Uma feira medieval, uma pulseira e um ciclo de onde ninguém regressa igual
"Nem todas as entradas têm saída — algumas cobram-se em tempo." Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Portugal é terra onde a história e a lenda se fundem, especialmente nos castelos medievais que guardam segredos de sangue, pactos e presságios. Almourol, Leiria, Óbidos, Santa Maria da Feira... cada pedra sussurra histórias de mouras encantadas, amores condenados e tempos que não deveriam ter sido esquecidos.
No verão, as feiras medievais recriam esse passado com obsessiva precisão. A Viagem Medieval em Terra de Santa Maria, a maior da Europa, transforma a cidade num labirinto vivo durante doze dias: mil e seiscentos figurantes, centenas de espetáculos, odores de carne assada e ferro, gritos que ecoam entre muralhas.
Afonso Dias nunca tinha pisado um daqueles recintos. Até à noite em que decidiu entrar.
À entrada, entregaram-lhe uma pulseira de plástico preto, fria ao toque. "Permite o acesso a todas as recriações", disseram.
Pelas ruas de terra batida, saltimbancos, malabaristas e cuspidores de fogo teciam ilusões sob a luz trémula das tochas. Afonso seguiu o fluxo até ao Jardim dos Encantamentos. Tendas de veludo, bruxos, meigas. Entrou numa por curiosidade — ou talvez por aquele impulso imprudente que antecede os erros irreversíveis.
Mal atravessou o pano, uma voz rouca, funda, ergueu-se na penumbra:
— Xa tardabas, rapaz… a pulseira xa leva horas contigo, e o tempo non gosta de agardar.
Ela virou-se devagar. Nos olhos, havia uma luz baça, antiga, como quem guarda memórias que não lhe pertencem.
Era Rosália.
Usava uma fita branca na testa, prendendo os cabelos negros emaranhados. Ao centro, uma runa. Afonso reconheceu-a — Hagalaz, na forma de um H. Sabia também que as meigas galegas não previam o futuro. Liavam-se com o tempo de outras formas.
Rosália pousou a mão sobre a pulseira. O plástico pareceu ceder, como se respirasse.
— Vas facer a maior viaxe da túa vida… pero o regreso non sempre atopa camiño. Todo dependerá do que fagas con isto. Vai con Deus… se aínda lembra o teu nome.
— Quanto lhe devo? — perguntou Afonso, já com a carteira na mão.
Ela não sorriu. Nem olhou para o dinheiro.
— Nada. Por agora.
— Por agora?
O olhar dela ergueu-se lentamente, pesado de silêncio.
— Se volves ao xardín, pagarás… — se non volves… non pagarás nunca.
Afonso recuou. Naquele instante, percebeu: não era um presente. Era um empréstimo.
E as dívidas de tempo têm juros.
Saiu com a pele arrepiada. Mas o mundo já não era o mesmo.
Um saltimbanco fitava-o sem piscar. Um pedinte sussurrou o seu nome. Um cavaleiro passou — e as manchas na armadura não eram ferrugem.
Depois, o caos.
O assalto ao castelo começou sem aviso. Gritos. Ferro contra ferro. O cheiro a sangue.
Um homem caiu aos seus pés, uma seta cravada no peito.
— Usa… a pulseira... — sussurrou.
As runas acenderam-se em azul. Afonso pressionou.
O tempo dobrou-se.
A realidade rasgou-se. E depois—
Afonso sente a mente fragmentar-se. A feira gira à volta dele como um carrossel descontrolado.
Quando acorda, está no chão, rodeado de visitantes preocupados.
Ergue-se. As pessoas afastam-se.
Então vê, ao longe, as pequenas tendas. O Jardim dos Encantamentos.
Avança.
Mas a tenda já não está lá.
No seu lugar, uma criança brinca com espada e escudo de madeira. Na testa, a fita branca com a runa.
No pulso—
A pulseira.
Afonso aproxima-se. O coração acelera.
É igual à sua. Ou era.
As palavras regressam-lhe:
"Todo dependerá do que fagas con isto."
Levanta o braço.
O pulso está vazio.
Não a tinha.
A criança pára.
Ergue o olhar.
Sorri.
— Demoraste.
A voz não é de criança.
Afonso tenta recuar.
Não consegue.
A pulseira no pulso da criança pulsa em azul.
— Disseste que voltavas para pagar.
As tochas apagam-se.
— E voltaste.
O mundo dobra-se. A criança ergue a mão.
— Agora és tu que ficas.
Tudo desaparece.
Antes da escuridão, Afonso vê a criança retirar a pulseira... e entregá-la a alguém atrás dele.
Uma voz nova: — Isto dá acesso a tudo?
Escuridão.
A feira recomeça. E Afonso… já não está a sair dela.
Está à espera.
