ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

5 de março de 2012

Adega Mesquita - Coisas que o fado tece



Por: Armindo Guimarães
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Por vezes a realidade é tão incrível que consegue ultrapassar a própria ficção. Foi o que aconteceu há cerca de quinze anos, mais exactamente na Adega Mesquita, uma antiga e conceituada casa de fados do Bairro Alto, em Lisboa.

Já passava da meia-noite e chovia que Deus a dava. Não se via ninguém nas ruas do Barro Alto à excepção de dois gajos do Porto que molhados até aos ossos espreitavam esta e aquela casa de fados. A Adega Mesquita na rua do Diário de Notícias pareceu-lhes uma boa opção não fosse o porteiro abrir a porta e perguntar o que queriam dali dois gatos pingados àquela hora da noite.

- Ó amigo queríamos comer qualquer coisa e ouvir uns fados à maneira – responderam.

- Acontece que já estamos fechados e os fadistas estão todos a prepararem-se para sair. O melhor é voltarem cá amanhã há hora de jantar e não a esta hora. Se vierem à hora de jantar, além dos fados podem ainda assistir a danças de folclore.

- A malta gosta de folclore, mas o que queríamos mesmo era uns fadinhos. Por isso…

- Por isso, é como vos disse. Venham amanhã.

- Ó amigo, amanhã de manhã já vamos para o Porto. Não me diga que viemos do Porto de propósito para ouvir uns fadinhos aqui na Adega Mesquita e que na volta vamos embora a ver navios! Estamos lixados, carago!

- Vocês vieram do Porto de propósito?

- Claro! E olhe para nós todos molhados que mais parecemos uns pitos.

Depois de alguns segundos de reflexão, o porteiro sugeriu que os tripeiros esperassem um pouco enquanto ia ver o que poderia fazer.

Regressou, dizendo:

- Vocês estão com sorte. Falei ao coração dos fadistas e eles, como não têm que arrumar a voz, prontificaram-se a cantar mais uns fados. O pior foram os guitarristas que já tinham arrumado as guitarras, mas quando lhes disse que vocês vieram do Porto de propósito, sacaram logo dos instrumentos. Entrem!

E os gajos do Porto à vista de tantas mesas já preparadas para o dia seguinte, todas elas com uma pequena jarra de flores ao centro e um castiçal com uma vela à espera da penumbra para se fazer notada ao som da guitarra portuguesa e do fado que passados quinze anos iria ser nomeado pela UNESCO como património imaterial da humanidade, perguntaram:

- Onde nos podemos sentar?


- Onde quiserem. A Adega Mesquita está por vossa conta.

Escolheram a mesa do meio bem lá à frente, na cara do toiro, quais forcados do Bairro Alto que armados de comes e bebes a preceito e à luz da vela, puderam ouvir os tão desejados fados cantados por Flora Silva, Tino Ferreira, Maria de Fátima e outro fadista que infelizmente não consta das quatro cassetes que dali levaram de recordação.

A verdade seja dita que o Armindo e o Sérgio não foram de propósito a Lisboa para ouvirem uns fadinhos na Adega Mesquita. Foram em serviço e iriam regressar à Invicta no dia seguinte, mas antes disso não podiam perder a oportunidade de juntarem o útil ao agradável. E que agradável!

Enfim, coisas que o fado tece e que por certo os gajos do carago, jamais esquecerão.

Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

4 comentários:

  1. Olá maninho!

    Logo que comecei a ler já imaginei que um dos gajos era você...
    Amei sua história,os fados,o vídeo.
    Você escreve tão especial,que faz a gente imaginar todas as cenas, como se estivesse lá...Tomei chuva agora...

    Parabéns!

    Beijos,
    Carmen Augusta

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  2. Alba Maria Fraga Bittencourt05/03/2012, 01:34:00

    Querido Armindo!

    Teus textos tem vida....senti cada momento como se também estivesse presente...senti até a chuva no meu corpo....
    As fotos estão lindas...
    O vídeo com Fados maravilhosos, e como sou uma brasuca que adoro Fados, estou a escutá-los enquanto escrevo este comentário....
    Parabéns Meu Amigo!
    Beijos,
    Alba Maria

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  3. Ai, ai, Adega Mesquita, Adega Machado, e todas as outras que conheci nas noites da velha Lisboa. Ai meu Bairro Alto, que saudade. E viva o fado a nossa grande expressão por esse mundo fora.
    Parabéns.
    Carlos Alberto Alves

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  4. Armindo:grande noite de fados grande molha,mas uma coisa destas so visto contado ninguem acredita .temos que publicar as nossas noites na ginja,o jogo da moedinha o oficios correlativos.
    um xi
    Sergio Alvim

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