ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

3/08/2019

Histórias do trajeto do maestro Eduardo Lages (7)



4 de novembro de 2005 

Folha de São Paulo 
Arranjador, Eduardo Lages lança o disco "Emoções", com canções que marcaram a parceria com Roberto Carlos 

Após 28 anos, "Maestro do Rei" estréia em CD

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO 

Eduardo Lages levou 28 anos para fazer uma pergunta a Roberto Carlos: "Posso gravar um disco com músicas suas?". Quando fez, imaginou que fosse ouvir uma das respostas mais conhecidas do Rei: "Vou pensar" -algo que pode levar meses, até anos. Mas teve uma surpresa.

"Passei muito tempo vendo Roberto se recusar a liberar músicas. Não tinha coragem de pedir. Quando pedi, ele disse: "Você merece. Faz que vai ficar bonito". Aí a responsabilidade aumentou. Fiz um disco para ele ouvir e gostar", conta Lages, 58.

A rapidez da resposta real sublinha a demora da pergunta. Afinal, Lages é, desde 1977, o "maestro do Rei", como é conhecido e como chegou a pensar em batizar o primeiro CD que leva seu nome, afinal chamado de "Emoções" (Sony BMG/Som Livre). "Proposta", "Se Você Pensa", "Café da Manhã", "À Distância", "Amada Amante", "Olha" e "Cavalgada" são algumas das músicas gravadas por Lages ao piano com participação de 50 músicos.

"Eu me acostumei em ser o "maestro do Rei". Não me incomoda em nada, muito pelo contrário. Mas é claro que eu gostei de fazer um disco como Eduardo Lages", diz ele, arranjador, hoje, de 90% das canções gravadas por Roberto.
No vôo solo, o maestro não se desligou do Rei. A possibilidade de gravar um CD com suas próprias composições não o motivou artística nem objetivamente.
"Tenho 19 músicas gravadas pelo Roberto e mais umas cinco só. Sou um compositor de uma música por ano. Então, não justificaria gravar um CD com esse repertório", explica ele, pragmático.

O lado sonhador do maestro se manifesta no desejo de gravar outros discos instrumentais com a obra do Rei ("Se pudesse, faria uns três por ano") e iniciar logo uma temporada de apresentações. No show, ele quer contar histórias vividas com Roberto.

"Teve um show no México em que eu precisava avisar algo ao Roberto. De costas para o público, fui chegando para trás, para trás, até que... bum! Caí em cima daquelas mulheres que ficam no gargarejo. Foi a minha sorte, porque elas eram fortinhas e amorteceram. O show parou e o Roberto ria muito", exemplifica.

Mas é claro que nem todas as histórias podem ser contadas. Compadre de Roberto -que batizou sua filha Cristine, de 25 anos- e assumido amigo do Rei, ele procura ser discreto ao falar do cantor, o que não trava uma ponta de lamento.
"Roberto vive trancado em casa, no estúdio, não sai à noite. Eu sinto muito por ele, porque existem vários amigos que, como eu, gostariam de estar mais próximos, conviver mais. Há épocas em que só o vejo no palco ou no estúdio. Mas no estúdio é algo tenso, porque, como ele é uma pessoa perfeccionista, o clima pode ser enlouquecedor para qualquer um que está ali", diz ele.

Na juventude, Lages fez um pouco de tudo: estudou piano clássico, formou um grupo de twist, tocou na igreja e no bordel -aos domingos tinha que sair antes de acabar a missa para chegar a tempo de embalar a dança das meninas-, em bares e boates, lançou músicas em festivais, integrou o MAU (Movimento Artístico Universitário, ao lado de Ivan Lins, Aldir Blanc, Gonzaguinha e outros), fez vinhetas para a TV Globo, até assentar-se como o "maestro do Rei".

"Nestes 28 anos, chegou mais perto de ele me mandar embora do que de eu sair. É difícil eu deixá-lo. Na minha casa só se fala dele, odeio quando ouço algo contra ele, quero sempre defendê-lo."

Depois de pensar por 30 segundos, Lages procura ser leal também ao responder por que não escolheu para o seu CD nenhuma canção feita nos anos 90 -período atualmente tido como o mais fraco da carreira do Rei.

