Conversa gratuita reúne artistas e pensadoras em torno da exposição As Palavras
A palavra como instrumento de transformação, reflexão e valorização do universo feminino
A exposição “As Palavras”, da artista e poeta visual carioca Suely Farhi, será o ponto de partida para uma conversa sobre a força transformadora da linguagem, na próxima quinta-feira, 5 de novembro, às 17h, no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), no Rio de Janeiro.
Intitulada “Palavra como fonte transformadora”, a conversa mediada será realizada na sala de cursos do CCJF, com entrada gratuita e aberta ao público. Participam Daniela Mattos, artista, educadora e psicanalista; Fatima Pinheiro, poeta, psicanalista e membro da Associação Mundial de Psicanálise; e Mariana Pimentel, teórica-doméstica e professora do Instituto de Artes e do PPGartes da UERJ.
Com curadoria de Luiza Interlenghi, a exposição reúne dez instalações produzidas entre 1994 e 2026, incluindo obras inéditas, tendo como eixo temático o universo feminino. É a primeira vez que Suely Farhi reúne trabalhos dedicados especificamente a essa temática.
O catálogo digital da exposição, de acesso gratuito, já está disponível no site da artista (www.suelyfarhi.com). Com 40 páginas, apresenta fotografias de todas as obras, imagens da exposição montada e um texto da curadora.
Segundo Luiza Interlenghi, Suely Farhi investiga o limiar entre palavra, imagem e espaço, explorando a capacidade da linguagem de transformar a realidade. Na sua concepção, as palavras desenham o invisível e aderem aos objetos para iluminar a força da mulher.
Obras inéditas exploram a linguagem e o universo feminino
Entre os destaques está a instalação inédita “Elogios às marias-sem-vergonha”, composta por vasos de vidro transparentes, sobrepostos e de diferentes tamanhos e formatos, cheios de água e com adjetivos positivos sobre as mulheres serigrafados nas suas superfícies.
A artista explica que, para ler todas as palavras, será necessário movimentar o corpo como numa dança. A obra nasceu de uma pesquisa sobre a flor maria-sem-vergonha, a partir da qual selecionou características positivas e negativas, atribuindo às últimas uma valorização através de sinónimos positivos.
Suely Farhi acrescenta que o vapor da água vai irradiando os elogios, criando uma espécie de contágio invisível, uma disseminação da palavra pelo ar.
Outra criação inédita, produzida em 2026, é “Suspiros alfabéticos”, constituída por 26 folhas de papel A2, dispostas num painel com dez metros de comprimento. Cada folha apresenta um desenho realizado com uma letra do alfabeto.
Duas dobras subtis em cada papel emolduram as letras e remetem para a forma da virilha. A artista associa a composição ao corpo feminino, mas também às estátuas de mármore. As letras, por sua vez, evocam o som, o suspiro e uma sensação interior.
Além das novas instalações, algumas obras anteriores foram atualizadas. A artista explica que os principais temas do seu trabalho são pontos de tensão, questionamento e pensamento. Reconhece também que o tempo presente permite identificar com maior clareza determinadas questões relacionadas com o universo feminino e com experiências anteriormente vividas sem serem verbalizadas.
Uma nova leitura sobre a condição feminina
É o caso de “O terceiro lado”, obra originalmente produzida em 2006 e agora reformulada para a exposição.
A instalação contém duas moedas douradas e envelhecidas, numa homenagem a D. Maria I, primeira rainha a governar Portugal, historicamente conhecida como “A Louca”.
Colocadas dentro de uma caixa, as moedas apresentam inscrições diferentes: numa, a palavra «louca» surge repetida três vezes; na outra, aparece «calou», também repetida três vezes, numa inversão das sílabas.
A artista associa a obra à forma como as mulheres são frequentemente classificadas como loucas ou levadas a silenciar-se antes que alguém as silencie.
Na nova versão, acrescentou um terceiro espaço, que permanecerá vazio. A intenção é propor uma reinvenção, uma nova possibilidade de saída, não apenas para as mulheres, mas para todos, abrindo um espaço de reflexão.
O espaço também faz parte da obra
Formada em arquitetura, Suely Farhi trabalha a relação entre espaço e palavra, explorando as características físicas e sensoriais dos ambientes.
A instalação “Geral da Geralda” é um exemplo dessa abordagem. Composta por uma vassoura de piaçava que empurra e sustenta uma parede, a obra cria a impressão de que a estrutura permanece levantada graças à força do objeto quotidiano.
Apresentada isoladamente numa sala, a instalação questiona as relações entre aquilo que sustenta e aquilo que é sustentado. Para a curadora Luiza Interlenghi, a obra convida o público a experimentar e compreender de outra maneira os objetos do dia a dia.
