitos deles ainda estão de pé como testemunhas desse passado glorioso.
Os nomes próprios mais registados na história do Brasil e ainda muito frequentes são de origem hebraica e latina (via tradição católica portuguesa): João, Maria, José, Ana, Pedro, Francisco, António. Estes continuam a dominar o censo geral. Contudo, salvo as excepções motivadas por origem não portuguesa, a partir de certa altura muitos brasileiros passaram a não aliar os nomes próprios aos sobrenomes portugueses, usando nomes estrangeiros ou estrangeirados. Nomes como Kevin, Jennifer, Ryan e Anderson explodiram em popularidade a partir das décadas de 1980 e 1990. É vulgar encontrar muitos nomes terminados em -son ou equiparados: Anderson, Wilson, Jackson, Emerson, Everton, que eram originalmente sobrenomes ingleses ("filho de...") e que no Brasil, impulsionados pela cultura desportiva e pelo cinema norte-americano, foram adoptados como primeiros nomes a partir do século XX. Outros adoptaram sobrenomes estrangeiros transformando-os em nomes, como Edson, Davidson, Gerson, Jefferson, Clayton. Ter um filho chamado Brian, Gerson ou Jordan passou a soar cosmopolita nas décadas de 80 e 90, servindo também de distinção social: muitas famílias escolheram esses nomes para diferenciar os filhos dos nomes tradicionais portugueses associados a classes mais baixas ou à velha ordem, criando uma nova identidade urbana.
Apesar disso, a regra preservou até aos dias de hoje os sobrenomes portugueses, mais difíceis de substituir. É por isso que conseguimos detectar o contra-senso de ver brasileiros cujos sobrenomes são de origem puramente portuguesa, tais como Silva, Ferreira, Saraiva, Braga, Gonçalves, Azevedo, serem os que mais acusam os portugueses por via do que aprenderam na escola, não reparando que estão a minimizar e a culpabilizar os seus próprios antepassados, a sua família e a eles próprios.
O Risco de Fragmentação da Língua e da Lusofonia
O curioso é que todas estas coisas servem de rastilho. Com efeito, de acordo com o site da CNN Portugal, o escritor angolano José Eduardo Agualusa teria dito num festival realizado recentemente no Rio de Janeiro que a expressão "língua portuguesa" já não traduz a realidade plural e descolonizada do idioma, que deveria passar a ser denominado "Língua Geral", expressão de "um território de encontros e de afectos".
Por sua vez, o linguista e professor universitário português Marco Neves, que passou a ser conhecido recentemente pelos vídeos que publica no YouTube sobre a Língua Portuguesa (que já lhe garantiram na RTP1 um programa de 3 minutos de segunda a sexta, sob o título "Esta Língua Que Nos Une") e que esteve com o escritor angolano no referido evento, diz que "A mudança de nome da língua portuguesa para 'língua geral' é uma provocação literária de José Eduardo Agualusa". Acrescenta que "a maior preocupação não é tanto a questão do nome, mas sim a questão da unidade da língua" e lembra que "há uma discussão no Brasil neste momento mais viva do que era habitual sobre se o português no Brasil deve passar a ser chamado brasileiro".
Concluindo, foi tudo perfeitamente calculado: Agualusa diz que a expressão "Língua Portuguesa" devia ser descolonizada e passar a designar-se "Língua Geral", quiçá para agradar aos brasileiros maioritariamente presentes no evento, sendo que tal designação nem sequer é neutra, pois, coincidência ou não, "Língua Geral" é precisamente o nome da editora existente no Rio de Janeiro da qual foi co-fundador. Por sua vez, Marco Neves, que aparece fotografado lado a lado no evento com Agualusa, desvaloriza o dito daquele com o argumento de que foi apenas uma "provocação literária" do escritor. Esquece-se de que o mesmo, antes de tal proposta, não começou pelo exemplo do seu próprio nome, Agualusa, descolonizando-o para "Aguageral", e que, neste contexto, cabe aos agentes culturais — escritores, linguistas e académicos — um papel de responsabilidade na promoção do diálogo e da unidade.
