Quando a validação emocional vence a verificação racional
Nunca se produziu tanto conteúdo. Nunca foi tão difícil encontrar conteúdo que valha a pena.
Por: Armindo Guimarães
As redes sociais já não são o que eram — e não é nostalgia barata, é constatação. Plataformas que nasceram para aproximar pessoas transformaram-se em arenas onde a visibilidade vale mais do que a verdade. A lógica deixou de ser "informar" ou "partilhar experiências" e passou a ser "reter atenção". E atenção, hoje, é moeda forte.
No Facebook, por exemplo, a proliferação dos chamados "Criadores de Conteúdos Digitais" trouxe uma profissionalização aparente. O nome soa respeitável, quase institucional. Mas, na prática, abriu a porta a uma avalanche de publicações sensacionalistas, títulos enganadores e conteúdos fabricados para gerar reação — não reflexão. Encontrar um post sério, fundamentado e honesto tornou-se exceção. Quando surge, quase dá vontade de aplaudir publicamente. E há quem o faça.
O problema, porém, não é exclusivo de uma plataforma. O YouTube, apesar de estar ligado a uma empresa conhecida pelo rigor tecnológico, também revela sinais de desgaste. Vídeos com títulos manipuladores, miniaturas exageradas e informações distorcidas multiplicam-se. Não porque a tecnologia falhe, mas porque o modelo de negócio recompensa o impacto imediato. O algoritmo não distingue indignação legítima de indignação fabricada — mede cliques, tempo de visualização e interação. O resto é detalhe.
Aqui entra um fenómeno preocupante: nas redes sociais, a validação emocional chega antes da verificação racional. Se uma frase confirma aquilo em que já acreditamos, o dedo dispara antes do cérebro pedir provas. E o algoritmo agradece — porque polémica gera cliques, e cliques geram lucro.
Importa sublinhar que a maioria das pessoas não partilha desinformação por malícia. Partilha por impulso, por identificação, por pertença a um grupo, por revolta momentânea. O gesto é rápido; as consequências, nem sempre. Cada partilha acrescenta uma camada de credibilidade aparente a algo que pode ter começado num rumor obscuro, num site duvidoso ou num vídeo retirado do contexto.
O que antes era o tradicional "ouvi dizer" da esquina do café, hoje circula à velocidade da fibra ótica. Ganha edição cuidada, música dramática, gráficos impressionantes — e milhões de visualizações. A repetição constante cria a ilusão de verdade. E quando muitos repetem, poucos questionam.
Não estamos apenas perante um problema tecnológico. Estamos diante de um desafio cultural. A literacia digital tornou-se tão essencial quanto saber ler e escrever. Saber distinguir opinião de facto, interpretação de dado, emoção de evidência, é competência básica num mundo hiperconectado.
A responsabilidade não pode ser delegada apenas às plataformas. Elas operam segundo incentivos económicos claros. A questão é mais profunda: como sociedade, estamos dispostos a valorizar a qualidade acima da viralidade? Estamos dispostos a abrandar o dedo antes de clicar em "partilhar"?
Porque, no fundo, partilhar algo duvidoso como se fosse verdade é pólvora social. Pode parecer inofensivo no momento, mas alimenta um ambiente onde a confiança se deteriora, o debate se radicaliza e a realidade se fragmenta em versões concorrentes.
Talvez o verdadeiro ato revolucionário, hoje, não seja publicar mais — mas verificar melhor. Não seja reagir mais depressa — mas pensar antes. Num tempo em que todos podem falar, a diferença está em quem escolhe falar com responsabilidade.
E isso, ao contrário do algoritmo, ainda depende de nós.
Nota do Editor - Portal Splish Splash Num tempo em que a informação circula à velocidade da luz e a desinformação à velocidade da emoção, torna-se urgente recuperar o sentido crítico. Este texto não pretende apontar dedos, mas despertar consciências. Se cada leitor refletir antes de partilhar, já estaremos a contribuir para um espaço digital mais saudável, mais responsável e mais digno da confiança coletiva.
Quando a validação emocional vence a verificação racional
Nunca se produziu tanto conteúdo. Nunca foi tão difícil encontrar conteúdo que valha a pena.Por: Armindo Guimarães
No Facebook, por exemplo, a proliferação dos chamados "Criadores de Conteúdos Digitais" trouxe uma profissionalização aparente. O nome soa respeitável, quase institucional. Mas, na prática, abriu a porta a uma avalanche de publicações sensacionalistas, títulos enganadores e conteúdos fabricados para gerar reação — não reflexão. Encontrar um post sério, fundamentado e honesto tornou-se exceção. Quando surge, quase dá vontade de aplaudir publicamente. E há quem o faça.
O problema, porém, não é exclusivo de uma plataforma. O YouTube, apesar de estar ligado a uma empresa conhecida pelo rigor tecnológico, também revela sinais de desgaste. Vídeos com títulos manipuladores, miniaturas exageradas e informações distorcidas multiplicam-se. Não porque a tecnologia falhe, mas porque o modelo de negócio recompensa o impacto imediato. O algoritmo não distingue indignação legítima de indignação fabricada — mede cliques, tempo de visualização e interação. O resto é detalhe.
Aqui entra um fenómeno preocupante: nas redes sociais, a validação emocional chega antes da verificação racional. Se uma frase confirma aquilo em que já acreditamos, o dedo dispara antes do cérebro pedir provas. E o algoritmo agradece — porque polémica gera cliques, e cliques geram lucro.
Importa sublinhar que a maioria das pessoas não partilha desinformação por malícia. Partilha por impulso, por identificação, por pertença a um grupo, por revolta momentânea. O gesto é rápido; as consequências, nem sempre. Cada partilha acrescenta uma camada de credibilidade aparente a algo que pode ter começado num rumor obscuro, num site duvidoso ou num vídeo retirado do contexto.
O que antes era o tradicional "ouvi dizer" da esquina do café, hoje circula à velocidade da fibra ótica. Ganha edição cuidada, música dramática, gráficos impressionantes — e milhões de visualizações. A repetição constante cria a ilusão de verdade. E quando muitos repetem, poucos questionam.
Não estamos apenas perante um problema tecnológico. Estamos diante de um desafio cultural. A literacia digital tornou-se tão essencial quanto saber ler e escrever. Saber distinguir opinião de facto, interpretação de dado, emoção de evidência, é competência básica num mundo hiperconectado.
A responsabilidade não pode ser delegada apenas às plataformas. Elas operam segundo incentivos económicos claros. A questão é mais profunda: como sociedade, estamos dispostos a valorizar a qualidade acima da viralidade? Estamos dispostos a abrandar o dedo antes de clicar em "partilhar"?
Porque, no fundo, partilhar algo duvidoso como se fosse verdade é pólvora social. Pode parecer inofensivo no momento, mas alimenta um ambiente onde a confiança se deteriora, o debate se radicaliza e a realidade se fragmenta em versões concorrentes.
Talvez o verdadeiro ato revolucionário, hoje, não seja publicar mais — mas verificar melhor. Não seja reagir mais depressa — mas pensar antes. Num tempo em que todos podem falar, a diferença está em quem escolhe falar com responsabilidade.
E isso, ao contrário do algoritmo, ainda depende de nós.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num tempo em que a informação circula à velocidade da luz e a desinformação à velocidade da emoção, torna-se urgente recuperar o sentido crítico. Este texto não pretende apontar dedos, mas despertar consciências. Se cada leitor refletir antes de partilhar, já estaremos a contribuir para um espaço digital mais saudável, mais responsável e mais digno da confiança coletiva.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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