Nota do Editor – Portal Splish Splash No cruzamento entre tradição ibérica e ficção científica sombria, este conto mergulha o leitor num ciclo inquietante onde o tempo cobra o seu preço. Uma narrativa envolvente, com forte identidade cultural e um final que permanece.
Uma feira medieval, uma pulseira e um ciclo de onde ninguém regressa igual
Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
No verão, as feiras medievais recriam esse passado com obsessiva precisão. A Viagem Medieval em Terra de Santa Maria, a maior da Europa, transforma a cidade num labirinto vivo durante doze dias: mil e seiscentos figurantes, centenas de espetáculos, odores de carne assada e ferro, gritos que ecoam entre muralhas.
Afonso Dias nunca tinha pisado um daqueles recintos. Até à noite em que decidiu entrar.
À entrada, entregaram-lhe uma pulseira de plástico preto, fria ao toque. "Permite o acesso a todas as recriações", disseram.
Pelas ruas de terra batida, saltimbancos, malabaristas e cuspidores de fogo teciam ilusões sob a luz trémula das tochas. Afonso seguiu o fluxo até ao Jardim dos Encantamentos. Tendas de veludo, bruxos, meigas. Entrou numa por curiosidade — ou talvez por aquele impulso imprudente que antecede os erros irreversíveis.
Mal atravessou o pano, uma voz rouca, funda, ergueu-se na penumbra:
— Xa tardabas, rapaz… a pulseira xa leva horas contigo, e o tempo non gosta de agardar.
Ela virou-se devagar. Nos olhos, havia uma luz baça, antiga, como quem guarda memórias que não lhe pertencem.
Era Rosália.
Usava uma fita branca na testa, prendendo os cabelos negros emaranhados. Ao centro, uma runa. Afonso reconheceu-a — Hagalaz, na forma de um H. Sabia também que as meigas galegas não previam o futuro. Liavam-se com o tempo de outras formas.
Rosália pousou a mão sobre a pulseira. O plástico pareceu ceder, como se respirasse.
— Vas facer a maior viaxe da túa vida… pero o regreso non sempre atopa camiño. Todo dependerá do que fagas con isto. Vai con Deus… se aínda lembra o teu nome.
— Quanto lhe devo? — perguntou Afonso, já com a carteira na mão.
Ela não sorriu. Nem olhou para o dinheiro.
— Nada. Por agora.
— Por agora?
O olhar dela ergueu-se lentamente, pesado de silêncio.
— Se volves ao xardín, pagarás…
— se non volves… non pagarás nunca.
Afonso recuou. Naquele instante, percebeu: não era um presente. Era um empréstimo.
E as dívidas de tempo têm juros.
Saiu com a pele arrepiada. Mas o mundo já não era o mesmo.
Um saltimbanco fitava-o sem piscar. Um pedinte sussurrou o seu nome. Um cavaleiro passou — e as manchas na armadura não eram ferrugem.
Depois, o caos.
O assalto ao castelo começou sem aviso. Gritos. Ferro contra ferro. O cheiro a sangue.
Um homem caiu aos seus pés, uma seta cravada no peito.
— Usa… a pulseira... — sussurrou.
As runas acenderam-se em azul. Afonso pressionou.
O tempo dobrou-se.
A realidade rasgou-se. E depois—
Afonso sente a mente fragmentar-se. A feira gira à volta dele como um carrossel descontrolado.
Quando acorda, está no chão, rodeado de visitantes preocupados.
Ergue-se. As pessoas afastam-se.
Então vê, ao longe, as pequenas tendas. O Jardim dos Encantamentos.
Avança.
Mas a tenda já não está lá.
No seu lugar, uma criança brinca com espada e escudo de madeira. Na testa, a fita branca com a runa.
No pulso—
A pulseira.
Afonso aproxima-se. O coração acelera.
É igual à sua. Ou era.
As palavras regressam-lhe:
"Todo dependerá do que fagas con isto."
Levanta o braço.
O pulso está vazio.
Não a tinha.
A criança pára.
Ergue o olhar.
Sorri.
— Demoraste.
A voz não é de criança.
Afonso tenta recuar.
Não consegue.
A pulseira no pulso da criança pulsa em azul.
— Disseste que voltavas para pagar.
As tochas apagam-se.
— E voltaste.
O mundo dobra-se. A criança ergue a mão.
— Agora és tu que ficas.
Tudo desaparece.
Antes da escuridão, Afonso vê a criança retirar a pulseira... e entregá-la a alguém atrás dele.
Uma voz nova: — Isto dá acesso a tudo?
Escuridão.
A feira recomeça. E Afonso… já não está a sair dela.
Está à espera.
Nota do Editor – Portal Splish Splash
No cruzamento entre tradição ibérica e ficção científica sombria, este conto mergulha o leitor num ciclo inquietante onde o tempo cobra o seu preço. Uma narrativa envolvente, com forte identidade cultural e um final que permanece.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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