Se esse equilíbrio não for alcançado, não será de excluir uma crescente fragmentação simbólica, eventualmente traduzida na autonomização de designações linguísticas, com implicações na cooperação cultural e política entre países de língua portuguesa.
O Futuro da Lusofonia
A própria noção de lusofonia, enquanto espaço de convergência, enfrenta desafios evidentes. Não são raros os casos de figuras públicas que, beneficiando da projecção proporcionada por esse espaço, adoptam posteriormente um discurso de distanciamento ou rejeição, como foi o caso de um célebre e veterano cantor angolano que, quando interrogado sobre o que tinha a dizer da Lusofonia, respondeu: "Não me fale da lusofonia, se faz favor", faltando-lhe acrescentar "mas que me deu muito jeito para ser conhecido em Portugal e além-fronteiras, isso deu". A este podem juntar-se muitos outros para quem a Lusofonia não interessa, mas que lhes tem valido muito.
Ainda assim, importa não perder de vista o essencial: subsiste um vasto conjunto de relações humanas, culturais e institucionais que testemunham uma ligação sólida entre Portugal e o Brasil. São inúmeros os cidadãos brasileiros que expressam apreço pela realidade portuguesa, tal como muitos portugueses continuam a reconhecer e valorizar a riqueza cultural do Brasil.
É nesse património comum, mais do que nas divergências amplificadas, que reside a base para uma relação futura assente no respeito, na lucidez e na responsabilidade mútua.
Depoimentos de Brasileiros em Portugal sobre o País e os Portugueses
O presente texto reflecte uma análise crítica sobre dinâmicas contemporâneas no espaço digital e nas relações culturais no universo lusófono, assumindo uma perspectiva opinativa devidamente fundamentada. As referências a comportamentos, práticas ou tendências não visam generalizar ou estigmatizar quaisquer comunidades, mas antes contribuir para um debate informado, responsável e construtivo.
Num contexto marcado pela crescente complexidade da comunicação digital, considera-se essencial promover o discernimento, a literacia mediática e o respeito mútuo entre povos historicamente ligados por laços culturais e linguísticos comuns.
A publicação deste artigo insere-se, assim, no compromisso editorial de estimular a reflexão crítica e o diálogo esclarecido, pilares fundamentais de uma sociedade plural e consciente.
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Com efeito, num contexto em que se proclama a necessidade de combater a disseminação de notícias falsas, o que se observa actualmente naquela plataforma constitui, em larga medida, a antítese desse desígnio. Multiplicam-se conteúdos de natureza fraudulenta, frequentemente revestidos de sensacionalismo ou provocação, cuja circulação não é eficazmente travada pelos mecanismos de moderação existentes. Acresce que, quando denunciadas, tais publicações tendem apenas a ser ocultadas ao denunciante, permanecendo acessíveis à generalidade dos utilizadores, o que compromete a integridade do espaço informativo.
Conflito cultural ou manipulação algorítmica?
Este estado de coisas não é fortuito. Resulta, antes, de um modelo que privilegia a maximização de métricas de interacção — visualizações, reacções e comentários — em detrimento da qualidade e veracidade dos conteúdos. A monetização associada a estes indicadores cria incentivos claros à produção de material enganador ou deliberadamente inflamatório, frequentemente difundido por páginas de aparência credível.O Modelo de Negócio do Clique e da Provocação
Bem vistas as coisas, não seria de esperar outra coisa, já que a criação dos tais "criadores de conteúdos digitais" visou aumentar a todo o custo o número de publicações, o número de cliques nas mesmas, o número de reacções ("Gosto") e o número de comentários. O valor monetário que o autor da publicação recebe varia consoante os números obtidos.Foi terem descoberto que também lhes pagavam por isso." — Isolino Prata
A Fabricação de Rivalidades no Espaço Virtual
