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10/08/2020

CCB Lisboa | DICIONÁRIO DE ARTISTAS textos inéditos de Gonçalo M. Tavares

Dicionário de Artistas  - Gonçalo M. Tavares - CCB Lisboa


Dicionário de Artistas

Gonçalo M. Tavares


A partir de 7 de outubro


Às quartas-feiras, um texto inédito de Gonçalo M. Tavares sobre artistas contemporâneos é disponibilizado nas plataformas digitais do CCB


O texto hoje publicado, em www.ccb.pt, tem o título “Sapatos” e é dedicado a Francis Alÿs.


Está  também disponível em podcast no spotify do CCB e a leitura é de Ana Zanatti.


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Sapatos

dedicado a Francis Alÿs


Quando calçamos os sapatos o mundo perde altura, muda.


Há uma inclinação do dorso das costas que corresponde à postura atenta de um investigador, e uma outra, que parece ganhar ânimo com o tambor distante ou com a proximidade do silêncio, que corresponde à postura do esqueleto de um poeta ou de um príncipe. Duas formas de relacionar a geometria e a anatomia (portanto). Ou te curvas, ou não te curvas.


Os sapatos levam atrás o caminho. Como se o caminho não fosse um elemento indiferente, mas participasse na perseguição, na fuga, na batalha. O espaço tem coisas, não é um mapa, não é um plano estúpido que só recebe; o espaço é uma forma de vigilância, é um volume, uma coisa orgânica.


Tens cidade nos pés, alguém podia dizer.


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A arte contemporânea como ponto de partida; a literatura pega nela e vai indo sem olhar um segundo para trás; calcula-se o vago ponto zero – o nome de um artista, uma obra – mas tudo o que vem a seguir existe nesse texto que começa a pensar pela sua própria cabeça.


Um texto tem cabeça e é com ela que o texto pensa.


Basta um indício visual para a linguagem se pôr a caminho e avançar por veredas estreitas e desvios a pique, subidas e descidas.


Interessa-me isto: a arte que se vê como modo de emitir por trás de si uma linguagem que é necessário extrair do solo da própria obra à força. O olhar de quem escreve faz isso: o que vê transforma-se em palavra, mas há neste começo claro, – as obras de arte contemporâneas – uma potência que conduz o texto por dentro. Sem este começo – a arte contemporânea – não haveria estes textos.


Este Dicionário de Artistas, este Museu, parte de um pormenor, detalhe ínfimo ou centro centralíssimo, da obra de um artista, nunca da biografia, e daí o texto vai para outro local qualquer.


Como um animal que tem fome parte do ninho para um ponto onde pressente o alimento, assim parte o texto à sua vida.


Mas nada de didático ou explicativo, os textos deste Dicionário são seres autónomos que saem à rua livres e bem sozinhos depois da meia-noite.   


Gonçalo M. Tavares

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