Trio de Florianópolis aprofunda a MPB setentista e revisita Belchior
Um disco politizado, brasileiro e sem medo de mudar de rota
“Pelas Ruas das Américas”, terceiro álbum dos Outros Bárbaros, marca uma nova fase da banda de Florianópolis. Agora em formato de trio, Maurício Peixoto (voz e guitarra), Eduardo Lehr (baixo) e Marco Mibach (bateria e percussão) ampliam o diálogo com a música brasileira, aprofundando um caminho já iniciado em “Interlúdio na beira do caos” (2022). O resultado é um trabalho coeso, politizado e esteticamente mais orgânico, onde a MPB dos anos 70 surge como referência clara, sem que o som perca modernidade ou identidade própria.
Com dez faixas no alinhamento, o álbum reúne os singles “Fortaleza hostil” e “Nós dois”, já conhecidos do público, além da faixa bônus “Brasil Criança”, lançada em 2023. Quase todas as composições levam a assinatura de Maurício Peixoto, exceção feita a “Sem paz, sem chão”, escrita em parceria com Neno Moura, e “Bicho acuado”, que incorpora versos de Jean Mafra. O momento mais emblemático do disco vem com a releitura de “Alucinação”, clássico de Belchior (1946–2017), única canção não autoral do álbum e escolha carregada de simbolismo.
Gravado no Bárbaro Estúdio, no Canto da Lagoa, em Florianópolis, o disco foi mixado e masterizado por Alexei Leão, em Setúbal, Portugal. A faixa-título conta com a participação do ex-integrante Diego Stecanela, enquanto Donatinho surge como convidado especial em “Enfim, renascerá”, assumindo piano elétrico e sintetizadores. Os arranjos de metais, assinados por Hemerson Calandrini, aparecem em “Pelas Ruas das Américas”, “Sem paz, sem chão” e “Cheguei, cadê você?”, com trombone de Calandrini e trompete de Rafael Almir da Silva. Alexandre Damaria completa o time de convidados no pandeiro, em “Sem paz, sem chão”. Todo o processo de produção foi acompanhado por um minidocumentário dirigido por Antonio Rossa.
Segundo Maurício Peixoto, o disco reflete um momento de maior liberdade criativa e de reencontro com influências que sempre estiveram presentes no ADN da banda: A música brasileira está muito forte neste álbum, talvez de forma mais ampla do que nos anteriores, com uma vibração MPB dos anos 70. A escolha por mais ambiência sonora vem daí, mas sem deixar de soar atual. Este disco é um grande quebra-cabeça, um caleidoscópio. São canções que eu ainda não tinha levado para a banda e que fizeram sentido agora. Os singles são os pontos mais próximos do que já fazíamos; o resto aponta para territórios que explorámos pouco até aqui.
A inclusão de “Alucinação” no repertório nasce também de um percurso recente da banda. Após o lançamento de “Brasil Criança”, no final de 2023, os planos para um novo álbum acabaram adiados, em parte devido a um tributo a Belchior que os Outros Bárbaros levaram aos palcos da região. Regravar a faixa-título do disco que completa 50 anos em 2026 tornou-se, assim, um gesto natural e coerente com a sonoridade buscada em “Pelas Ruas das Américas”. A versão foi submetida à editora responsável pela obra e aprovada pela família do artista.
Peixoto recorda que a escolha não foi aleatória: Belchior é unanimidade na banda. Fizemos um tributo especial ao disco “Alucinação”, tocado na íntegra, misturado com músicas nossas. Quando surgiu a ideia de gravar a canção, queríamos algo que não estivesse colado à voz de outro intérprete, mas que também não fosse obscuro. O processo de aprovação foi rápido e tudo fez ainda mais sentido quando percebemos que o disco completa 50 anos em 2026.
“Pelas Ruas das Américas” já está disponível nas plataformas digitais e confirma os Outros Bárbaros como uma banda em movimento, atenta ao tempo presente, mas com raízes bem fincadas na história da canção brasileira.
Nota do Editor – Portal Splish Splash
“Pelas Ruas das Américas” não é apenas um novo álbum, é uma tomada de posição artística. Os Outros Bárbaros mostram que maturidade também é saber escutar o passado para dizer algo relevante no presente.
Trio de Florianópolis aprofunda a MPB setentista e revisita Belchior
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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