"Roberto passou a compor menos. Ele era uma máquina de fazer música. Depois assumiu o lado religioso, deixou aquele sensualismo... as pessoas reclamam, mas ele fez muitas coisas legais. Fazer sucesso com uma música chamada "Nossa Senhora" não é para qualquer um", diz ele, que ao escolher canções como "Cavalgada" e "Café da Manhã" indica gostar do "sensualismo".
"Cavalgada", aliás, foi um dos primeiros arranjos feitos por Lages para Roberto e, segundo ele, o que selou a parceria entre os dois.

E justamente desta parceria que o maestro reivindica o seu quinhão. "As pessoas podem gostar ou não, mas muito do que está ali é meu, assume.



1 de abril de 2013 

O SOL 

Entrevista: maestro de Roberto Carlos fala sobre parceria de mais de 30 anos
Eduardo Lages participa da orquestra desde 1978 e já soma mais de 2,5 mil shows com o Rei

Fernanda Oliveira
Amigo, companheiro de trabalho, compadre, fã e maestro de Roberto Carlos. As muitas funções que Eduardo Lages acumula na vida do Rei fazem dele uma figura singular.

A parceria musical, que virou amizade, já dura mais de 35 anos e ultrapassa 2,5 mil shows realizados. Em entrevista ao DC, por telefone, o maestro e compositor revela que, quando o assunto é música, as decisões finais ainda cabem a Roberto Carlos - mas sugestões são sempre bem-vindas.



Como você e o Roberto Carlos se conheceram?

Eduardo Lages — Aos 11 ou 12 anos, já tocava piano muito bem. Mas, por causa de um acidente que me deixou com uma limitação em um dos tendões da mão esquerda, achei que jamais seria um grande pianista clássico. Comecei, então, a ir para a música popular e, depois, entrei para um grupo chamado MAU (Movimento Artístico Universitário) do qual participavam Ivan Lins, Gonzaguinha, Aldir Blanc e outros. Na época, fomos contratados pra fazer o Som Livre Exportação, e eu entrei como arranjador. Depois de um ano, quando terminou o programa, fui contratado para ser maestro da TV Globo. Fazia o Fantástico, que na época era um programa musical, e o Globo de Ouro, de paradas de sucesso. Então, o Roberto Carlos estava lá toda semana, fosse em primeiro, segundo ou terceiro lugar. Foi aí que o conheci, em 1977.

Vocês logo começaram a trabalhar juntos?

Lages — Em 1978, ele me convidou pra ser maestro dele, já que, a partir daquele ano, queria fazer todos os shows com orquestra e achou que eu tinha perfil. Hoje, tenho por volta de 2,5 mil shows com ele. Ainda fiquei muito tempo na TV Globo, mas, depois de 18 anos, com tantas viagens com o Roberto, tive que sair.

Você também compõe músicas para o Roberto?

Lages — Entre os 18 e 25 anos, me dediquei muito a compor. Participei de vários festivais, ganhando uns e não ganhando outros. Com a proximidade, também me dediquei a fazer músicas para o Roberto e hoje tenho composições minhas gravadas por ele.

O que faz com que essa parceria já dure mais de 30 anos?

Lages — Muita transparência. Além de tudo, a gente é amigo. Existe um respeito mútuo, uma compreensão e, de minha parte, uma admiração muito grande pelo trabalho do Roberto Carlos. É uma parceria que, depois de tantos anos, a essa altura da vida, é muito difícil que venha a terminar. Apesar de eu ter meu trabalho solo, ele representa 70% da minha vida profissional e está presente, de certa forma, até na minha casa, pelo amor e admiração que minha família tem. Ele faz parte da nossa vida.

Quando se trata da música, a decisão final é sua ou dele?

Lages — Sempre levo ideias. Faço a maior parte dos arranjos, tanto nos shows como nos discos, inclusive os projetos especiais, como Jerusalém e Elas Cantam Roberto Carlos. Tudo relativo à parte artística e musical tem, de certa forma, a minha participação como maestro e arranjador. Nos shows é onde atuo mais, criando algumas coisas. Claro que a última palavra é dele, mas, depois de tantos anos, a aceitação que ele tem pelo meu trabalho é muito grande.

A que você atribui a durabilidade do sucesso de Roberto Carlos?

Lages — Roberto é o maior ídolo desse país. Acho, inclusive, que é o maior artista popular do Brasil de todos os tempos. Acredito que seja pela coerência com que ele leva a carreira e também porque está sempre inovando. Ele mantém a grandiosidade e, por isso, se destaca. Os ídolos vêm e vão, e o Roberto continua.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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