Publicada por
Armindo Guimarães
A História não existe para confirmar crenças; existe para desafiar certezas
Uma nação pode discutir o futuro com mais rigor quando conhece o seu passado sem filtros
"Nunca foi tão fácil aceder à informação, mas isso não significa que seja mais fácil compreender a História."
— Vímara Porto
Original do Portal Splish Splash
Por: Armindo Guimarães
Há assuntos que chegam até nós de forma inesperada e acabam por despertar reflexões que vão muito além da notícia inicial.
Foi o que aconteceu quando tive conhecimento, através de uma assessoria de imprensa, do lançamento do livro "1897: A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais", de Ely Carneiro de Paiva. Ainda não li a obra, embora tencione adquiri-la para a ler mais tarde, mas o tema despertou-me imediatamente a atenção.
O livro recupera um período particularmente turbulento dos primeiros anos da República brasileira, quando conflitos políticos, violência, imprensa sensacionalista e informações falsas se cruzavam num ambiente de grande instabilidade.
Mas 1897 levou-me a uma questão mais ampla: como é que um país se relaciona com a sua própria História?
Não falo como historiador, nem pretendo apresentar uma conclusão sobre o conjunto da sociedade brasileira. Falo como português que contacta diariamente com brasileiros desde 2004 e que, ao longo destes anos, se deparou muitas vezes com situações que me fizeram pensar sobre o conhecimento histórico e geográfico que chega ao cidadão comum.
Há uma diferença importante entre aquilo que um país estabelece oficialmente como matéria de ensino e aquilo que os cidadãos efectivamente retêm.
A actual Base Nacional Comum Curricular brasileira, por exemplo, atribui ao ensino da História a tarefa de relacionar passado e presente, trabalhar diferentes versões dos acontecimentos, analisar documentos e reflectir criticamente sobre a produção da memória histórica.
Ou seja, não seria correcto afirmar simplesmente que o Brasil não ensina História ou que pretende apagar o seu passado.
A questão é outra: quanto desse conhecimento chega efectivamente à população e permanece na memória colectiva?
É uma pergunta que também poderia ser feita em Portugal, naturalmente. Nenhum país está imune ao desconhecimento da sua própria História.
Antigamente, o problema era muitas vezes o acesso à informação. Hoje, o problema é frequentemente o excesso dela. Estamos constantemente expostos a notícias, vídeos curtos, publicações nas redes sociais, títulos apelativos e opiniões instantâneas. Neste contexto, o conhecimento tende a tornar-se fragmentado: conhecem-se episódios isolados, frases feitas ou versões simplificadas dos acontecimentos, mas perde-se a compreensão do processo histórico como um todo. Nunca foi tão fácil aceder à informação, mas isso não significa que seja mais fácil compreender a História.
Ao longo dos anos, deparei-me, em diferentes contextos, com situações que me suscitaram reflexões sobre o conhecimento histórico e geográfico que chega ao cidadão comum.
Numa dessas ocasiões, surgiram dúvidas e respostas inesperadas sobre Portugal, a sua localização geográfica e alguns aspectos da sua realidade política. Não se tratava de um estudo científico nem de uma amostra representativa da população brasileira. Eram apenas episódios isolados.
E essa distinção é fundamental.
Não permitem concluir que os brasileiros, em geral, desconhecem Portugal ou a Geografia mundial.
Mas são situações que, para quem observa de fora e mantém contacto regular com brasileiros, suscitam uma pergunta legítima: que lugar ocupa a História de Portugal e da formação do Brasil na cultura geral dos brasileiros de hoje?
Há, neste aspecto, uma curiosa contradição.
O Brasil tornou-se independente em 1822, mas a herança portuguesa não desapareceu com a independência. Continua presente na língua, em numerosos apelidos, em instituições, na arquitectura, na religião, na gastronomia, no direito e em muitos costumes que fazem parte da identidade brasileira.
Uma herança cultural pode permanecer durante séculos sem que aqueles que dela são herdeiros tenham consciência da sua origem.
