Mostra especial sobre a vida e obra de Paulo Leminski completa 10 anos de itinerância em 2022

Do Texto: Se existe uma palavra na língua portuguesa que define Paulo Leminski é múltiplo.

Imagem da Mostra Múltiplo na Casa da América Latina, em Lisboa e foto de Paulo Leminski

Este ano a Múltiplo Leminski chega a Porto Alegre

Se existe uma palavra na língua portuguesa que define Paulo Leminski é múltiplo. Com um processo criativo único, Leminski se revelou um escritor prolífico, versátil e multitalento. De fato, a sua produção compreende vários gêneros literários, da poesia à prosa experimental, da crítica literária à tradução, da criação publicitária à composição musical. Traduzir tudo isso em uma exposição é uma missão que é cumprida desde 2012 pela mostra Múltiplo Leminski. Após passar por 12 cidades brasileiras e pela Casa da América Latina, de Lisboa (Portugal), a exposição ganha uma edição de 10 anos neste mês de outubro em Porto Alegre, no Centro Cultural da UFRGS e em novembro chega a Roma, no Instituto Guimarães Rosa. Um momento especial para um autor que vem sendo redescoberto por novas gerações de leitores. 

Conheça mais a mostra: www.mutiploleminski.com.br

A multiplicidade é contemplada e pode ser contemplada por quem o conheceu bem, por quem o conheceu um pouco, por quem o acha que conheceu, por aqueles que não tiveram essa oportunidade e agora têm", avalia Alice Ruiz, poeta e  compositora. Companheira de Leminski, ela divide com as filhas do casal, Aurea e Estrela a curadoria da exposição. A seleção dos materiais originais e a proposta expositiva da mostra têm sido revisadas e modificadas a cada montagem, adaptando-se às características do espaço.

Esse caráter metamórfico da Múltiplo Leminski foi algo que surgiu desde a primeira edição, em 2012.  “A exposição surgiu com o convite do Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, para realizar uma mostra no Salão do Olho. Como tínhamos um espaço expositivo de mais de mil metros quadrados foi possível revelar todas as áreas em que Leminski atuou e seu processo de criação”, conta Aurea Leminski. “A ideia era fazer uma exposição completa, abrangendo todas as suas atuações, com o intuito de desmistificar e elucidar vida e obra. Para dar a sensação de mergulhar na cabeça de um criador: o vasto repertório como letrista e compositor, recortes específicos das facetas como jornalista, publicitário e crítico por meio de originais (manuscritos e datilografados), entrevistas, cartas, documentos pessoais, crônicas de jornais, fotografias e vídeos”, completa.

Desde 2012, a exposição já foi vista por mais de 700 mil pessoas, quebrando recordes por onde passou no Brasil: Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer (MON); Foz do Iguaçu, no Ecomuseu de Itaipu; Goiânia, no Centro Cultural Oscar Niemeyer; Recife, na Torre Malakoff; e nas unidades da Caixa Cultural em Salvador, São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro. Passou também por cidades-polo paranaenses como Maringá (Teatro Calil Haddad), Londrina (Museu Histórico), Ponta Grossa (Museu Campos Gerais) e Cascavel (Museu de Arte de Cascavel). No ano passado, a exposição cruzou o Atlântico pela primeira vez e chegou a Lisboa, onde permaneceu por dois meses. Em novembro, será montada em Roma, na Itália, no Instituto Guimarães Rosa.

A exposição oferece sempre um olhar exclusivo com atividades paralelas como mostra de filmes, palestras, visitas guiadas com as curadoras e ações educativas, além de intervenções e grafitti. 

“A ideia do meu pai sempre foi usar todos os suportes possíveis para propagar a poesia dele. Quando realizamos oficinas, visitas guiadas, shows, e arte de rua é para impactar todos os públicos, de todas as idades. Por onde passa, a exposição envolve a cidade”, conta Estrela Ruiz Leminski.

Estrela lançou em 2014 o álbum “Leminskanções”, uma releitura de canções do pai e já levou o respectivo show para a mostra itinerante em várias cidades, com participações especiais de grandes nomes da MPB, como Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Moraes Moreira, José Miguel Wisnik, Carlos Careqa, Marinho Galera, entre outros.

