Três histórias de santos carmelitas cruzam fé, razão e conflitos humanos
Helder Mariani dirige uma experiência teatral que cruza espiritualidade, filosofia e condição humana
A Catedral da Sé de São Paulo acolhe, até 10 de novembro de 2026, a Trilogia da Noite Escura da Alma, uma experiência teatral que reúne três monólogos inspirados nas vidas de Edith Stein, São João da Cruz e Santa Theresinha do Menino Jesus.
Com dramaturgia e direção de Helder Mariani, a proposta convida o público a percorrer diferentes espaços da Catedral, numa experiência cénica que articula teatro, espiritualidade e reflexão sobre os conflitos da alma humana.
As apresentações decorrem às terças-feiras, às 19h, com as próximas sessões agendadas para 3 e 10 de novembro.
Três histórias, uma mesma inquietação humana
A trilogia é constituída por três espetáculos distintos, adaptados para um percurso teatral que passa pelo Salão Superior, Cripta, Coro e Altar-Mor da Catedral da Sé.
O tema comum é a chamada «noite escura da alma», tradição espiritual carmelita que atravessa as histórias de duas santas e um santo venerados pela Igreja Católica.
O primeiro monólogo, Edith Stein, a Estrela e a Cruz, apresenta a história de Santa Benedita Tereza da Cruz (1891-1942), também conhecida como Edith Stein, filósofa judia convertida ao cristianismo católico. A personagem é interpretada por Daniela Schitini.
O segundo, João da Cruz, recupera a trajetória de São João da Cruz (1542-1591), poeta e místico espanhol, interpretado pelo próprio Helder Mariani.
Por fim, Theresinha aborda a vida de Santa Theresinha do Menino Jesus (1873-1897), figura central da espiritualidade carmelita, interpretada por Gabriela Cerqueira.
Katia Naiane, Nicoli Rizzoli e Carlo Aloise completam o elenco, participando também na condução do público pelos diferentes espaços da Catedral.
Teatro, espiritualidade e os conflitos da vida contemporânea
Embora partam de figuras religiosas, as três narrativas ultrapassam os limites da abordagem confessional. Os espetáculos exploram questões existenciais que continuam presentes na sociedade contemporânea, como a solidão, o medo, as dúvidas, a procura de sentido e o confronto entre fé e razão.
A proposta estabelece um diálogo com os desafios da vida nas grandes cidades, onde o excesso de trabalho, a multiplicação de informações e as exigências quotidianas podem contribuir para o isolamento e o sofrimento humano.
Produzidos pela Cia. da Palavra, os monólogos foram escritos por Helder Mariani a partir dos textos autobiográficos das três figuras históricas. Partilham uma concepção cénica assente na presença do intérprete e numa comunicação directa com o público, aproximando-se da figura do ator-narrador, ou rapsodo, no teatro contemporâneo.
Os três protagonistas viveram em épocas diferentes, mas partilharam experiências espirituais marcadas pela transformação interior e pelo confronto com os limites da existência.
São João da Cruz e Thérèse de Lisieux foram declarados Doutores da Igreja Católica. Edith Stein, por sua vez, é apresentada na informação de divulgação do espetáculo como estando em processo de declaração.
Uma experiência teatral dentro da Catedral
Para Helder Mariani, a escolha da Catedral da Sé como espaço cénico permite criar uma experiência que aproxima o espectador de questões profundas da condição humana.
O encenador considera que, sobretudo nas grandes cidades, a luta quotidiana pela sobrevivência e o ritmo da vida urbana podem afastar as pessoas da sua dimensão espiritual.
Na sua perspectiva, o desenvolvimento tecnológico, a ciência e o racionalismo não esgotam as respostas à complexidade do ser humano, às suas contradições e aos mistérios da existência.
A encenação procura, assim, humanizar as figuras religiosas, apresentando-as não apenas como santos, mas como pessoas que também enfrentaram dúvidas, conflitos, sofrimento e contradições.
«A quem percorrer esse caminho da Catedral da Sé, há de se iluminar um olhar mais crítico e mais compassivo, para si mesmo e para o outro», afirma Helder Mariani.
Os três monólogos da trilogia
Edith Stein, a Estrela e a Cruz
A narrativa começa a 2 de agosto de 1942, quando dois oficiais das SS chegam ao Mosteiro das Carmelitas Descalças de Echt, nos Países Baixos, para retirar Edith Stein, então religiosa Teresa Benedita da Cruz.
O monólogo acompanha os breves momentos em que a religiosa prepara os poucos pertences que poderá levar consigo. Enquanto arruma os seus objectos, revisita mentalmente a própria vida, desde a infância numa família judia até à entrada na Ordem das Carmelitas Descalças.
Filósofa de reconhecida importância na fenomenologia, Edith Stein morreu na câmara de gás de Auschwitz, a 9 de agosto de 1942, segundo os registos históricos referidos na apresentação da obra.
O espetáculo estreou em julho de 2023, no Teatro das Paulinas, em São Paulo.
Ficha técnica
Atriz: Daniela Schitini. Dramaturgia e encenação: Helder Mariani. Voz em off: Denise Weinberg. Trilha sonora: Dagoberto Feliz. Direcção de arte: Helder Mariani e Daniela Schitini. Produção e realização: Cia. da Palavra. Duração: 30 minutos.
