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2/04/2020

Marcela Brandão lança o EP Retorno de Saturno


Com perfil versátil, a jovem cantora traz um trabalho político, denso, visceral, mas que flerta livremente com o desejo da paz desejada, embora quase ilusória

Por: Emanuel Andrade

Que o Brasil é o país das cantoras já sabemos, mas o que há de novo nesse panorama da MPB é a safra que tem crescido de compositoras alinhadas com seu tempo, e a modernidade tecnológica que multiplica likes nas redes sociais. Por outro lado, exige talento, justamente daquelas que sabem o valor de se tocar um instrumento e compor uma canção.

O perfil da jovem paulistana Marcela Brandão, 29 anos, é o da versatilidade, já que domina as linguagens nas quais ela trafega com entusiasmo. Formada em gastronomia, também mergulhou na faculdade de Letras, de onde trouxe na bagagem ideias para esboçar os versos de suas canções. Depois fez musicoterapia - uma técnica que trabalha com a saúde ao utilizar formas diversas de aprendizado, expressões e arte.

"Tudo isso começou quando eu tinha 8 anos de idade. Foi a largada ao ganhar meu primeiro violão. A influência inicial foi a música sertaneja do grupo Amigos, nos anos 90. Depois disso, veio a música caipira e os grandes violeiros", conta Marcela, ao pontuar que essa experiência lhe serviu como porta de entrada para a Música Popular Brasileira.

As janelas de outras influências, passaram a lhe mostrar os trilhos da música desde os anos 1960 para cá, com afetividade musical de quem sabe o que toca nas pessoas. "Música é sensibilidade, mas é preciso ir além das notas e dos versos para estabelecer um trabalho concreto que vai além do ato de compor e conhecer a trajetória da música brasileira e ", diz Marcela que mergulhou no cancioneiro lírico de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Renato Russo e Renato Teixeira. O jeito de cantar de Maria Bethânia, Cássia Eller e Tetê Espíndola, por um lado, emolduraram sua forma de soltar a voz.

Acontece que Marcela, com seu jeito firme de dialogar com o auxílio de seu violão e de se conectar com o novo, já esboça as rotas que deve seguir também sob a   influência de seus contemporâneos Cícero, Silva, Dani Black, Tim Bernardes e Criolo. Com todo esse mapa da mina em seu caminho, a jovem cantora se prepara para lançar ainda este mês - nas plataformas digitais - seu primeiro EP com cinco composições, sendo três autorais e duas releituras de canções que resistem ao tempo. É o caso de 'Baioque' (Chico Buarque), com um arranjo que transita entre o baião e o rock numa tradução coerente para os dois estilos como sugere a canção que já passou pelo crivo de Bethânia e Elba Ramalho há mais de uma década. Marcela, contudo, rebobinou o 'Baioque' com ares novos.

A segunda regravação é 'Cuitelinho' - música folclórica do Mato Grosso, sob adaptação de Paulo Vanzolini, cujo registros do passado figuram nas manifestações regionais da congada e da catira, com uma levada rural. Já a roupagem de sua versão ficou alegre e dançante, exterminando de certa forma a nostalgia da letra.

Da cartola de suas criações, Marcela apresenta E 'Dimensões', uma balada com fôlego poético e um solo de guitarra que enriquece a composição. A outra música com sua assinatura autoral, é 'Eu não ser fazer rock in roll', com uma inspiração em que seu jeito de toca o violão com pegada groove atravessa a logística sonoridade da batida que lembra o pernambucano Lenine. Em 'Filosofia de Botequim', ela oferece um samba canção cuja letra transcende às crônicas das relações que fazem lembrar o discurso social de Noel Rosa.

Com esses registros, Marcela Brandão confirma o vigor de sua veia na música popular com a maturidade de quem estudou música durante dez anos na escola do Zimbo Trio, o CLAM. Foi a partir daí, que ela teve contato com o canto, violão, bateria e encontros de harmonia e percepção musical em grupo. "Comecei de fato a carreira musical em 2010, tocando na noite paulistana, em bares, restaurantes e no circuito das fábricas de cultura. Cinco anos depois deu um tempo ao violão para se dedicar à vida acadêmica".

Ela enfatiza que esse EP, traz à tona suas influências e momentos de vida. "É um trabalho político, denso, visceral e com algumas pitadinhas da paz desejada quase ilusória". É ouvir o EP e depois conferir sua vivacidade musical ao vivo onde quer que vá. 


Canções:
Dimensões - Marcela Brandão
Baioque - Chico Buarque
Eu Não Sei Fazer Rock N Roll- Marcela Brandão
Cuitelinho - Paulo Vanzolini
Filosofia de Botequim - Marcela Brandão

Ficha Técnica:
Voz: Marcela Brandão
Vozes e violões: Zé Tedesco
Guitarras: Kinho Russo
Baixo elétrico: Marcos Lopes
Percussão: Bocudo Faria
Bateria: Cheyner Kalil
Produzido, Gravado, Editado e Mixado por Thiago Baggio.
Afinação por Pedro Serapicos.
Masterização por Maurício Gargel.
Gravado no BTG Studio.

Redes Sociais
Facebook: @eumarcelabrandao
Instagram: @marcela.brandaoo
Youtube: @mamabrandao

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