Uma boa história depois
da outra e de repente você percebe que a maioria na multidão parece ter alguma
coisa para contar sobre Roberto Carlos. Surge a recordação da infância, da
juventude, do grande amor, do momento mais difícil ou mais feliz de uma
vida.
Aparece até
a menina de 17 anos que aos 15 pediu como presente um Cruzeiro/Show do ídolo bem
mais velho, mas não conseguiu embarcar no navio porque acabou de
recuperação.
E nem
adianta ir contra a maré de mais de 6 mil vozes em um Guanandizão lotado em
plena quinta-feira, segundo números dos organizadores do evento. Apesar dos
problemas evidentes, não há quem reclame do engarrafamento, do valor do
estacionamento, da cadeira de plástico, da qualidade do som, da chuva, do open
bar ou do preço do ingresso.
Se a voz do ídolo não
chega nítida à arquibancada, lá está o coro de novo, entusiasmado, com a letra
na ponta da língua. E assim segue até “Jesus Cristo” fechar a noite. Quem tem um
motivo para amar o “Rei” prefere aproveitar ao máximo a oportunidade de cantar
junto e tirar fotos.
E aos 72
anos ele corresponde. Fala com carinho de Campo Grande, agradece a presença e
começa o espetáculo que para alguns já não é novidade, mas continua como um
momento especial. “Fui em São Paulo pensando que seria o último show dele,
afinal, o cara tinha 71 anos. É muito bom, vou continuar indo enquanto der”, diz
Rodrigo Vianna, de 52 anos.
Roberto não
é do tipo que “explode” em energia no palco, é um senhorzinho mais contido, com
aqueles gestos que a gente cansa de ver na programação de fim de ano da Rede
Globo. Mas nem precisa ser diferente.
O que todo
mundo quer é ver o cara de roupa azul, com o microfone de lado e, quem sabe, ser
visto por um dos maiores artistas brasileiros. Por isso, uma legião de mulheres
usa azul como chamariz, um código entre fã e cantor.
A cor
preferida do ídolo é a mesma dos modelitos escolhidos pelas primas Rosana e
Simone. Sentadas bem em frente ao palco, as duas garantem que foram as primeiras
a comprar ingressos. “No dia que começou a venda, às 8h, entramos no site e
compramos as melhores cadeiras na 1ª fila”, diz Rosana. Um luxo ao custo de R$
480,00 para cada uma.
Para
conseguir uma rosa, daquelas jogadas por Roberto em todas as apresentações, um
item indispensável também não poderia faltar no arsenal das primas: o cartaz
para chamar a atenção.
A tal rosa,
branca ou vermelha, é o maior objeto de desejo das fãs. Por isso a concorrência
entre os cartazes é grande. Aos 89 anos, dona Odete escreve em letras garrafais
que Roberto é o “7º filho”, em mais uma tentativa de atrair os olhares e a mira
do cantor na hora da distribuição das flores.
“Ixi, já
fomos em muitos shows lá no Rio. Aqui, quando ele veio na primeira vez, meu pai
ficou até sem janta em casa”, lembra a filha Gilcleide Alves.
O espetáculo
tem orquestra, iluminação impecável, mas o que contagia é o repertório. De saída
“Emoções” já leva algumas pessoas às lágrimas. Depois vem “Eu Te Amo, Eu Te Amo,
Eu Te Amo” e até quem foi ao show para trabalhar (eu) engata a sequência de
versos.
Simpático
como sempre, até o pai de Michel Teló aparece para tietar. Aldo Teló só lamenta
não ter levado a foto que tirou com o Rei na gravação do especial da Globo do
ano passado, depois de uma participação memorável do filho. "Quando encontrei o
Roberto pela primeira vez, fiquei igual criança boba que vê um ídolo. Não
conseguia me mexer", diz sorridente.
Os irmãos
Fernando e Nathalie Becker, que ficaram famosos por tatuarem uma canção de
Roberto Carlos em agradecimento à vida, conseguiram lugares na segunda fila como
cortesia da Dut's, empresa responsável pelo show em Campo Grande. “Estou muito
feliz só por entrar. Se um dia ele conhecer a minha história, será a realização
completa”, comemora Nathalie.
Para Vera
Lúcia e o marido Jurandir Capurro, chegar ali também exigiu sacrifício. Aos 62
anos, ele tem uma doença degenerativa e depende de um andador para se
locomover.
Mas os 38
anos de casamentos tinham de ser comemorados no show do Guanandizão, um presente
surpresa da filha e do genro. “Adoro a música Detalhes, mas várias falam muito
sobre nós dois”, comenta a esposa.
Para,
Victoria, de 8 anos, o frio na barriga começa já na portaria. Como os ingressos
da família eram para setor open bar, onde é proibida a entrada de menores, a
menina quase fica do lado de fora e só é liberada pela camaradagem do
segurança.
Entre
milhares de casais de mãos dadas e pessoas bem mais velhas, a menina com jaqueta
preta de couro é a diferença. Fã do "arrocha", quando levanto a dúvida sobre a
admiração ao Rei ela coloca as duas mãos no peito de supetão e jura que também
adora Roberto, principalmente por causa do “Esse cara sou eu”. “A gente veio de
Jardim, cantando no carro as músicas dele”, reforça.
É uma festa
para privilegiados, com ingressos entre R$ 140,00 e R$ 480,00. Muitos com
dinheiro, outros com "bons amigos", comenta a professora Sirlene Pereira, do
bairro Nova Lima. "Fiz rifa de uma semi jóia para poder comprar o ingresso no
melhor setor, porque eu não queria ver o Roberto de longe, não teria graça",
explica.
A dona de
casa do bairro São Conrado, Lucimara Silvino, mobilizou os 5 filhos para uma
"vaquinha". "Eles são bonzinhos, todo mundo colaborou", agradece.
Felizmente, o
velho Guanandizão também resolve colaborar na acústica e graças, principalmente,
as toneladas de equipamentos no palco, o som chega compreensível do lado de
fora, onde vizinhos tentam aproveitar, tomando uma cerveja. "É muito caro, a
gente é fã, mas não tem como pagar. Pelo menos o som tá bom", explica Glauce
Acosta, que mora na Vila Nhá-Nhá.
A cada
introdução musical, Glauce salta para dizer o nome da canção, como prova de
conhecimento. "Adora Detalhes, mas sei cantar várias letras dele de cabo a
rabo", afirma.
A amiga
convenceu a turma a fazer vigília em um dos acessos do ginásio, na esperança dos
portões serem liberados, pelo menos, para a última música. "No show do Zezé e do
Luciano foi assim", justifica Adélia Gonçalves.
É tanta
vontade de ver Roberto Carlos de perto que apenas ver as fotos no visor da
câmera de quem acabou de sair lá de dentro já leva as amigas à gritaria. "Ele é
lindo!!", concluem.
O "Rei" sempre no clássico azul
Ângela Kempfer
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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