A voz da minha mãe morava em Penafiel

Reflexão sobre a herança linguística do Norte, a influência galego‑portuguesa e as memórias afetivas preservadas na fala de gerações.
Ilustração representando a ligação entre o falar nortenho, Penafiel, o Porto e a herança galego‑portuguesa.

A língua da minha mãe não era erro: era memória viva a falar mais alto que a norma

Entre o Porto e a Galiza, há sons que não conhecem fronteiras — apenas raízes.
Vímara Porto

Por: Armindo Guimarães


Quando eu era criança, corrigia frequentemente a maneira de falar da minha mãe. Fazia-o com a convicção inocente de quem aprende na escola que existe uma forma certa e outra errada de dizer as palavras. E como ela viera de uma aldeia de Penafiel para viver no Porto, havia expressões, sons e pronúncias que nunca perdera completamente.

Lembro-me de lhe chamar a atenção quando dizia “cousa” em vez de "coisa". Ou quando trocava um "v" por um "b", dizendo "bida" em vez de "vida". Na minha cabeça de menino, eu estava a ajudá-la a falar "como deve ser". Afinal, era isso que a escola ensinava. Era isso que se ouvia na rádio e, mais tarde, na televisão.

A minha mãe, coitada, ficava embaraçada. Não por vergonha da aldeia onde nascera, mas talvez por sentir que, mesmo vivendo há anos na cidade, nunca conseguira absorver totalmente a maneira de falar dominante à sua volta. A cidade entrou-lhe na vida mais depressa do que lhe entrou na fala.

Hoje penso nisso com ternura e arrependimento.

A minha mãe dizia "por mor de" em vez de "por causa de". Na altura, eu achava aquilo estranho, quase um tropeço da fala. Só mais tarde percebi que não era erro nenhum: era herança. Uma daquelas raízes antigas que ligam o português ao galego, sobrevivente teimosa de séculos de língua partilhada. Hoje sei que muito do que sou ficou guardado nessas palavras dela — dito por mor de carinho, por mor de memória, por mor de tudo o que nos fez ser quem somos.

Porque só muitos anos mais tarde comecei a perceber que aquelas palavras não eram defeitos. Eram vestígios vivos de uma herança linguística antiga, ligada ao português do Norte, ao galego-português medieval, às formas populares preservadas muito antes das uniformizações da escola, das reformas ortográficas e da linguagem padronizada dos meios de comunicação.

Percebi então que, se havia um problema, talvez não fosse ela quem o tinha.

Era eu.

Eu é que aprendera, sem me dar conta, que falar "bem" significava afastar-me da musicalidade natural da minha própria terra. Eu é que começara a trocar espontaneidade por correção, oralidade por norma, identidade por adaptação.

No Norte sobrevivem sons que muitos consideram simples regionalismos, mas que são, na verdade, fósseis vivos de um português mais antigo. O "entom", o "coraçom", o "bida", o "pobo", o "abô", o "cousa" — grafias e pronúncias que ecoam diretamente o galego-português medieval, preservadas nas margens do Douro e do Minho enquanto o Sul, moldado por séculos de presença árabe e pela antiga língua moçárabe, evoluía noutro sentido.

No Sul, a história foi outra. Antes da Reconquista, a língua das populações cristãs era o moçárabe — um latim popular profundamente marcado pela fonética e pelo léxico árabe. Quando o reino avançou para sul, levou consigo o galego‑português do Noroeste, que se impôs como língua de administração e prestígio. Mas absorveu palavras, sons e ritmos moçárabes, criando um português meridional diferente daquele que se falava no Norte.

Com Lisboa como capital, foi do Sul que passaram a vir as decisões — políticas, culturais e linguísticas. A norma escrita, sobretudo após a Reforma Ortográfica de 1911, consolidou-se a partir do português lisboeta, impondo grafias que nem sempre refletiam a diversidade real do país. O til, por exemplo, substituiu na escrita o antigo "om" e "õo", mas não apagou da fala esses sons: no Norte, e muito em particular no Porto, continuaram vivos, teimosos, resistentes, como se a língua recusasse abandonar a sua memória.

Talvez seja por isso que sempre senti uma estranha proximidade quando ouço certos galegos que teimam em falar contra a corrente, preservando um galego menos castelhanizado, mais próximo das raízes. Há ali uma música que reconheço sem ter aprendido, como se a voz da minha mãe atravessasse a fronteira e regressasse a mim com outro sotaque, mas a mesma alma.

