Não por pecado, mas por excesso de realidade no mar dos Descobrimentos
Não foi o diabo que o afastou de Deus, foi o convés
"Há silêncios que nenhuma oração consegue preencher." Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Embarcou com a fé bem agarrada ao peito e os salmos na memória. Era padre, confessor, conselheiro espiritual e, em teoria, a âncora moral de homens lançados ao desconhecido. Como tantos outros clérigos que acompanharam as armadas — de Frei Henrique de Coimbra, que celebrou a primeira missa no Brasil, ao infatigável Padre Francisco Álvares, que enfrentou mares e desertos até à Etiópia — também ele acreditava que a sua presença era parte da missão divina de Portugal. A sua tarefa era clara: confortar, absolver, rezar — e lembrar que Deus também navegava naquela nau.
Mas o mar não tardou a desfazer certezas.
Dias transformaram-se em semanas de fome lenta. A bolacha apodrecia, a água sabia a ferrugem, e os corpos cediam antes das orações. Homens morreram sem confissão, atirados ao oceano como lastro inútil. Crianças embarcadas como pajens deixaram de acordar. Doentes gritavam por alívio enquanto o casco rangia e o céu permanecia indiferente. O padre rezava. Rezava muito. E nada mudava.
Recordou então as palavras de Fernão Mendes Pinto, que escrevera sobre "misérias nunca vistas nem imaginadas", e percebeu que a literatura, por mais exagerada que parecesse, talvez tivesse sido apenas honesta. Lembrou-se também de como Camões, no Canto V d’Os Lusíadas, fizera os marinheiros implorar a Deus no meio da tormenta — mas ali, na vida real, o céu parecia não responder a ninguém.
Não perdeu a fé por luxúria, heresia ou tentação. Perdeu-a por excesso de realidade. Demasiada miséria para caber numa explicação simples. Demasiada morte para ser apenas provação. Demasiado silêncio de Deus para continuar a chamar-lhe presença.
Continuou a celebrar missas — por hábito, não por convicção. Continuou a ouvir confissões — mais como homem do que como intermediário divino. As palavras saíam-lhe da boca, mas já não lhe pertenciam. O céu, esse, parecia tão distante como a terra prometida.
Nos naufrágios, viu homens rezarem com uma fé que ele já não tinha. Nos sobreviventes, encontrou mais humanidade do que nos sermões decorados. E percebeu, com desconforto, que a fé dos simples resistia melhor do que a dos instruídos. Lembrou-se então de Frei Gaspar da Cruz, que regressou do Oriente com dúvidas maiores do que certezas; e do próprio Álvares, que confessou ter visto "coisas que só Deus sabe explicar". Percebeu que não estava sozinho — apenas ninguém falava dessas sombras.
Quando regressou — se regressou — ninguém lhe perguntou o que perdera no mar. Esperavam relatos edificantes, milagres, conversões. Ele ofereceu silêncio. Porque há viagens que não roubam o corpo, mas desmantelam o altar interior.
Não deixou de acreditar em Deus. Deixou de conseguir explicá-lo.
Nota do Editor – Portal Splish Splash A presença de clérigos a bordo era comum nas grandes viagens oceânicas. Alguns, como Frei Henrique de Coimbra, deixaram marcas luminosas; outros, como Gaspar da Cruz, regressaram com inquietações profundas. A literatura — de Os Lusíadas às memórias de Álvares e Mendes Pinto — regista glórias e tormentas, mas pouco revela sobre o impacto psicológico e espiritual que a experiência marítima extrema teve sobre muitos destes homens. Nem todas as crises de fé nasceram do pecado — algumas nasceram da realidade nua e crua.
Dados adicionais Este texto integra uma série dedicada às figuras essenciais e esquecidas dos Descobrimentos portugueses, cuja importância foi tão grande quanto o silêncio que as envolveu. As obras que sustentam esta investigação podem ser consultadas na página Referências e Fontes.
Não por pecado, mas por excesso de realidade no mar dos Descobrimentos
Não foi o diabo que o afastou de Deus, foi o convésVímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Mas o mar não tardou a desfazer certezas.
Dias transformaram-se em semanas de fome lenta. A bolacha apodrecia, a água sabia a ferrugem, e os corpos cediam antes das orações. Homens morreram sem confissão, atirados ao oceano como lastro inútil. Crianças embarcadas como pajens deixaram de acordar. Doentes gritavam por alívio enquanto o casco rangia e o céu permanecia indiferente. O padre rezava. Rezava muito. E nada mudava.
Recordou então as palavras de Fernão Mendes Pinto, que escrevera sobre "misérias nunca vistas nem imaginadas", e percebeu que a literatura, por mais exagerada que parecesse, talvez tivesse sido apenas honesta. Lembrou-se também de como Camões, no Canto V d’Os Lusíadas, fizera os marinheiros implorar a Deus no meio da tormenta — mas ali, na vida real, o céu parecia não responder a ninguém.
Não perdeu a fé por luxúria, heresia ou tentação. Perdeu-a por excesso de realidade. Demasiada miséria para caber numa explicação simples. Demasiada morte para ser apenas provação. Demasiado silêncio de Deus para continuar a chamar-lhe presença.
Continuou a celebrar missas — por hábito, não por convicção. Continuou a ouvir confissões — mais como homem do que como intermediário divino. As palavras saíam-lhe da boca, mas já não lhe pertenciam. O céu, esse, parecia tão distante como a terra prometida.
Nos naufrágios, viu homens rezarem com uma fé que ele já não tinha. Nos sobreviventes, encontrou mais humanidade do que nos sermões decorados. E percebeu, com desconforto, que a fé dos simples resistia melhor do que a dos instruídos. Lembrou-se então de Frei Gaspar da Cruz, que regressou do Oriente com dúvidas maiores do que certezas; e do próprio Álvares, que confessou ter visto "coisas que só Deus sabe explicar". Percebeu que não estava sozinho — apenas ninguém falava dessas sombras.
Quando regressou — se regressou — ninguém lhe perguntou o que perdera no mar. Esperavam relatos edificantes, milagres, conversões. Ele ofereceu silêncio. Porque há viagens que não roubam o corpo, mas desmantelam o altar interior.
Não deixou de acreditar em Deus. Deixou de conseguir explicá-lo.
Nota do Editor – Portal Splish Splash
A presença de clérigos a bordo era comum nas grandes viagens oceânicas. Alguns, como Frei Henrique de Coimbra, deixaram marcas luminosas; outros, como Gaspar da Cruz, regressaram com inquietações profundas. A literatura — de Os Lusíadas às memórias de Álvares e Mendes Pinto — regista glórias e tormentas, mas pouco revela sobre o impacto psicológico e espiritual que a experiência marítima extrema teve sobre muitos destes homens. Nem todas as crises de fé nasceram do pecado — algumas nasceram da realidade nua e crua.
Dados adicionais
Este texto integra uma série dedicada às figuras essenciais e esquecidas dos Descobrimentos portugueses, cuja importância foi tão grande quanto o silêncio que as envolveu.
As obras que sustentam esta investigação podem ser consultadas na página Referências e Fontes.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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