Uma sociedade moderna não precisa de viver prisioneira do passado.
Nem precisa de glorificar os seus antigos governantes, esconder os períodos negros da sua História ou transformar personagens históricas em santos nacionais.
Pelo contrário.
Conhecer a História implica conhecer os bons e os maus momentos. Implica saber quem venceu e quem perdeu, quem construiu e quem destruiu, quem foi herói para uns e adversário para outros.
A História adulta não precisa de propaganda.
Precisa de memória.
E talvez seja precisamente aqui que a questão de 1897 ganha interesse. Os próprios documentos oficiais sobre o ensino da História no Brasil reconhecem que, em diferentes períodos, a narrativa histórica escolar esteve ligada à construção da identidade nacional e à valorização de determinados heróis e acontecimentos. Documentos curriculares posteriores procuraram justamente promover uma leitura mais crítica das fontes, das memórias e das diferentes interpretações do passado.
Todos os países têm páginas gloriosas e páginas vergonhosas.
Portugal tem as suas. O Brasil tem as suas.
A França, a Espanha, o Reino Unido, os Estados Unidos, a Rússia ou qualquer outra nação também.
O problema começa quando a História deixa de ser instrumento de conhecimento e passa a ser apenas instrumento de conveniência.
Se o passado serve exclusivamente para justificar os fracassos do presente, transforma-se numa espécie de culpado permanente: tudo aconteceu antes, tudo foi culpa dos que vieram antes e, portanto, ninguém precisa de assumir responsabilidade pelo que acontece agora.
Mas o passado não governa sozinho o presente.
Mais de dois séculos depois da independência, o Brasil é responsável pelo seu próprio caminho.
Pode reconhecer a herança portuguesa sem deixar de ser brasileiro. Pode valorizar os povos indígenas sem apagar a influência europeia. Pode reconhecer a contribuição africana sem negar outras componentes da sua formação. Pode criticar a Monarquia sem transformar todo o período imperial numa caricatura. Pode criticar a República sem negar os avanços que ocorreram desde 1889.
Uma coisa não elimina a outra.
Talvez seja essa a minha maior perplexidade.
O Brasil tem uma História gigantesca, complexa e fascinante. Tem povos indígenas com histórias anteriores à chegada dos portugueses, colonização, escravatura, resistência, miscigenação, bandeirantes, mineração, invasões estrangeiras, transferência da corte portuguesa, independência, Império, Abolição, República, revoltas, guerras, industrialização, imigração e uma extraordinária diversidade cultural.
É impossível compreender o Brasil actual sem conhecer uma parte significativa desse percurso.
E não é necessário gostar de tudo o que aconteceu. É necessário saber que aconteceu.
Porque um povo que conhece o seu passado está em melhores condições para discutir o seu presente. E um povo que desconhece o passado fica mais vulnerável a aceitar versões simplificadas daquilo que realmente aconteceu.
Aqui entra a parte pessoal, e inevitavelmente mais divertida, desta história.
Depois de tantos anos de contacto com brasileiros, houve quem me atribuísse duas classificações que, confesso, recebi com bastante gosto:
"Portuleiro."
E, ainda melhor:
"O portuga mais brasuca que conhecem."
Talvez seja precisamente essa convivência prolongada com brasileiros que me tenha permitido olhar para o Brasil não apenas como o país que aparece nos mapas ou nas notícias, mas como uma sociedade extraordinariamente complexa, contraditória, criativa e ainda profundamente marcada pela sua própria História.
E é por isso que a minha crítica não nasce de rejeição.
Nasce, pelo contrário, de uma espécie de carinho adquirido ao longo dos anos.
O Brasil é demasiado grande, demasiado rico e demasiado importante para conhecer apenas uma versão de si próprio.
Um país não precisa de esquecer o passado para construir o futuro.
Precisa de o conhecer.
E, se possível, de o conhecer inteiro.