Há cerca de dez anos vivi um episódio que ainda hoje me comove pela força com que me apanhou. Duas jovens conversavam perto de mim e, de repente, senti-me transportado para a cozinha da minha infância: era como ouvir a voz da minha mãe. A mesma cadência, a mesma pronúncia, a mesma doçura firme da fala nortenha. Espantou-me — nunca imaginei que em pleno 2016 pudesse encontrar alguém a falar tal qual como ela, e muito menos jovens de vinte anos. Não resisti e perguntei-lhes de onde eram. Disseram-me ser das Termas de São Vicente, a apenas onze quilómetros de Lagares, onde a minha mãe nasceu. E, numa coincidência quase poética, também a onze quilómetros de Lagares fica uma povoação chamada "Galegos", todos pertencentes ao concelho de Penafiel, no Distrito do Porto. Tive de lhes explicar o motivo da minha pergunta: que a minha falecida mãe era natural de Lagares e que, por instantes, a voz delas me devolvera a dela. Nunca mais esqueci. Nesse momento percebi que certas vozes não desaparecem: apenas mudam de geração.
 
"Corrigir palavras é fácil; compreender de onde elas vêm é que é crescer." — Isolino Prata

A Galiza vive há muito tempo um conflito linguístico semelhante. Durante décadas, muitos galegos cresceram a sentir que a língua da escola, da administração e do prestígio social era o castelhano, enquanto o galego ficava associado ao mundo rural, às aldeias, aos mais velhos e à oralidade popular. Muitos suavizaram o sotaque, esconderam palavras ou adaptaram a fala para evitar preconceitos sociais. Outros resistiram. E há ainda quem lute para preservar a ligação histórica entre o galego e o português, lembrando que ambos nasceram do mesmo tronco galaico-português.

Talvez seja por isso que este tema me toca tanto.

Porque percebo agora que a língua não é apenas uma ferramenta para comunicar. É também memória, território, identidade e pertença.

Durante décadas, muitos portugueses do Norte cresceram a traduzir-se a si próprios. Em casa falava-se de uma maneira. Na escola aprendia-se outra. E, sem percebermos bem como, começávamos a vigiar as palavras dos nossos pais e avós como se a língua deles precisasse de conserto.

Hoje olho para trás e penso que a minha mãe não falava mal.

A voz dela apenas continuava a morar em Penafiel, mesmo vivendo no Porto.

E talvez crescer seja isto: descobrir tarde demais que certas palavras que tentámos corrigir eram, afinal, uma forma de amor, de origem e de memória.

E contudo, dentro de mim, persiste um fluir antigo da pronúncia do Porto — uma corrente teimosa que resiste, como se a minha própria voz ainda morasse onde a dela nasceu.
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Nota do Autor

Este texto nasce na continuidade de um pequeno universo que tenho vindo a construir, onde a oralidade do Norte e a sonoridade galega se cruzam com humor, memória e identidade. Em trabalhos anteriores — como a criação ficcionada do Light Hands Force e da também ficcionada entrevista ao "conceituado carteirista português Dedo Mindinho" que partilha técnicas com colegas galegos — explorei essa cumplicidade linguística que atravessa fronteiras e séculos.

A reflexão presente aqui prolonga essa mesma ideia: a de que a língua não é apenas um instrumento, mas um território afetivo onde cabem as vozes da infância, os sotaques que resistem e as heranças que recusam desaparecer. O que escrevo sobre a minha mãe, sobre o Porto e sobre a Galiza é, por isso, parte de uma mesma viagem — uma tentativa de ouvir, com mais atenção, aquilo que durante anos tentei corrigir.

E, por falar em pronúncia, não posso deixar de mencionar uma das maiores obras-primas humorísticas sobre o falar do Porto: os pequenos sketches do Herman José e da sua equipa, onde brilham expressões como "carago!", "Este homem é um senhore" e aquele irresistível hábito de trocar vês por bês e dizer "om" em vez de "ão". O mais delicioso é que nenhum deles é do Porto — e, ainda assim, conseguem recriar a nossa fala com uma precisão e um exagero tão certeiros que até um portuense como eu duvida que portuenses o fizessem tão bem.

Dei-me até ao "trabalho" de reunir todos os vídeos dispersos pelo YouTube numa só compilação, que acabou por ter mais visualizações do que todos os originais juntos. Eis o link, por mor de riso e identidade.

E, por mor de tudo isto, deixo aqui uma pequena homenagem sonora que diz mais do que muitas páginas: "É a Pronúncia do Norte", dos GNR — banda do Porto que sempre soube transformar sotaque em identidade e música em território afetivo.

Recentemente, vários artistas portugueses juntaram-se para reinterpretar este tema emblemático, numa celebração bonita da fala que resiste, da cidade que molda e da memória que nunca se perde.

Rádio Comercial | Pronúncia do Norte - Homenagem GNR"

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