O Misterioso Caso do Passeante da Rua de Santa Catarina

Um homem de 1923 surge misteriosamente na Rua de Santa Catarina, no Porto, desencadeando um enigma temporal investigado pelo agente Isolino Prata...
Homem de época parado na Rua de Santa Catarina, no Porto, em ambiente noturno misterioso.
 

O enigma temporal que assombrou a Rua de Santa Catarina e mudou para sempre a rotina policial do Porto

Atravessar uma rua pode ser apenas rotina — ou um salto impossível no tempo

"Quando o passado irrompe pelo presente, a cidade deixa de ser apenas cenário."
Vímara Porto
 
Por: Armindo Guimarães


O agente Isolino Prata, da Esquadra da baixa do Porto, conhecia cada pedra da Rua de Santa Catarina. Conhecia o sussurro dos azulejos da Capela das Almas ao amanhecer, o cheiro a café, os turistas deambulando pelo mercado do Bolhão, de copo de vinho na mão, ora numa banca de petiscos, ora numa loja de artesanato, alheios ao ritmo errático do exterior. Mas naquele fim de tarde de domingo, o ritmo parou no tempo.

As chamadas para o 112 foram confusas. "Um ator no meio da rua, vestido a rigor!", dissera uma voz. "Parece desorientado, a tremer!", corrigira outra. Quando o agente Prata e a sua parceira, a agente Leonor, abriram caminho pela massa de gente junto à Capela, já só viram o desfecho.

O homem estava parado no exato centro do cruzamento, como uma ilha de silêncio num mar de ruído, no coração comercial do Porto, entre a Rua de Santa Catarina e a Rua de Fernandes Tómas, a escassos metros do carro das castanhas assadas, cujo fumo pairava no ar, qual nevoeiro sebastianista que se fazia substituir à neblina sui generis da Invicta cidade. Não era uma figura de um desfile histórico. Era um anacronismo em corpo e alma. Trazia um chapéu de coco, um fraque preto de corte antiquado, e calças claras que terminavam acima dos tornozelos. O seu rosto, iluminado pelas luzes ainda ténues dos candeeiros a quererem abraçar timidamente aquele final de tarde, estava congelado num êxtase de horror. Os seus olhos, enormes, saltavam dos autocarros turísticos de dois andares para os ecrãs de telemóveis, das luzes piscantes dos tuk-tuks para as roupas casuais da multidão. Parecia não respirar.

O agente avançou, gritando "Polícia, afastem-se!". O som da sua voz, amplificada pelo caos, pareceu atuar como um gatilho. O homem estremeceu, viu o uniforme, e o seu pânico transformou-se em fuga cega. Deu meia-volta e atirou-se para a passadeira, ignorando o sinal vermelho. Um tuk-tuk elétrico, silencioso como uma aranha, surgiu da direita da Rua de Fernandes Tomás. O impacto foi um baque seco e terrível. Não houve sequer tempo para um grito.

No Instituto de Medicina Legal, sob a luz clínica, os objetos do homem foram dispostos em cima de uma mesa de aço. Era um inventário de outro mundo:

Um maço de cigarros "Monte Carlo", quase cheio e em perfeito estado de conservação;

Uma caixa de fósforos "Quinas", contendo 6 fósforos;

Uma nota de 5 escudos com a efígie de Alexandre Herculano, sem vincos, manchas ou desgaste do tempo;

Uma moeda de um escudo de prata, cunhada em 1918 e com a efígie da República, completamente nova, como se tivesse acabado de sair do Banco de Portugal;

Um recibo manuscrito, em papel já quebradiço: "Recebi do Sr. Rodolfo Valadares a quantia de 60 cêntimos, referente a uma carga de lenha de pinho para o inverno. Porto, 12 de Junho de 1923. Assinado: Carvalho & Irmão, Armazéns de Madeira, Rua do Almada, 27";

Um cartão de visita simples, com a seguinte impressão: Rodolfo Valadares. Comissário de Comércio. Rua de Santo Ildefonso, n.º 112, 2º.

Um bilhete de elétrico da cidade do Porto, usado, com a data carimbada de forma indelével: 17 de Junho de 1923.

E, finalmente, o objeto que paralisou Isolino: um relógio de bolso em prata. O mecanismo trabalhava com um tiquetaque vigoroso. Mas o mostrador marcava exatamente nove e vinte e dois. Prata olhou para o próprio pulso: o seu relógio digital marcava 22:22, do dia 17 de junho de 2023. — "Está atrasado uma hora certa", comentou a agente Leonor. Isolino não respondeu. Naquele momento, ele ainda não sabia que em 1923 Portugal não usava horário de verão. Para aquele relógio, o tempo não saltara para a frente; seguia fiel ao sol de há um século atrás.

A agente Leonor cruzou os braços. "Isto é uma montagem. Uma coisa para a internet. No Facebook é o pão nosso de cada dia, ao ponto de já ninguém saber onde está a verdade, tudo com o beneplácito da rede"

O seu colega Prata preferiu não comentar. O arrepio que sentira na Rua de Santa Catarina transformara-se num frio denso nos ossos. A morada da Rua de Santo Ildefonso levou-os a um prédio antigo, agora dividido em apartamentos para estudantes. Ninguém conhecia o nome Rodolfo Valadares. As impressões digitais do homem morto não existiam em base de dados alguma.