Foi o que aconteceu quando tive conhecimento, através de uma assessoria de imprensa, do lançamento do livro "1897: A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais", de Ely Carneiro de Paiva. Ainda não li a obra, embora tencione adquiri-la para a ler mais tarde, mas o tema despertou-me imediatamente a atenção.
O livro recupera um período particularmente turbulento dos primeiros anos da República brasileira, quando conflitos políticos, violência, imprensa sensacionalista e informações falsas se cruzavam num ambiente de grande instabilidade.
Mas 1897 levou-me a uma questão mais ampla: como é que um país se relaciona com a sua própria História?
Não falo como historiador, nem pretendo apresentar uma conclusão sobre o conjunto da sociedade brasileira. Falo como português que contacta diariamente com brasileiros desde 2004 e que, ao longo destes anos, se deparou muitas vezes com situações que me fizeram pensar sobre o conhecimento histórico e geográfico que chega ao cidadão comum.
Entre a História ensinada e a História conhecida
Há uma diferença importante entre aquilo que um país estabelece oficialmente como matéria de ensino e aquilo que os cidadãos efectivamente retêm.
A actual Base Nacional Comum Curricular brasileira, por exemplo, atribui ao ensino da História a tarefa de relacionar passado e presente, trabalhar diferentes versões dos acontecimentos, analisar documentos e reflectir criticamente sobre a produção da memória histórica.
Ou seja, não seria correcto afirmar simplesmente que o Brasil não ensina História ou que pretende apagar o seu passado.
A questão é outra: quanto desse conhecimento chega efectivamente à população e permanece na memória colectiva?
É uma pergunta que também poderia ser feita em Portugal, naturalmente. Nenhum país está imune ao desconhecimento da sua própria História.
Antigamente, o problema era muitas vezes o acesso à informação. Hoje, o problema é frequentemente o excesso dela. Estamos constantemente expostos a notícias, vídeos curtos, publicações nas redes sociais, títulos apelativos e opiniões instantâneas. Neste contexto, o conhecimento tende a tornar-se fragmentado: conhecem-se episódios isolados, frases feitas ou versões simplificadas dos acontecimentos, mas perde-se a compreensão do processo histórico como um todo. Nunca foi tão fácil aceder à informação, mas isso não significa que seja mais fácil compreender a História.
Algumas perguntas que me ficaram na memória
Ao longo dos anos, deparei-me, em diferentes contextos, com situações que me suscitaram reflexões sobre o conhecimento histórico e geográfico que chega ao cidadão comum.
Numa dessas ocasiões, surgiram dúvidas e respostas inesperadas sobre Portugal, a sua localização geográfica e alguns aspectos da sua realidade política. Não se tratava de um estudo científico nem de uma amostra representativa da população brasileira. Eram apenas episódios isolados.
E essa distinção é fundamental.
Não permitem concluir que os brasileiros, em geral, desconhecem Portugal ou a Geografia mundial.
Mas são situações que, para quem observa de fora e mantém contacto regular com brasileiros, suscitam uma pergunta legítima: que lugar ocupa a História de Portugal e da formação do Brasil na cultura geral dos brasileiros de hoje?
Uma herança que continua presente
Há, neste aspecto, uma curiosa contradição.
O Brasil tornou-se independente em 1822, mas a herança portuguesa não desapareceu com a independência. Continua presente na língua, em numerosos apelidos, em instituições, na arquitectura, na religião, na gastronomia, no direito e em muitos costumes que fazem parte da identidade brasileira.
Uma herança cultural pode permanecer durante séculos sem que aqueles que dela são herdeiros tenham consciência da sua origem.
O problema não é ter orgulho do presente
Uma sociedade moderna não precisa de viver prisioneira do passado.
Nem precisa de glorificar os seus antigos governantes, esconder os períodos negros da sua História ou transformar personagens históricas em santos nacionais.
Pelo contrário.
Conhecer a História implica conhecer os bons e os maus momentos. Implica saber quem venceu e quem perdeu, quem construiu e quem destruiu, quem foi herói para uns e adversário para outros.
