O que se espera da mulher no trabalho?

Como as expectativas desiguais e a violência psicológica no trabalho afetam a saúde mental das mulheres e levam ao burnout. Análise de Renata Seldin.
Cartaz alusivo à mulher no mercado de trabalho.

Para além da produtividade, o peso do silêncio e das microagressões no ambiente laboral


A violência no trabalho não é só assédio, é a promoção que não vem e o salário que é menor

Por: Renata Seldin*

O que se espera de um colaborador? Ser pontual, entregar mais do que esperado, vestir a camisa. E se for uma colaboradora mulher? Acrescente à lista: vestir-se de forma “adequada”, “ser forte” e encarar as coisas “como um homem”. Não se ausentar em períodos de forte crise menstrual. Fazer vista grossa para alguns comentários e comportamentos inadequados.

Em muitos ambientes, é isso que se espera das mulheres: que deixem parte de quem são na porta e entrem descomplicadas, neutras, produtivas e que não criem problemas. É justamente desse padrão de exigência e silêncio que nasce boa parte da violência que mulheres enfrentam no trabalho.

Essa violência não é só o assédio ou o comentário inadequado. Às vezes, é a reunião em que se tenta falar e não consegue. O chefe que sabe exatamente como desestabilizar. O olhar que diminui. A promoção que não vem. O salário menor do que o do colega.

Para quem já precisou sobreviver a outros medos, dentro e fora da vida profissional, cada microagressão desperta gatilhos que não desligam tão facilmente. E é aí que a violência se encontra com o burnout. Pesquisas recentes mostram que trabalhadores expostos à violência psicológica têm risco significativamente maior de desenvolver a síndrome. Não é difícil entender o porquê. Quando o corpo aprende a sobreviver, ele não sabe mais relaxar, a mente se acostuma a mapear perigos, o ambiente reforça a sensação de desproteção, a exaustão deixa de ser fase e vira modo de existência.

No dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, costuma-se falar das agressões mais explícitas. Mas é preciso lembrar que muitas mulheres adoecem silenciosamente dentro de empresas que não reconhecem a violência que se infiltra nas entrelinhas, seja moral, emocional, institucional ou estrutural.

Falar sobre isso é importante porque o ambiente de trabalho continua sendo um dos espaços onde a violência contra mulheres se reproduz com maior sutileza e menor responsabilização. Reconhecer isso não é fragilidade. É responsabilidade corporativa. Ao lembrar que violência também se mede em interrupções, em silenciamentos, em pequenas erosões diárias da nossa voz, pode-se construir ambientes seguros, lutando por dignidade, autonomia e futuro.

No 25/11 e em todos os outros dias, abordar esse tema é um convite para que profissionais mulheres possam existir inteiras, sem precisar esconder os traumas e viver no silêncio. Para que o trabalho deixe de ser mais um território de sobrevivência e possa, finalmente, ser um espaço de vida.

*Renata Seldin é doutora em Gestão da Inovação, com mais de 24 anos de experiência como executiva em consultoria de gestão. Autora de “As perdas no caminho: em busca de uma família”, ministra palestra sobre temas relacionados à igualdade de gênero no ambiente de trabalho e ao planejamento familiar.

Nota do Editor - Portal Splish Splash:
Este texto vai ao cerne de uma realidade frequentemente invisibilizada. A violência no trabalho contra as mulheres raramente começa com um episódio extremo; constrói-se no dia a dia, no desgaste silencioso de quem é constantemente interrompida, subestimada ou forçada a anular-se. Reconhecer estas microagressões como uma forma de violência é o primeiro passo fundamental para criar culturas organizacionais verdadeiramente saudáveis e produtivas, onde todas as pessoas possam contribuir com o seu melhor. A luta pela igualdade passa, inevitavelmente, por desmantelar estas estruturas. 
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