Trata-se de uma realidade cuja resposta quase que já foi dada no que atrás ficou escrito. Porém, há que começar por dizer que tal rivalidade parte frequentemente de publicações de brasileiros que esperam ansiosamente os comentários de revolta do leitor português. Referi acima páginas de nomes insuspeitos e dou, a propósito, o exemplo de uma página com o nome "Mais Geografia" que, em vez de voltada para o tema em si, publica uma série de posts com o mapa do Brasil, mapas de estados brasileiros e de países do mundo, comparando-os um a um com o mapa de Portugal, que quase não se vê. Isto é, por si só, uma resposta: não se vê fenómeno semelhante criado por portugueses em relação ao Brasil e aos brasileiros. Entretanto, devido à revolta de inúmeros portugueses, o Facebook acabou por eliminar tais publicações que incitavam ao ódio; mas, mesmo assim, posts idênticos vão aparecendo, como é o caso recente deste.Convivência em Portugal e episódios mediáticos
Além disso, há também um considerável número de brasileiros em Portugal cujo comportamento não é o mais adequado para quem pretende viver num país com outros costumes e leis que devem ser respeitados por todos, e não apenas pelos nacionais. Mas, infelizmente, verifica-se que isso não acontece com certos cidadãos que teimam em viver em Portugal como viviam no Brasil, com festas em casa até altas horas da noite, quando sabem que, a partir das 23 horas, o silêncio é lei e sagrado em todas as casas, e mesmo antes daquela hora deve manter-se dentro dos limites legais para não ser considerado excessivo. O mesmo se diga nas praias, em que muitos fazem questão de actuar como se estivessem em praias brasileiras, com aparelhos de som em altos decibéis que incomodam outros veraneantes, obrigados a ouvir o que não querem.Não raras vezes, tais casos causam conflitos que muitas vezes são taxados de xenófobos quando, na realidade, os conflitos aconteceriam igualmente se fossem entre portugueses, e não apenas por os infractores serem brasileiros. Isto significa que os termos "xenofobia" e "racismo" são usados por tudo e por nada como arma de defesa para o vitimismo doentio de certos indivíduos.
Criadores de Conteúdo e a Exploração do Conflito
No plano mediático, a instrumentalização destes episódios é evidente, sobretudo quando associada à produção de conteúdos digitais com fins lucrativos, incluindo a captação e difusão de imagens sem o devido consentimento. Tal prática levanta, aliás, questões jurídicas relevantes, nomeadamente no âmbito do direito à imagem e à reserva da vida privada.Dois casos recentes protagonizados por animadores de rua brasileiros nos metros de Lisboa e Porto geraram polémica. Sobre o de Lisboa, foi criado um vídeo por um brasileiro revoltado pela atitude do seu conterrâneo. No metro do Porto, o animador — sabendo que, em Portugal, não são permitidos peditórios ou praticar qualquer arte nas carruagens para não incomodar os utentes, conforme avisos que constam de cartazes e de anúncios sonoros nas estações — entrou, mesmo assim, numa carruagem com a sua animação, que até poderia ser do agrado de alguns, mas não de todos. O fiscal foi obrigado a expulsá-lo, não sem que antes o prevaricador se insurgisse, invocando que era animador de rua, como se tal lhe desse o direito de ser animador de metro. Entretanto, achei estranho que o próprio filmasse toda a acção entre ele e o fiscal. Pesquisei e constatei que, pelos vistos, o animador de rua também é "criador de conteúdos digitais", ganhando com a publicação do vídeo que filmou sem autorização do fiscal e dos passageiros.
Outro caso flagrante foi o de um brasileiro em Portugal que filmou fixamente uma senhora na rua de uma cidade até alcançar o que queria: isto é, que ela reagisse mal e o insultasse pela sua insistência em a filmar. O objectivo resultou, pois a mulher, vendo que não podia demovê-lo de outra forma, passou ao insulto verbal, incluindo, como não podia deixar de ser, a frase "Vai para a tua terra!". Esta é uma frase feita, usada em especial no Norte de Portugal, direccionada não apenas a brasileiros, como se possa pensar, mas sim a todos aqueles que não são do sítio em questão e que não se comportam normalmente, sejam portugueses de outros locais, sejam estrangeiros em geral. Esta separação histórica tem que se lhe diga, visto que para os portugueses os brasileiros tradicionalmente não eram considerados estrangeiros; escrevi "não eram" porque, infelizmente, com o caminho que as coisas estão a levar, não sei se ainda é como antes.