João da Cruz
Inspirado nos escritos de São João da Cruz, poeta e místico espanhol do século XVI, o monólogo retrata um dos períodos mais difíceis da sua vida: os nove meses de prisão, entre dezembro de 1576 e agosto de 1577, numa cela minúscula no Convento de Toledo.
Prisioneiro dos próprios confrades carmelitas, João da Cruz enfrentou condições degradantes, escassez de alimentos e torturas físicas e psicológicas.
Durante o cativeiro, a ideia da fuga tornou-se uma obsessão, enquanto a sua experiência espiritual e a sua produção poética continuavam a marcar profundamente a sua existência.
A encenação apresenta um homem consumido pela solidão, pela humilhação e pelas contradições interiores, mas que não desiste da luta pela renovação da sua ordem religiosa e da Igreja do seu tempo.
A obra literária de São João da Cruz ultrapassou as fronteiras do discurso religioso e integra o património clássico da literatura espanhola.
Ficha técnica
Dramaturgia, encenação e actuação: Helder Mariani. Voz em off: Denise Weinberg. Trilha sonora: Dagoberto Feliz. Direcção de arte: Pedro Faraldo. Produção e realização: Cia. da Palavra. Duração: 30 minutos.
Theresinha
O terceiro monólogo inspira-se nos escritos autobiográficos de Thérèse de Lisieux, jovem religiosa francesa canonizada pela Igreja Católica e popularmente conhecida no Brasil como Santa Theresinha do Menino Jesus, a «santinha das rosas».
A encenação acompanha cronologicamente as suas memórias, privilegiando a dimensão humana da personagem e os conflitos interiores que marcaram a sua breve existência.
A procura de sentido para a vida, as angústias e o confronto entre fé e razão constituem os principais eixos desta abordagem, que aproxima as inquietações da jovem religiosa de questões que continuam a desafiar a humanidade.
Estreado em 2014, em São Paulo, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, o espetáculo cumpriu três temporadas naquele espaço e passou posteriormente por diversos teatros, igrejas, museus e mosteiros, além de várias cidades brasileiras, incluindo Curitiba, Belo Horizonte, Vitória e Rio de Janeiro.
Ficha técnica
Atriz: Gabriela Cerqueira. Dramaturgia e encenação: Helder Mariani. Orientação artística e preparação da actriz: Denise Weinberg. Pesquisa: Thiago Brito. Trilha sonora: Dagoberto Feliz. Cenografia: Flávio Tolezani. Adereços: Marcela Donatto. Figurino: Marcela Donatto, em parceria com Gabriela Cerqueira. Produção e realização: Cia. da Palavra, em parceria com a Pulo do Gato Produções Artísticas e Culturais. Duração: 30 minutos.
Ficha técnica geral
Dramaturgia e direcção: Helder Mariani.
Elenco:
Daniela Schitini (Edith Stein).
Helder Mariani (João da Cruz).
Gabriela Cerqueira (Theresinha).
Elenco condutor: Katia Naiane, Nicoli Rizzoli e Carlo Aloise.
Coordenação de operação de luz e som: Sylvie Laila.
Técnicos de iluminação: Gabriel Greghi, Gabriela Cezario da Silva, Rafael Santos Durão e Sylvie Laila.
Designer gráfico: Thierry Avelar.
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena.
Idealização e produção: Cia. da Palavra.
SERVIÇO:
Espetáculo: Trilogia da Noite Escura da Alma
Monólogos: Edith Stein, a Estrela e a Cruz | João da Cruz | Theresinha
Datas: 3 e 10 de novembro de 2026
Horário: Terças-feiras, às 19h.
Duração total: 140 minutos.
Classificação etária: 14 anos.
Género: Drama.
Capacidade: 100 pessoas.
Ingressos: R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia-entrada).
Bilheteira: Uma hora antes das sessões.
Vendas online: Sympla.
Locais de encenação: Salão Superior, Cripta, Coro e Altar-Mor.
Acessibilidade: Disponível apenas para o Coro e o Salão Superior. A Cripta não dispõe de acessibilidade.
Local: Catedral da Sé – Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Assunção.
Endereço: Praça da Sé, bairro da Sé, São Paulo/SP, 01001-000.
Entrada: Pela porta lateral, à esquerda da Catedral.
Redes sociais: @trilogianoiteescuradaalma e @catedraldasesp
Crédito fotográfico: Ana Carolina Carvalho
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A Trilogia da Noite Escura da Alma propõe um encontro entre teatro, história e espiritualidade, mas o seu interesse não se limita ao universo religioso. Ao recuperar as experiências de Edith Stein, João da Cruz e Theresinha, a criação de Helder Mariani coloca em cena questões universais: a solidão, a resistência perante o sofrimento, a procura de sentido e o diálogo, nem sempre pacífico, entre fé e razão. A utilização dos diferentes espaços da Catedral da Sé acrescenta uma dimensão particular à experiência, transformando o percurso do público numa parte integrante da encenação. Uma proposta cultural que merece atenção também de quem procura no teatro mais do que entretenimento: uma oportunidade de reflexão sobre a complexidade da condição humana.
Três histórias de santos carmelitas cruzam fé, razão e conflitos humanos
Três histórias, uma mesma inquietação humana
Teatro, espiritualidade e os conflitos da vida contemporânea
Uma experiência teatral dentro da Catedral
Os três monólogos da trilogia
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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