Arnaldo Antunes se impressionou com o que viu na “Múltiplo Leminski”: “A exposição revela pontes subterrâneas entre a pessoa íntima e a figura pública de um artista que tentava fazer de vida e obra uma coisa só. As amizades e os estudos, as canções e as parcerias, os grafittis e o judô, as traduções e os ensaios, o zen e a Grécia antiga, a cultura e a contracultura, os cadernos de rascunho, as fotos, os vídeos: está tudo lá. Com um capricho (e também relaxo, é claro) que só Alice, Aurea e Estrela seriam capazes de dedicar. Um presente genuíno para quem curte a obra de Paulo. Mais ainda pra quem, como eu, o conheceu e tem saudade dele. É uma iniciação atraente para quem ainda não teve contato com o trabalho desse incrível poeta do nosso e de todos os tempos”

E a cantora e compositora Zélia Duncan também visitou a exposição: “Poucas vezes entrei numa fila tão longa, com essa alegria. Mesmo sendo uma consumidora voraz da obra de Leminski, caminhar pela exposição me trouxe frescor, emoção, diversão, me fez ver o quanto essa obra pode ser descoberta e redescoberta a cada contato com ela. Fora a possibilidade de apresentá-la ao público, que tem mostrado o quanto se interessa, precisa e se identifica com ela”.

Hoje consagrado como um dos nomes mais importantes e vibrantes da literatura brasileira, Leminski nasceu em Curitiba, em 1944, e fez de sua vida uma busca contínua pelo sublime. Seja pela procura religiosa, que despertou precocemente a vontade de ser monge, levando- o a passar parte da juventude em um mosteiro, em São Paulo, seja até na filosofia zen que marcou sua obra, passando pelo minimalismo do dia a dia dos haicais. Esta forma poética japonesa, aliás, teve no autor um de seus grandes divulgadores no Brasil.

Em 1975, começa uma série de lançamentos de trabalhos que se tornaram marcos na literatura brasileira com “Catatau”, em prosa, e os escritos poéticos independentes  “Quarenta clics em Curitiba” (com o fotógrafo Jack Pires), em 1976, e “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase” e “Polonaises”, ambos de 1980. A repercussão destes trabalhos foram base para o inovador “Caprichos e relaxos” (1983). Quatro anos depois, Leminski lança seu último livro em vida, o cultuado “Distraídos venceremos”.

Como tradutor, Leminski trouxe para nossa língua textos de autores plurais como Matsuó Bashô, Beckett, James Joyce e John Lennon. Como compositor, escreveu mais de 100 canções e teve suas composições gravadas por estrelas da MPB como Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Ney Matogrosso, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira. Em 2015, a sua filha Estrela Ruiz Leminski compilou as canções do pai em um songbook, com partituras e cifras que podem ser baixadas de modo gratuito.

Confira uma playlist com faixas icônicas de autoria do poeta: https://spoti.fi/3PIL7Pl 

Baixe o songbook de modo gratuito: http://www.pauloleminski.com.br/songbook/livro-cancoes-paulo-leminski.html 

Em 2013, a carreira de Leminski experimentou um renascimento com o lançamento pela Companhia das Letras da cultuada coletânea “Toda Poesia”, best-seller com a obra poética completa, organizada por Alice Ruiz, que acompanhou toda a produção. Esse trabalho apresentou o autor para toda uma nova geração de leitores. 

Neste ano, o seu trabalho ganha também maior projeção internacional com novas versões que foram publicadas na Itália, Espanha, Argentina e Estados Unidos. 

A trajetória deste singular autor brasileiro pode ser conferida através de uma seleção afetiva de materiais originais que passam por manuscritos, datilografados, cadernos e guardanapos, junto de sua máquina de escrever, até áreas sonorizadas, espaços lúdicos e forte impacto visual, como era de interesse do próprio Leminski.

“O conjunto permite, assim, um passeio intelectual e emocional pela vida de um homem que respirou cultura e expirou originalidade e desassossego”, conta Alice Ruiz. “Leminski respirava poesia, em mesas de bar, no escritório da agência de publicidade, nos jornais, nas conversas e palestras. Respirava poesia até na madrugada, quando saía pelas ruas curitibanas para grafitar versos em muros e paredes”, conta Aurea Leminski.

Já a crítica de arte Maria José Justino dá seu parecer: “Visitando a exposição, revisitamos – aqueles que tiveram a felicidade de conhecer Leminski – o gênio. Quem não conviveu pessoalmente com o artista tem o prazer de conhecer o poeta, de adentrar em um universo leve e denso, feito de linguagem. Linguagem da arte, linguagem da vida. Vimos o pensador, o escritor, o tradutor, o crítico literário, o poeta, o grafiteiro, o músico, o homem. Leminski atuando, lúcido e intuitivo, em múltiplos campos. ‘Múltiplo Leminski’ apresenta o caos organizado. O anarquista que descolonizou o inconsciente e desbloqueou o comportamento. O poeta zen embriagado de metrópole. Leminski gótico e pop, habitante da região selvagem que viveu perigosamente o seu tempo, experimentando os paradoxos”.

Com classificação livre e entrada gratuita, a exposição Múltiplo Leminski abre em 15/10 em Porto Alegre, no Centro Cultural da UFRGS.

Para conhecer mais a obra de Leminski: https://pauloleminski.com.br

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