O Laço Histórico e Cultural que nos Unia
Não obstante estas tensões, seria redutor ignorar o contexto histórico e cultural que, durante décadas, aproximou Portugal e o Brasil. A presença marcante de produções brasileiras — na televisão, na música e no humor — contribuiu significativamente para a construção de uma relação de proximidade e admiração mútua.Todavia, essa relação não tem sido isenta de episódios controversos, alguns dos quais revelam persistência de estereótipos e representações desajustadas.
Em 2009, a actriz e apresentadora brasileira Maitê Proença (com imagens gravadas originalmente em 2007) exibiu um vídeo satírico no programa Saia Justa do canal GNT, no qual repetia estereótipos sobre os portugueses e finalizou as imagens cuspindo numa fonte do histórico Mosteiro dos Jerónimos.
A exibição das imagens gerou enorme indignação e repúdio em Portugal. O episódio desencadeou abaixo-assinados na Internet e revolta contra a forma como a História e o povo português foram retratados no vídeo. Na época, a polémica fez com que a artista admitisse publicamente que tinha receio de voltar a Portugal devido ao forte impacto do caso; no entanto, decorridos 10 anos, voltou a Portugal sem conhecimento da imprensa, para um período de descanso.
Mas neste aspecto, até altos cargos públicos do Brasil são apontados como maus exemplos perante os cidadãos, já que, face a um acontecimento ainda não completamente esclarecido, tomam de imediato posições irreflectidas na praça pública, que mais acicatam os problemas em vez de os relativizar, como seria de bom tom de um qualquer ministro da justiça ou presidente da república de um país.
A História Mal Contada e os Sobrenomes Partilhados
No domínio historiográfico, subsiste uma questão de fundo: a forma como a História do Brasil é ensinada e interpretada. Sem negar a existência de injustiças no período anterior à independência, mas lembrando que continuaram e continuam a existir mesmo depois dela, importa reconhecer a complexidade dos processos históricos e evitar leituras de dimensão restrita que tendem a imputar responsabilidades de forma simplista e anacrónica se tivermos em consideração que após 200 anos de independência, persistirem em culpar os portugueses por tudo quanto corre mal no Brasil, por tudo o que ainda não foi feito, por tudo o que não querem ou não sabem fazer.A História do Brasil, para ser completa, terá de ter, forçosamente, um pouco da História de Portugal, para que os brasileiros melhor compreendam a sua própria história e o seu país. Em vez disso, os portugueses foram transformados nos "maus da fita" que criaram a escravatura, que dizimaram indígenas (como os seus vizinhos espanhóis), que espalharam doenças e que roubaram o ouro. Na História do Brasil nada é escrito sobre o legado positivo deixado pelos portugueses. Em vez disso, criou-se o mito do português anedótico da "terrinha", da Maria, do que toma leite nos supermercados porque no pacote está escrito: "ABRIR AQUI".
Os nomes próprios mais registados na história do Brasil e ainda muito frequentes são de origem hebraica e latina (via tradição católica portuguesa): João, Maria, José, Ana, Pedro, Francisco, António. Estes continuam a dominar o censo geral. Contudo, salvo as excepções motivadas por origem não portuguesa, a partir de certa altura muitos brasileiros passaram a não aliar os nomes próprios aos sobrenomes portugueses, usando nomes estrangeiros ou estrangeirados. Nomes como Kevin, Jennifer, Ryan e Anderson explodiram em popularidade a partir das décadas de 1980 e 1990. É vulgar encontrar muitos nomes terminados em -son ou equiparados: Anderson, Wilson, Jackson, Emerson, Everton, que eram originalmente sobrenomes ingleses ("filho de...") e que no Brasil, impulsionados pela cultura desportiva e pelo cinema norte-americano, foram adoptados como primeiros nomes a partir do século XX. Outros adoptaram sobrenomes estrangeiros transformando-os em nomes, como Edson, Davidson, Gerson, Jefferson, Clayton. Ter um filho chamado Brian, Gerson ou Jordan passou a soar cosmopolita nas décadas de 80 e 90, servindo também de distinção social: muitas famílias escolheram esses nomes para diferenciar os filhos dos nomes tradicionais portugueses associados a classes mais baixas ou à velha ordem, criando uma nova identidade urbana.