Foi a persistência teimosa do agente Isolino Prata que o levou aos arquivos. Nas páginas amarelecidas do Jornal de Notícias digitalizado, no final de junho de 1923, encontrou uma nota discreta:

"Continua envolto em mistério o desaparecimento do Sr. Rodolfo Valadares, 23 anos. Saiu para o seu passeio domingueiro ao fim da tarde do dia 17 e nunca mais foi visto. A família, desolada, agradece qualquer informação à administração deste jornal."

A data era a mesma do bilhete de eléctrico.

A busca por descendentes foi um trabalho de paciência. Isolino Prata, portuense de gema, não desistiu. Encontrou, numa velha lista telefónica de 1975, um Eng.º Ricardo Valadares, com morada na Foz. O engenheiro já falecera, mas a sua viúva, D. Maria da Glória, de 92 anos, residia num apartamento com vista para o mar.

Sentado na sua sala repleta de fotografias de família e cheiro a cera de mobília antiga, o agente Prata mostrou-lhe o cartão de visita. Os olhos claros da idosa perderam-se por um momento, depois focaram-se com uma clareza súbita.

"Valadares… Sim. O Segredo da família do meu Ricardo." A voz era fina mas firme.
"Segredo?"

"O avô dele. O Rodolfo. Desapareceu. Diziam que era um homem de hábitos, gostava de dar a sua volta ao domingo, desde a Sé até à Cordoaria, para ver a gente e fumar o seu cigarro. Um dia, foi e não voltou. A minha sogra contava que a avó dele, coitada, nunca aceitou. Gastou a herança toda com polícias e até com uma vidente de Gaia. Nada. Nem um corpo, nem um motivo. Como se o rio Douro o tivesse levado sem deixar ondulação."

Com mão trémula, o agente Prata mostrou-lhe uma fotografia do fato. D. Maria da Glória pegou numa lupa, estudando a foto. Depois, sem dizer uma palavra, apontou para um grande retrato a óleo na parede. Era de um homem jovem, de bigode cuidadoso, trajando um fato claro, sentado numa poltrona de couro.

"É ele. É o mesmo rosto. A mesma… maneira de estar. Meu Deus, agente. Como é possível? Ele teria…"

Isolino Prata não tinha resposta. A pergunta ficou suspensa no ar, pesada como a humidade do rio.

O relatório oficial ficaria para sempre arquivado como "Homem não identificado. Morte acidental. Objectos pessoais, de natureza indeterminada (possivelmente réplicas ou pertences de colecionador). Caso encerrado."

Mas Isolino Prata sabe. Agora, quando faz a sua ronda noturna e passa em frente à Capela das Almas — à mesma capela onde, disseram-lhe, ele próprio chorou durante o seu baptizado —, faz sempre uma pausa.

Olha para os azulejos que contam a vida de Santa Catarina. Vê o anjo a sussurrar-lhe ao ouvido, eternamente. E, por um instante, imagina não um anjo, mas um estalido no ar, uma rasgão no tecido do dia-a-dia. Vê um homem de 1923, com o cheiro a lenha de pinho ainda na memória, a dobrar a esquina da Rua de Santo Ildefonso para o seu passeio domingueiro… e a dar um passo que o leva directamente para o frenesim de 2023, em frente aos azulejos azuis que testemunharam o seu próprio começo.

O Viajante involuntário. Arrancado do seu tempo para ser esmagado pelo futuro, a poucos metros de um lugar sagrado.

E Isolino Prata pergunta-se se os lugares que marcam a nossa vida — os locais de nascimento, de baptizado, de amor — não funcionam como faróis no nevoeiro do tempo. Quantas outras falhas existirão, escondidas nas esquinas da sua cidade? Quantas pessoas estão, neste preciso momento, perdidas no tempo, sem nunca terem deixado de estar… simplesmente desaparecidas?

Posfácio do Autor
Há histórias que escolhem o seu narrador antes mesmo de serem escritas. O agente Isolino Prata nasceu da ficção, mas carrega em si um reflexo meu: vivi na Rua de Santa Catarina e fui baptizado na Capela das Almas, lugares que moldaram o meu olhar sobre a cidade e que, de alguma forma, continuam a acompanhar-me. Talvez por isso, ao escrever esta narrativa, senti que não estava a inventar — estava a reconhecer. 
Reconhecer a luz dos azulejos, o murmúrio das ruas, o peso das memórias que ficam gravadas nos lugares onde crescemos.
A ficção, como escreveu Jassamyn West, "revela verdades que a realidade omite". E, por vezes, essas verdades não são factos, mas sensações: a impressão de que o tempo hesita, de que certas esquinas guardam segredos, de que há passos antigos que ainda ecoam no presente. Este conto é, assim, menos um exercício de imaginação e mais um reencontro com aquilo que a cidade me ensinou — que o passado nunca desaparece por completo. Apenas espera ser reconhecido. 
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