Saga mineira mistura sobrenatural, trauma e herança colonial
O passado não morre. No máximo, muda de quarto dentro da mesma casa.
"Há famílias onde os retratos pesam mais do que as paredes."
Alba Fraga Bittencourt
Publicado pela Editora Mondru, o romance Flores Astrais marca a estreia literária de Marcelo Nery com uma narrativa que mergulha nas entranhas do Brasil rural através de uma saga familiar gótica ambientada no interior de Minas Gerais. A história acompanha o regresso de Tiago Amaral Grandi à fazenda de café da família após a morte do pai, obrigando-o a confrontar não apenas as memórias que deixou para trás, mas também os fantasmas — literais e simbólicos — que continuam a habitar o casarão e a própria linhagem.
A trama desenrola-se em 1980, quando Tiago, jornalista gay de meia-idade, retorna à Fazenda Grandi depois de duas décadas de ausência. Entre corredores que guardam segredos e silêncios que dizem mais do que palavras, ele enfrenta o legado do pai Franco, a presença perturbadora da tia Augusta e os vestígios do suicídio da mãe, Serena. O reencontro com esse passado revela uma teia de preconceitos, hierarquias raciais e dinâmicas de poder que atravessam gerações.
Mais do que um exercício de fantasia, Flores Astrais constrói uma alegoria incisiva sobre a herança colonial brasileira. Ao oscilar entre o real e o espectral, a narrativa expõe aquilo que frequentemente se esconde sob discursos de moralidade, fé e tradição. Luto, religiosidade, racismo e homossexualidade são abordados com profundidade psicológica e simbólica, através de uma estrutura não linear que reflete o funcionamento fragmentado da memória.
O processo de escrita envolveu dois anos de investigação histórica e um mergulho nas experiências pessoais do autor enquanto criança gay no interior mineiro. A estética da obra dialoga com o drama das telenovelas e minisséries, equilibrando mistério, crítica social e uma dose assumida de kitsch. Influenciado por nomes como Agatha Christie e Edgar Allan Poe, além da tradição oral mineira, Marcelo Nery constrói uma linguagem simultaneamente poética e direta, marcada por tensão subterrânea, ironia e um inesperado aconchego.
Com formação em Ciência da Computação, Marcelo foi professor universitário durante 16 anos e coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas. Atualmente atua como coordenador de game design na ARVORE Immersive Experiences, desenvolvendo projetos para empresas como Meta e Universal Studios. A sua bagagem multidisciplinar — que atravessa o ensino, o design de jogos e o tarô — reflete-se numa escrita que combina método e intuição.
Além de Flores Astrais, o autor prepara novos projetos, entre eles o romance Não se engane com a morte, centrado no tema do gaslighting, e a distopia Manual para se criar monstros, desenvolvida sob mentoria de Celso Taddei, finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Flores Astrais recorda-nos que o verdadeiro terror raramente vem de fora: está nas histórias que se repetem em silêncio dentro das famílias, nas tradições que se mantêm sem pergunta e nos fantasmas que herdamos sem saber.
Saga mineira mistura sobrenatural, trauma e herança colonial
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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