Designer de moda, Raul, 25 anos, estava acompanhado do irmão Igor,
23, da mãe Dora e do pai Ivo
RENATO
BEOLCHI
Direto
de São Paulo
"Aqui,
faxineira senta ao lado da madame." A frase, profetizada por um segurança que
não percebeu que era ouvido pela reportagem do Terra,
resume bem o ambiente de um show de Roberto Carlos. Uma apresentação do rei é
quase uma experiência antropológica, que traduz em um ambiente confinado, todas
as tonalidades sociais de uma metrópole. Da classe A à D, brotam representantes
com um único objetivo: testemunhar uma apresentação do já mitológico Roberto
Carlos.
Dona
Rosineide foi de Santos a São Paulo para seu primeiro encontro com Roberto
Carlos, na noite desta quarta (7), no Ginásio do Ibirapuera. Ganhou o ingresso
da filha, e foi acompanhada de outra fã de carteirinha, Dona Emília, do bairro
do Ipiranga, e mãe do genro da amiga. "Assim fica tudo em família", brincavam as
duas antes da apresentação.
Quase
na mesma fila, quem também se preparava para debutar em uma apresentação real
era o pesquisador mercadológico Miguel, 24 anos, morador da Vila Romana, na zona
oeste da capital paulista. "Minha namorada vinha com a mãe a esse show e eu me
convidei pra vir junto", admitiu o jovem que se disse fã da fase roqueira e
romântica do cantor. E nem tanto da católica.
O
clima familiar não poderia ser maior em torno de Raul, 25 anos. Designer de
moda, ele estava acompanhado do irmão Igor, 23, da mãe Dora e do pai Ivo, o
grande homenageado da noite. Foi de Raul a ideia de presentear pelo aniversário
de 48 anos do pai com ingressos para o show de Roberto.
Os
contrastes sociais diminuem quando o assunto é Roberto Carlos. E a explicação
está na ponta da língua de Dona Emília: "ele tem uma canção que marcou alguma
época da vida de qualquer pessoa".
Do
lado de dentro, as diferenças se acentuam. Alguns usam roupas como se o show de
Roberto Carlos fosse equivalente a uma formatura, ou casamento: há um desfile de
vestidos de gala e trajes de noite. Outros encaram a noite de forma mais
despojada e qualquer coisa além de camiseta e calça jeans parece exagero.
Mas,
seja de jeans, ou de vestido brilhante, as fãs de Roberto Carlos gritam.
Comportam-se nas arquibancadas como se o ídolo fosse um menudo, ou um backstreet
boy, no caso das fãs mais jovens. Antes mesmo do show começar, a propaganda de
um cartão de crédito que era exibido repetidamente nos telões começava com uma
música de Roberto Carlos. A cada exibição a canção era saudada com gritos, como
se o show já estivesse em andamento.
Fosse
qual fosse o traje, a democracia chegava ao comercio de comida dentro do
ginásio. Pipoca, salgadinho, cheeseburguer, custavam R$ 10 cada. A cerveja
também. "O preço é esse para o pobre e para o rico", teorizava um vendedor de
pipocas diante do protesto contra o preço. Quem celebrava o sucesso do comércio
era Dona Dalva, vendedora de crepes. Com a bandeja quase vazia, prometia que só
sairia dali quando acabasse o show. "Estou terminando de trabalhar, agora vou me
divertir"
Disse
que, mais cedo, chegou a vender alguns crepes na rua. "Vendi até para uma mulher
num carro importado que estava chegando para o show". Um dos últimos crepes da
noite estava sendo negociado naquele momento. A compradora era um conhecida de
Dona Dalva, ex-vizinha da Vila Brasilândia. E a camaradagem não rendeu sequer um
desconto para a amiga? "Amigas, amigas, negócios à parte".
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