Outra proposta aposta na relação entre dimensão, iluminação e ambiente: uma pequena caixa de apenas 3,5 por 3,5 centímetros ocupará sozinha uma sala inteira. Iluminada no meio da escuridão, a peça procura atrair a atenção do visitante e provocar uma transformação através de uma única palavra. A artista antecipa que existe uma surpresa associada à experiência de reversão da perceção daquele espaço.
Obras anteriores regressam com novas leituras
A exposição recupera ainda “A noite dos desejos”, instalação de 1994 que será remontada especialmente para a ocasião.
Numa sala escura, pequenas luzes de velas LED surgem e desaparecem como estrelas cadentes. Para Luiza Interlenghi, a instalação conduz o olhar para o sublime e para o universo do sonho e do desejo, entendidos como formas de resistência ao enfraquecimento da arte enquanto necessidade vital.
Também integra a mostra o vídeo-poema “Barriga” (2010), apresentado como inédito. Nele, um céu com nuvens brancas dá lugar ao aparecimento gradual de uma esfera, no interior da qual surge a palavra «barriga». Num determinado momento, a saída da palavra «ar» deixa apenas «briga», antes de a sequência regressar ao início.
Suely Farhi descreve o trabalho como uma respiração, evocando o início da vida a entrar na matéria.
Completam a exposição desenhos-escritas e a instalação “Encontro dos extremos”, na qual duas taças de champanhe, identificadas pelas letras A e Z, aparecem encostadas numa posição de celebração e equilíbrio instável.
A artista explica que a composição representa um círculo que se fecha: A simboliza o princípio e Z o fim. As duas taças, apoiadas uma na outra, assumem simultaneamente a posição de um brinde.
SERVIÇO:
Conversa mediada – “Palavra como fonte transformadora”
Data: quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Horário: 17h
Participantes: Daniela Mattos, Fatima Pinheiro e Mariana Pimentel
Local: Sala de cursos do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF)
Endereço: Avenida Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro – RJ
Telefone: (21) 3261-2550
Entrada: gratuita
Exposição “As Palavras”, de Suely Farhi
Período: até 22 de novembro de 2026
Horário: de terça-feira a domingo, das 11h às 19h
Curadoria: Luiza Sobre a artistaInterlenghiSobre a artista
Sobre a artista
Suely Farhi nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, cidade onde vive e trabalha. Arquiteta, artista e poeta visual, explora os sentidos que emergem do encontro entre palavras e lugares.
Realizou diversas exposições individuais, nomeadamente no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), no Museu da República e no Paço Imperial. Participou em mais de uma centena de exposições coletivas no Brasil e no exterior, em países como Argentina, Bélgica, França, Inglaterra, Portugal, Cuba e Espanha.
É autora do livro Anotar, Apontar, Apagar! e recebeu importantes distinções, entre elas o prémio do Salão Vitor Meirelles e o Projéteis de Artes Visuais.
Participou também em antologias de poesia visual e exposições internacionais, como “Obra nome”, no Museu de Alcobaça, em Portugal; “Yá sé leer – imagen y escritura en el arte latinoamericano”, em Havana, Cuba; “Europalia”, no Bozar, em Bruxelas; e “Visualidades Brasileiras – Funarte 50 anos”, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.
Sobre o Centro Cultural Justiça Federal
O Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) é um espaço dedicado à promoção e democratização do acesso à cultura, acolhendo exposições, peças teatrais, espetáculos de dança e música, mostras de cinema, cursos, palestras e outras manifestações artísticas.
Instalado num edifício de grande valor histórico e arquitetónico, destaca-se pelas portas monumentais, pela escadaria de ferro e mármore e pelo vitral principal. A antiga Sala de Sessões do Supremo Tribunal Federal conserva o mobiliário original de 1938, além de elementos decorativos como vitrais e pinturas murais.
Atualmente, integra o Quadrilátero Cultural da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, que reúne importantes instituições culturais e edifícios históricos da cidade.
Em 2026, ao completar 25 anos, o CCJF celebra a transformação de um antigo ícone do Poder Judiciário num espaço de arte, cultura, cidadania e preservação da memória.
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A exposição “As Palavras”, de Suely Farhi, convida-nos a descobrir como a linguagem pode ultrapassar a simples comunicação e tornar-se instrumento de reflexão, questionamento e transformação. Ao cruzar palavras, imagens, objetos e espaços, a artista dá visibilidade a questões relacionadas com o universo feminino, mas propõe também uma reflexão mais abrangente sobre a condição humana. Uma exposição que demonstra que, por vezes, uma única palavra pode abrir caminhos para novas formas de pensar e olhar o mundo.
Conversa gratuita reúne artistas e pensadoras em torno da exposição As Palavras
Obras inéditas exploram a linguagem e o universo feminino
Uma nova leitura sobre a condição feminina
O espaço também faz parte da obra
Obras anteriores regressam com novas leituras
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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