Um ano sem smartphones na sala de aula: e agora?

Um ano após a proibição de smartphones nas escolas, especialistas analisam ganhos, desafios e o papel da tecnologia colaborativa na educação.
 Lei que proíbe smartphones nas salas de aula completa um ano no Brasil

A lei mudou o silêncio das salas, mas o verdadeiro teste começa no engajamento


Silêncio em sala não é sinónimo de aprendizagem



Por: Paulo Cardoso*

Há exatamente um ano, a polêmica Lei 15.100/2025 se propôs a mudar radicalmente um dos principais desafios na luta pela atenção de alunos em sala de aula. Em todas as escolas do país, públicas e privadas, passou a ser regulado o uso de smartphones em sala de aula.

O motivo? Estima-se que o brasileiro passa, em média, 9 horas por dia na tela do aparelho, principalmente tomadas pelo chamado "doom scrolling", a visualização excessiva de conteúdos rápidos nas redes sociais.

À primeira vista, os números colhidos ao passar deste ano são bem animadores e comprovam o efeito esperado: 8 em cada 10 alunos relataram prestar mais atenção nas aulas, segundo um levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação (FPME). Para os mais jovens, do ensino fundamental, o número chega a impressionantes 88%.

Pensando no cenário ideal: sem a distração do smartphone, os alunos voltaram a escrever, registrar aulas no caderno e se engajar em sala de aula. Nos intervalos, a interação entre colegas ganha novamente um significado de socialização e atividades em grupo. E de fato melhoramos em muitos destes pontos, mas ainda existe uma transformação em curso que não será tão fácil ou óbvia.

A adaptação do segundo ano: o efeito dopaminérgico na "ilha” tecnológica
Fora das escolas, as gerações Z e Alpha estão hiperconectadas e digitalizadas, partindo das relações sociais às formas de consumo de produtos e informação. Tirar este ambiente à força e "ilhar" os alunos do mundo digital começou a impor outros desafios inesperados.

O mesmo estudo da FPME mostra que 44% dos alunos relataram sentir tédio depois da mudança, e 49% dos professores identificaram aumento na ansiedade dos alunos. Então, o que esses números todos realmente estão dizendo?

Conversando com muitos docentes, chegamos a um consenso: tirou-se do aluno um hiperestímulo que não foi reposto com algo igualmente envolvente. São gerações que cresceram em ambientes de gratificação instantânea e interfaces gamificadas com controle sob o conteúdo. Enquanto isso, a forma tradicional de ensino segue devagar, analógica e sem entregar ao aluno uma forma de interagir com aquilo.

Quimicamente, estamos entregando algo pouco estimulante a mentes que estão viciadas em explosões dopaminérgicas, e sem criar um meio de campo para isso. A solução seria voltarmos 20 anos no tempo e adotar o ensino que se manteve inalterado por séculos, ou nos adaptarmos a essas novas expectativas geracionais?

Pesquisas globais sobre restrição no uso de smartphones demonstram que as políticas de proibição funcionam melhor quando combinadas com alguns fatores, entre eles: programas claros de educação digital, poder de engajamento dos alunos com o conteúdo, e professores capacitados para integrar dispositivos digitais com o conteúdo de aula. Não se trata de uma disputa de tecnologia versus educação tradicional, e sim de tecnologia a serviço da educação.

Ferramentas de colaboração como elo de aprendizagem
Entre as mudanças necessárias, precisamos evoluir de salas de aula que competem pela atenção para salas de aula que a capturam naturalmente através de interação significativa. E isso tem implicações práticas imediatas.

A solução, ao meu ver, não é banir a tecnologia, mas mudar o hardware da “distração” pelo hardware da colaboração. Onde antes havia um dispositivo individualista e isolante, agora precisamos ter interatividade, ecossistemas de colaboração e ferramentas para colocar o professor no centro da tecnologia para o aluno, e não o contrário. 