A História adulta não precisa de propaganda.
Precisa de memória.
E talvez seja precisamente aqui que a questão de 1897 ganha interesse. Os próprios documentos oficiais sobre o ensino da História no Brasil reconhecem que, em diferentes períodos, a narrativa histórica escolar esteve ligada à construção da identidade nacional e à valorização de determinados heróis e acontecimentos. Documentos curriculares posteriores procuraram justamente promover uma leitura mais crítica das fontes, das memórias e das diferentes interpretações do passado.
Um país não pode escolher apenas a História de que gosta
Todos os países têm páginas gloriosas e páginas vergonhosas.
Portugal tem as suas. O Brasil tem as suas.
A França, a Espanha, o Reino Unido, os Estados Unidos, a Rússia ou qualquer outra nação também.
O problema começa quando a História deixa de ser instrumento de conhecimento e passa a ser apenas instrumento de conveniência.
Se o passado serve exclusivamente para justificar os fracassos do presente, transforma-se numa espécie de culpado permanente: tudo aconteceu antes, tudo foi culpa dos que vieram antes e, portanto, ninguém precisa de assumir responsabilidade pelo que acontece agora.
Mas o passado não governa sozinho o presente.
Mais de dois séculos depois da independência, o Brasil é responsável pelo seu próprio caminho.
Pode reconhecer a herança portuguesa sem deixar de ser brasileiro. Pode valorizar os povos indígenas sem apagar a influência europeia. Pode reconhecer a contribuição africana sem negar outras componentes da sua formação. Pode criticar a Monarquia sem transformar todo o período imperial numa caricatura. Pode criticar a República sem negar os avanços que ocorreram desde 1889.
Uma coisa não elimina a outra.
O Brasil tem História de sobra
Talvez seja essa a minha maior perplexidade.
O Brasil tem uma História gigantesca, complexa e fascinante. Tem povos indígenas com histórias anteriores à chegada dos portugueses, colonização, escravatura, resistência, miscigenação, bandeirantes, mineração, invasões estrangeiras, transferência da corte portuguesa, independência, Império, Abolição, República, revoltas, guerras, industrialização, imigração e uma extraordinária diversidade cultural.
É impossível compreender o Brasil actual sem conhecer uma parte significativa desse percurso.
E não é necessário gostar de tudo o que aconteceu. É necessário saber que aconteceu.
Porque um povo que conhece o seu passado está em melhores condições para discutir o seu presente. E um povo que desconhece o passado fica mais vulnerável a aceitar versões simplificadas daquilo que realmente aconteceu.
E o "portuleiro" entra onde?
Aqui entra a parte pessoal, e inevitavelmente mais divertida, desta história.
Depois de tantos anos de contacto com brasileiros, houve quem me atribuísse duas classificações que, confesso, recebi com bastante gosto:
"Portuleiro."
E, ainda melhor:
"O portuga mais brasuca que conhecem."
Talvez seja precisamente essa convivência prolongada com brasileiros que me tenha permitido olhar para o Brasil não apenas como o país que aparece nos mapas ou nas notícias, mas como uma sociedade extraordinariamente complexa, contraditória, criativa e ainda profundamente marcada pela sua própria História.
E é por isso que a minha crítica não nasce de rejeição.
Nasce, pelo contrário, de uma espécie de carinho adquirido ao longo dos anos.
O Brasil é demasiado grande, demasiado rico e demasiado importante para conhecer apenas uma versão de si próprio.
Um país não precisa de esquecer o passado para construir o futuro.
Precisa de o conhecer.
E, se possível, de o conhecer inteiro.
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Armindo Guimarães
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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Comentários
Comentários

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Querido menino Armindo, que Texto maravilhoso!
ResponderEliminarTudo o que colocas é de grande interesse, gostaria que a malta tomasse conhecimento.
Já a belíssima foto de ilustração é um convite para que se faça a leitura.
Parabéns pelo Teu trabalho, está fantástico!
Beijinhos! 🌹 😘