Vim, vi e fiquei: a história de Samy Cardoso em Portugal

Entrevista com Samy Cardoso, brasileira que imigrou para Portugal, sobre desafios, preconceito, superação e o papel da comunidade lusófona.
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De Saracuruna a Gaia: coragem, tesoura e identidade

Samy Cardoso fala sobre imigração, desafios, reinvenção e comunidade em Portugal

"Imigrar não é fugir: é escolher recomeçar sem pedir licença"
Vímara Porto

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Samy Cardoso no seu "Fada Madrinha dos Cabelos".
A cabeleireira Samy Cardoso, natural de Saracuruna, segundo maior bairro da cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, deixou a vida estável e confortável no Brasil para se aventurar em terras portuguesas. Divertida e determinada, Samy chama atenção não só pelo seu talento como profissional de beleza, mas também por exercer um "serviço de utilidade pública", interligando trabalhadores de diferentes ramos na comunidade lusófona no eixo Gaia/Porto, cidades do norte de Portugal.

Em sua conta pessoal no Instagram, com mais de 30 mil seguidores, ela aborda temas polêmicos e atuais como: Mounjaro, mulheres que são trocadas por homens, vida de imigrante, saúde mental e outros inúmeros tópicos, tudo apresentado com bom humor e ironia.

Entre uma esticada e outra na cabeleira da fiel cliente lusitana Lizandra, a “Fada Madrinha dos cabelos” (como é afetuosamente chamada por muitos clientes) conversa com a repórter do Portal Luso-Brasileiro Splish Splash sobre os "sabores e dissabores" de imigrar para Portugal.


 

PSS – Por que Portugal para morar, em meio a tantos outros países?

SC: Porque conheci um português na Internet, o Bruno. Cheguei, fiquei seis meses morando em um quarto para nos conhecermos melhor e, logo depois, casei com o Bruno. Infelizmente, após dois anos e meio de casamento, nos separamos.

PSS – Quando disse que iria imigrar, recebeu muito incentivo dos amigos e familiares?

SC: Foi uma surpresa, porque eu não contei para quase ninguém. Só dias antes da viagem falei para uma prima, que ficou responsável pela administração da minha casa e outras questões. Agora, quando cheguei aqui e contei para os amigos e familiares, pronto! O povo começou a me chamar de louca, dizendo que eu ia ver, perguntando o que eu tinha na cabeça para largar uma vida estruturada no Brasil para viver um "sonho"?!

PSS – Seu objetivo principal, que foi o casamento, terminou não dando certo. Pensou em retornar para o Brasil no fim da união?

SC: De jeito nenhum! Vim com a ideia de dar certo com marido ou sem marido. Agora, atenção: não vim com um português me bancando. Eu paguei minha passagem, meu quarto. Trabalhei duro. O Bruno foi realmente um facilitador para as questões legais, mas financeiramente eu sempre me banquei. Aliás, nosso casamento foi uma troca muito positiva para os dois lados. Eu ajudei também o Bruno a crescer, a tirar carta de motorista, a estudar para conseguir um emprego melhor. O incentivo sempre foi muito da minha parte para o meu ex-marido. Somos muito amigos.

PSS – O pior perrengue passado na terra de Dom Afonso Henriques?

SC: Trabalhei três meses em um café onde fui assediada pelo proprietário, sofri xenofobia, racismo, fui agredida pela mulher do dono e ainda não me pagaram o último mês.

PSS – Por que você aguentou tudo isso por tanto tempo?

SC: Porque sou imigrante, né, "Baby"? A gente, quando chega, pega o que tem para pagar as contas. As economias em reais que trazemos do Brasil chegam aqui e, com a conversão para o euro, somem!

PSS – Uma situação com uma pessoa lusa que tenha "derretido" seu coração?

SC: Queria trazer meu irmão para morar em Portugal, então tinha dois trabalhos em duas fábricas diferentes. Trabalhava umas 14 horas por dia. Em uma das fábricas, a supervisora brasileira achou que eu não estava produzindo bem e queria me mandar embora. Três portuguesas se uniram dizendo para a supervisora que ela não podia me botar para fora, me deram dicas de como ser mais rápida, me ajudaram em tudo o que precisava na fábrica, me incentivaram. Foi muito lindo como a Glória, a Conceição e a Carla me defenderam. Consegui trazer meu irmão e, mais tarde, comprei minha primeira chapinha profissional para voltar a trabalhar como cabeleireira em Portugal. Ah! A Carla, uma das minhas "anjas" na fábrica, até hoje é muito amiga e foi minha madrinha de casamento.
 
Bandeja com chá e bolachas é servido no Samy Cardoso Beauty.
 
PSS – O que não gosta e o que gosta na Lusitânia?

SC: O que não gosto é a incitação que algumas pessoas fazem para colocar os portugueses contra nós, brasileiros. O que gosto é a segurança e a qualidade de vida.

PSS – Caso pudesse votar nessa segunda rodada das eleições presidenciais em Portugal, em quem votaria: Ventura ou Seguro?

SC: Seguro que no Seguro! "Adolf" Ventura, NUNCA!

PSS – Na comunidade lusófona em Porto e Gaia, você é uma daquelas personagens de "utilidade pública". Se alguém precisa de uma médica, um dentista, uma profissional para renovar o botox, um instrutor de condução etc., Samy indica. Consegue dormir com tanta gente à sua procura?

SC: À noite, desligo o telefone para poder dormir. Pela manhã, respondo às mensagens com muito carinho e atenção. Gosto da confiança que as pessoas depositam em mim e adoro indicar coisas, serviços e profissionais bons.

PSS – Pretende retornar ao Brasil para morar ou quer fazer de Portugal o seu "porto seguro"?

SC: Definitivamente a segunda opção.

PSS – Obrigada!

SC: Beijinhos.

Assista a um reel de Samy no tabuleiro superior da Ponte Luís I (Gaia–Porto)

Samy Cardoso Beauty
Rua da Rasa, 324, Gaia/Portugal
Contato: +351 936 303 276

Contas no Instagram:
samycardoso_beauty
samy_cardososc

Revisor Editorial:
Osvaldo Bispo

Nota do Editor – Portal Splish Splash
Histórias como a de Samy Cardoso lembram que a imigração não é feita apenas de números ou estatísticas, mas de pessoas reais, escolhas difíceis e redes de apoio que salvam trajetórias.
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