Lousas digitais e interativas, por exemplo, permitem que professores transformem aulas expositivas em sessões colaborativas onde estudantes manipulam conceitos em tempo real. Plataformas de resposta instantânea convertem avaliações passivas em experiências dinâmicas com atividades de desenho com IA, quiz de conhecimento, jogos colaborativos, conteúdos visuais dinâmicos e muito mais.

Mas não se trata apenas de adotar a tecnologia. A verdadeira troca está em trazer a presença do aluno para perto e valorizar a contribuição e o papel dele, assim como ele tem nos ambientes digitais. Retemos mais informação quando interagem ativamente com o conteúdo, comparado a aulas puramente expositivas. A interatividade não é um extra — é como o cérebro humano funciona melhor. As melhores histórias, afinal, são aquelas que nos fazem sentir parte delas.

América Latina cresce o uso de tecnologia para ensino nas escolas 
Um exemplo recente é a Ingenia School, no Peru, que enfrentou exatamente este desafio de engajamento com os jovens, substituindo os antigos projetores por 99 telas interativas para todas as salas para que pudessem ter mais contato com ferramentas de realidade virtual e IA.

A administradora da escola, Zoyla Ayme, relatou que essa mudança, junto com a capacitação de 300 docentes, trouxe resultados já no primeiro ano, com maior participação em classe, aprendizagens mais dinâmicas e um incremento nos indicadores de rendimento acadêmico.

E vemos casos como este se repetindo em toda a América Latina e que agora ganham oportunidade de tração no Brasil, inclusive pelo ensino público, que está investindo boa parte dos recursos da educação para o avanço tecnológico.

Como vencemos a guerra da atenção pelo aluno?
Voltamos, então, à questão central: a atenção dos alunos vai se manter? A minha resposta honesta é que não vai se manter se mantivermos o ensino nos moldes tradicionais. A neuroplasticidade que permitiu às novas gerações se adaptarem rapidamente à ausência dos smartphones é a mesma que fará com que se sintam desengajados com atividades pouco interativas e dinâmicas.

E estamos no caminho certo? Hoje, uma parcela significativa das escolas privadas está tecnologicamente equipada, e vemos que há investimentos importantes sendo feitos pelos Estados e municipalidades. Escolas que investirem em modernizar suas práticas pedagógicas com ferramentas interativas, ambientes colaborativos e metodologias ativas verão os ganhos se consolidarem e crescerem.

A lei de restrição do uso dos smartphones não pode ser um pretexto para o retrocesso pedagógico. O segundo ano da lei deve ser marcado pela capacitação tecnológica da sala de aula. Precisamos de espaços onde a colaboração seja a regra e onde as ferramentas digitais servem como catalisadores para o conhecimento, e não como distrações.

O Brasil tem a oportunidade de ser referência global não apenas na regulação do uso de smartphones nas escolas, mas em demonstrar como transformar esse espaço reconquistado em aprendizagem verdadeiramente significativa. Basta ouvir o que as novas gerações esperam do ambiente escolar. Porque, no final, atenção sem engajamento é apenas silêncio, e os alunos querem ser ouvidos em vez de apenas ouvir.

*Paulo Cardoso lidera a operação da ViewSonic no Brasil. É um executivo experiente em tecnologia com cerca de 30 anos de experiência nas indústrias de tecnologia, telecomunicações, colaboração em vídeo, jogos e transformação digital. Paulo ocupou papéis de liderança cruciais em vendas, marketing, parcerias estratégicas e desenvolvimento de canais em empresas globais de destaque, incluindo Logitech, Lifesize, TD SYNNEX, Westcon Group, ScanSource, Nortel Networks, Tech Data e Bull Corporation. Paulo Cardoso é formado em Comunicação & Marketing, com especializações em Telecomunicações, Transformação Digital, Inteligência Artificial e Assessoria para Conselhos Executivos.

Nota do Editor – Portal Splish Splash
O debate em torno do uso de smartphones na escola não se esgota na proibição. A verdadeira questão é como transformar a atenção recuperada em aprendizagem relevante, inclusiva e alinhada com o mundo em que os alunos já vivem.



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