Vera Mantero apresenta no CCB uma criação rara com elenco original
Há espetáculos que passam. Outros ficam à espera do tempo certo. Este esperou vinte e cinco anos para chegar a Lisboa.
Em 2001, “Um Estar Aqui Cheio”, de Vera Mantero, foi apresentado apenas em três salas. Um acontecimento quase secreto na história recente da dança contemporânea portuguesa. Agora, um quarto de século depois da estreia, a peça sobe finalmente ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com o elenco original, como quem reabre um livro raro e ainda vibrante.
No dia 26 de fevereiro, quinta-feira, às 20h00, o CCB acolhe esta criação que nasceu de uma residência artística em Brest, no âmbito da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, em colaboração com o Le Quartz. O que ali se fez não foi apenas preparar um espetáculo. Foi pensar em conjunto. E pensar, para Vera Mantero, é um verbo físico.
Durante um mês, nove artistas reuniram-se para explorar questões que não cabem em respostas rápidas: como surge a energia? O que nos põe em movimento? O que alimenta a curiosidade? Como atravessar a vida aproveitando toda a potência do corpo e do desejo? A partir dessas interrogações, coreógrafos, performers, músicos e artistas visuais improvisaram, discutiram, observaram e criaram ligações entre palavras, ações, sons, espaços e objetos.
O resultado não é facilmente catalogável. Não é apenas dança. Não é apenas concerto. Não é apenas conferência ou instalação. É tudo isso, por vezes sucessivamente, por vezes ao mesmo tempo. É uma peça que convoca o público para ocupar o seu próprio lugar, seja no espaço, no tempo ou na percepção. Aqui, estar não é passivo. É participar.
“Um Estar Aqui Cheio” propõe habitar zonas menos lineares da existência. Lugares menos funcionais, menos explicáveis, mas profundamente necessários. Porque não há função que faça sentido se não houver antes presença. Não há movimento verdadeiro sem desejo. Não há desejo sem abertura.
A criação parte da ideia de afinar o ser a outras linguagens — as do corpo, da percepção, da sensorialidade. Linguagens que escapam à explicação racional, mas que dizem mais do que muitas palavras. A peça é, nesse sentido, um exercício de escuta e emissão: ouvir o que nos atravessa e responder-lhe com ação.
As ligações entre liberdade e desejo. Entre abertura e emergência de movimento. Criar aquilo que cria movimento. Criar o que cria desejo. Incluir na vida toda a potência do corpo e do seu saber. Compreender a vida sensualmente e socialmente. Viver na presença de um padrão poético. Continuar a ler o mundo e a criar mundo. Dar sentido ao estar aqui. Um estar aqui cheio — necessariamente cheio de troca e partilha.
No final do espetáculo, haverá conversa com os artistas e com Vera Santos, prolongando o gesto inicial: pensar em conjunto.
Ficha Artística e Técnica
Direção Artística Vera Mantero
Assistência de Direção Artística David Marques
Conceção Visual/Instalação Nadia Lauro
Criação e Performance António Poppe, João Samões, Litó Walkey, Luís Guerra (Martin Nachbar na criação original), Sabina Holzer, Vera Mantero
Banda Sonora e Interpretação ao Vivo Boris Hauf
Criação de Vídeo Helena Inverno
Desenho de Luz Jean-Michel Le Lez
Direção Técnica Hugo Coelho – Aldeia da Luz
Textos Herberto Helder, William Shakespeare
Produção O Rumo do Fumo
Produção Executiva João Albano, Carlota Borges Lloret/O Rumo do Fumo
Coprodução Le Quartz-Scène Nationale de Brest, Balleteatro Auditório, Teatro Nacional de São João, Porto2001 Capital Europeia da Cultura
as ligações entre liberdade e desejo. entre abertura e emergência de movimento.
criar aquilo que cria movimento. criar o que cria desejo. criar o que cria aberturas.
incluir na vida toda a potência do corpo, toda a potência do seu saber, e toda a potência do seu desejo, dos seus diversíssimos desejos.
compreender a vida sensualmente, compreender a vida socialmente.
viver na presença de todo o padrão poético.
continuar a fazer leituras do mundo, leituras criadoras do mundo, e criadoras de sentido.
dar sentido ao estar aqui. um estar aqui cheio. o que implica necessariamente cheio de troca e de partilha.
- Vera Mantero
Nota do Editor – Portal Splish Splash
Um quarto de século depois, esta criação de Vera Mantero lembra-nos que a arte não envelhece quando nasce de perguntas essenciais. Pelo contrário: amadurece connosco. “Um Estar Aqui Cheio” não é apenas um espetáculo recuperado; é uma oportunidade rara de revisitar um momento decisivo da criação contemporânea portuguesa e de nos perguntarmos, com honestidade, o que nos move hoje.
Vera Mantero apresenta no CCB uma criação rara com elenco original
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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