Quando Se Colocar em Primeiro Lugar É Ato Político
Escrita terapêutica e o peso invisível que recai sobre as mulheres
Priorizar-se não é egoísmo, é sobrevivência.
"Uma mulher exausta não muda o mundo — apenas resiste a ele."
Alba Fraga Bittencourt
Por: Luciana Palhares*
O trabalho "invisível" que as mulheres realizam gratuitamente na sociedade como mães, filhas e irmãs libera os homens para suas ambições pessoais. Se não preciso lavar, passar, limpar, cozinhar, alimentar e dar suporte emocional a ninguém, tenho todo o meu tempo para desenvolver meus interesses, explorar meu potencial. Para ter todo esse trabalho feito gratuitamente, nos ensinam desde cedo que assim deve ser: primeiro os outros, depois nós mesmas.
Para garantir que isso se sustente, nos chamam de egoístas e nos treinam a nos encolher, a ver as outras mulheres como competição. Uma mulher que se prioriza, que cultiva amor próprio, é vista como ameaça a um sistema que lucra com a exaustão feminina. No campo íntimo, a guerra dos sexos é a versão luta de classes da vida pública. Desconhecemos igualdade nas relações, cooperação e interdependência.
O amor romântico nos é vendido como legitimação feminina. Desde cedo nos ensinam que a aprovação masculina é essencial. Assim, carentes e famintas emocionalmente, aceitamos migalhas e sacrifícios acreditando que é normal. Se só existimos quando alguém nos dá atenção, precisamos de alguém, qualquer alguém. Nessa dinâmica, amar é desaparecer. Assim faziam nossas mães e avós. Nos falta educação para o amor próprio.
Amar é conhecer. Amar-se é conhecer-se. Muitas mulheres encontram na escrita um caminho para esse encontro. Escrever sobre si é sobrevivência psíquica. Às vezes ao reler o que escrevemos, dói. É difícil constatar nossos abandonos, primeiro de terceiros e depois o de nós mesmas. Ver tudo não é fácil, mas não podemos ignorar o que está visto. No espaço seguro das páginas, podemos deixar fluir pensamentos e emoções. É uma forma de voltar para si, de ver com os próprios olhos. Manter um diário é guardar referências de si mesma. Escreva agora e retorne em dias ou semanas para conhecer a mulher que você é quando ninguém está olhando.
Ignorar a vida interior enquanto se busca mudanças externas é tiro no pé. O feminismo conquistou direitos civis, mas ignorou a dimensão psíquica. Assumimos dupla jornada, dentro e fora de casa, e também o labor emocional, mantendo a homeostase dos grupos. Essa conta não fecha. Um copo vazio não pode encher outro. Uma mulher exausta, faminta, não explora potencialidades, apenas sobrevive.
Amar a si mesma é ato político! Quem se ama não se deixa oprimir, não se deixa calar. Não se trata de enfrentamento, mas de estratégia: escolher batalhas, despedir-se de espaços onde não cabemos e de pessoas sem escuta. Calar alar onde antes se brigava, aceitar ser incompreendida, escolher a solidão se não houver quem acrescente. Saber o que estamos fazendo, mas não desgastar energia nos explicando.
Priorizar a si mesma é uma revolução silenciosa e persistente. Primeiro a sua máscara de oxigênio. Priorize suas saúdes, seu descanso. Cuidar de si não é egoísmo, é inteligência. Como nutrir alguém se você está morta de fome? Publicar, escrever, ocupar espaços é afirmar a própria existência. Muitas mulheres se esconderam por anos; agora querem ser vistas, lidas, ouvidas. Priorizar-se é a revolução que implementamos como quem não quer nada, sem discursos, nem panfletos. Uma revolução silenciosa e persistente.
*Luciana Palhares é escritora, atriz e terapeuta holística luso-brasileira, autora de "Pequenas Verdades e Outras Histórias" (2022) e "Para Entender Uma História de Amor" (2025). Finalista do Prêmio MicroConto de Ouro (2023) e integrante da Coletânea de Cronistas Contemporâneos (2024), prepara o livro "A Vida Não Sabe de Pontos Finais". Criadora do projeto Escrita Íntima, oferece mentorias de escrita terapêutica. Para ela, escrever é refúgio, sobrevivência e reinvenção.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
No Dia Internacional da Mulher, este texto convida a uma reflexão sem filtros sobre o trabalho invisível, a sobrecarga emocional e a urgência de cada mulher se reconhecer como prioridade. Uma leitura necessária, incómoda e transformadora.
Quando Se Colocar em Primeiro Lugar É Ato Político
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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