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11/19/2020

"O cinema brasileiro é como o rabo de uma lagartixa, sempre cresce de novo"

O terceiro dia da 5ª edição da MAX trouxe muitas discussões sobre os desafios enfrentados pelo setor audiovisual hoje no Brasil

A afirmação é do aclamado cineasta Luis Carlos Barreto, que foi destaque nesta quarta na MAX 2020


O terceiro dia da 5ª edição da MAX trouxe muitas discussões sobre os desafios enfrentados pelo setor audiovisual hoje no Brasil. Foram abordados aspectos políticos, econômicos, culturais, sociais e até mesmo históricos, para refletir sobre novas formas de buscar parcerias, fundos de investimento e canais de distribuição para os conteúdos brasileiros.


A MAX 2020 é um evento gratuito, promovido pelo Sebrae Minas, Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) e Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e vai até amanhã (19/11). As inscrições para participar do último dia de palestras ainda podem ser feitas pelo site  www.max2020.com.br.


David Kleeman, da inglesa DUBIT, abriu as apresentações pela manhã, acompanhado do roteirista e game designer Artur Costa, para falar sobre “Visões do conteúdo infantil para além da pandemia”. David apresentou os resultados de uma pesquisa mundial sobre o comportamento das crianças neste período de pandemia, que analisoucomo elas estão usando e consumindo as mídias. De forma geral, o tempo de tela aumentou consideravelmente e houve um enorme crescimento na aquisição de streamings e outras opções caseiras de entretenimento, principalmente no Brasil, o que aumenta a demanda por produções infantis. Por outro lado, esse pode não ser um cenário definitivo, já que o principal desejo dessas crianças, por todo o mundo e das mais variadas culturas, é poder voltar à escola presencialmente e encontrar os amigos.


O painel “Rumos da narrativa ficcional” trouxe uma rica troca de experiências entre o roteirista Gustavo Bragança e a roteirista e script editor Helen Beltrame-Linné, com moderação da jornalista Ana Paula Sousa. Gustavo contou um pouco de seu trabalho e projetos, como a série “Bom Dia Verônica”, e seus processos de criação e destacou que “a maior preocupação é sempre construir muito bem os personagens e tramas para contar bem a história. É preciso ter coerência e força no desenvolvimento da narrativa. Essa é a marca de projetos bem-sucedidos, mesmo que polêmicos”, afirma.


Helen Beltrame-Linné, que participou do projeto “Tropa de Elie 2: O inimigo agora é outro” complementou dizendo que é preciso viabilizar produções que comuniquem realmente o que os responsáveis desejam falar e que sustentem o engajamento dos espectadores. “Roteiros são objetivos políticos e as mesmas histórias são contadas desde a Grécia antiga. O que muda são as ferramentas, a trajetória e o ponto de vista de quem conta. Há espaço para personagens complementares e precisamos refletir muito sobre isso”, destacou a roteirista.


Diferentes pontos de vista

No início dos debates da tarde, o escritor e ambientalista Ailton Krenak conversou com o diretor Marco Altberg, da Indiana. Os dois discutiram novos formatos de documentário em tempos de pandemia e destacaram como algumas ficções se tornaram dolorosamente reais neste momento.


“Pandemia é isso. Ficar isolado querendo fazer as coisas sem poder. Estamos presos a essas telas e isso não é cinema ou audiovisual. A arte está subjugada a este formato estetoscópico do computador e considero isso indecente. Olha o universo criativo que estamos habitando agora? Estamos mesmo é perdidos”, desabafou Krenak.


Outro painel sobre a produção documental trouxe alternativas e ideias para quem deseja ingressar nesse tipo de produção. Estiveram presentes os diretores Pablo Guelli (Salamanca Filmes), Alice Riff (Riff Studio) e Tali Yankelevich, com moderação da jornalista Cris Padiglione. Alice Riff ressaltou que os produtores estão perdendo oportunidades de filmar, neste momento, por falta de financiamento, porém ela enxerga alguns ganhos: “A pandemia também trouxe oportunidades, porque está sendo possível participar de eventos internacionais e fazer negociações com players estrangeiros sem sair de casa, de forma muito mais barata”.


Políticas públicas

As duas últimas apresentações do dia destacaram a questão das políticas públicas para o audiovisual. O sócio-diretor da Solo Filmes, Guilherme Fiuza, conversou com o diretor editorial do Teletime News, Samuel Possebon e detalharam os desafios encontrados pelo setor.


“A verdade é que vivemos um momento inédito. Já passamos por muitos problemas, mas nada como agora. Há uma conjunção de fatores negativos que criaram uma tempestade perfeita. Temos crise administrativa, econômica, política, cultural, estrutural e histórica. Não temos mais um ministério ou mesmo secretarias de cultura estáveis. Estão implodindo o audiovisual por dentro. Será inegável o processo de seleção natural e muitos morrerão pelo caminho. É hora de buscar a revisão do marco legal do audiovisual”, enfatizou Possebon.


Para fechar o dia, o painel “Propostas ao Setor Audiovisual” reuniu quatro participantes, com moderação de Ana Paula Sousa: Julia Nogueira (sócia da Camisa Listrada BH), Mauro Garcia (Presidente Executivo da BRAVI), Vânia Lima (Sócia da TêmDênde Produções) e a presença prestigiada do diretor Luiz Carlos Barreto, um dos maiores nomes do cinema nacional


Barreto tomou a fala e deu uma verdadeira aula de história sobre todos os ciclos do cinema nacional, desde os últimos anos da ditadura, e deixou muito claro que a fase difícil é apenas uma repetição da história do cinema no Brasil, pois, segundo ele, sempre que “estamos no auge, eles vêm para nos derrubar! Mas somos como o rabo de uma lagartixa, que sempre cresce de novo”.


Em seus 92 anos de vida e mais de 60 anos de experiência profissional, Barreto defendeu que a política para o setor não pode ser feita apenas no âmbito nacional, mas dentro de uma perspectiva artística mundial e também industrial


“Não adianta usar curativo contra o câncer de pele. Temos que ter uma eterna vigilância em cima do governo e agentes governamentais. A esquerda brasileira que desmontou o projeto do cinema nacional. Eles destruíram a Ancine. Só temos uma saída: precisamos nos unir de verdade, estudar e ter militância política. Só assim se faz cinema no Brasil e esse é o meu recado”.


Minas Gerais Audiovisual Expo – MAX 2020

De 16 a 19 de novembro - totalmente virtual

www.max2020.com.br 

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