Apesar disso, a regra preservou até aos dias de hoje os sobrenomes portugueses, mais difíceis de substituir. É por isso que conseguimos detectar o contra-senso de ver brasileiros cujos sobrenomes são de origem puramente portuguesa, tais como Silva, Ferreira, Saraiva, Braga, Gonçalves, Azevedo, serem os que mais acusam os portugueses por via do que aprenderam na escola, não reparando que estão a minimizar e a culpabilizar os seus próprios antepassados, a sua família e a eles próprios.
O Risco de Fragmentação da Língua e da Lusofonia
O curioso é que todas estas coisas servem de rastilho. Com efeito, de acordo com o site da CNN Portugal, o escritor angolano José Eduardo Agualusa teria dito num festival realizado recentemente no Rio de Janeiro que a expressão "língua portuguesa" já não traduz a realidade plural e descolonizada do idioma, que deveria passar a ser denominado "Língua Geral", expressão de "um território de encontros e de afectos".Por sua vez, o linguista e professor universitário português Marco Neves, que passou a ser conhecido recentemente pelos vídeos que publica no YouTube sobre a Língua Portuguesa (que já lhe garantiram na RTP1 um programa de 3 minutos de segunda a sexta, sob o título "Esta Língua Que Nos Une") e que esteve com o escritor angolano no referido evento, diz que "A mudança de nome da língua portuguesa para 'língua geral' é uma provocação literária de José Eduardo Agualusa". Acrescenta que "a maior preocupação não é tanto a questão do nome, mas sim a questão da unidade da língua" e lembra que "há uma discussão no Brasil neste momento mais viva do que era habitual sobre se o português no Brasil deve passar a ser chamado brasileiro".
Concluindo, foi tudo perfeitamente calculado: Agualusa diz que a expressão "Língua Portuguesa" devia ser descolonizada e passar a designar-se "Língua Geral", quiçá para agradar aos brasileiros maioritariamente presentes no evento, sendo que tal designação nem sequer é neutra, pois, coincidência ou não, "Língua Geral" é precisamente o nome da editora existente no Rio de Janeiro da qual foi co-fundador. Por sua vez, Marco Neves, que aparece fotografado lado a lado no evento com Agualusa, desvaloriza o dito daquele com o argumento de que foi apenas uma "provocação literária" do escritor. Esquece-se de que o mesmo, antes de tal proposta, não começou pelo exemplo do seu próprio nome, Agualusa, descolonizando-o para "Aguageral", e que, neste contexto, cabe aos agentes culturais — escritores, linguistas e académicos — um papel de responsabilidade na promoção do diálogo e da unidade.
Se esse equilíbrio não for alcançado, não será de excluir uma crescente fragmentação simbólica, eventualmente traduzida na autonomização de designações linguísticas, com implicações na cooperação cultural e política entre países de língua portuguesa.
O Futuro da Lusofonia
A própria noção de lusofonia, enquanto espaço de convergência, enfrenta desafios evidentes. Não são raros os casos de figuras públicas que, beneficiando da projecção proporcionada por esse espaço, adoptam posteriormente um discurso de distanciamento ou rejeição, como foi o caso de um célebre e veterano cantor angolano que, quando interrogado sobre o que tinha a dizer da Lusofonia, respondeu: "Não me fale da lusofonia, se faz favor", faltando-lhe acrescentar "mas que me deu muito jeito para ser conhecido em Portugal e além-fronteiras, isso deu". A este podem juntar-se muitos outros para quem a Lusofonia não interessa, mas que lhes tem valido muito.Ainda assim, importa não perder de vista o essencial: subsiste um vasto conjunto de relações humanas, culturais e institucionais que testemunham uma ligação sólida entre Portugal e o Brasil. São inúmeros os cidadãos brasileiros que expressam apreço pela realidade portuguesa, tal como muitos portugueses continuam a reconhecer e valorizar a riqueza cultural do Brasil.
É nesse património comum, mais do que nas divergências amplificadas, que reside a base para uma relação futura assente no respeito, na lucidez e na responsabilidade mútua.
Depoimentos de Brasileiros em Portugal sobre o País e os Portugueses
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do blog luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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