Um romance cru sobre violência institucional, exclusão social e redenção possível nas margens de São Paulo
Nem todo tubarão nasce predador; muitos são empurrados para o fundo antes de aprender a nadar
"Quando o Estado falha, o disparo não atinge só um corpo, atinge um futuro inteiro"
Vímara Porto
Quando um tiro muda tudo, não há metáfora que atenue o estrondo social que se segue. O Tubarão da Berrini, de Marcos Moreira Clementino, entra nesse território sem pedir licença e sem luvas. É um romance que olha de frente para a engrenagem que esmaga jovens periféricos no Brasil urbano, usando São Paulo como palco e síntese de um país onde o acaso do nascimento costuma decidir o destino antes mesmo da primeira escolha consciente.
A história de Marcolino começa cedo demais com marcas que ninguém devia carregar na infância: crises asmáticas, humilhações, medo e uma violência que se infiltra no quotidiano como se fosse normal. Clementino constrói esse percurso com um realismo seco, quase documental, mostrando como a ausência do Estado, o racismo estrutural e a pressão do crime organizado não são abstrações sociológicas, mas forças concretas que empurram adolescentes para becos sem saída. Não há romantização da marginalidade, mas também não há simplificação moral: o livro prefere incomodar a explicar demais.
O ponto de rutura surge aos 16 anos, num assalto mal-sucedido na região da Berrini. O disparo de um policial encerra uma etapa e inaugura outra ainda mais dura: Marcolino fica paraplégico. A partir daí, o romance mergulha numa dimensão espiritual e psicológica que foge ao lugar-comum. Fé, culpa, revolta e desejo de sobrevivência convivem num corpo imobilizado, enquanto a memória do que foi e do que poderia ter sido insiste em não se calar. A cena do tiro, brutal e simbólica, expõe a lógica de extermínio travestida de discurso de ordem, onde vidas são reduzidas a estatística e sarcasmo fardado.
A metáfora do tubarão atravessa toda a narrativa com inteligência. Marcolino é visto como essa criatura temida e solitária, poderosa em potencial, mas condenada a viver nas profundezas. A simbologia acompanha a sua transformação: após a passagem pela FEBEM e anos de reconstrução interior, ele ressurge como empresário e retorna à Berrini, agora do outro lado do vidro. O contraste é forte e deliberado, servindo para questionar quem define o valor de uma vida e em que momento a sociedade decide chamar alguém de cidadão ou de alvo.
O próprio autor assume o tom da obra sem rodeios. Marcos Clementino escreve para provocar reflexão, não para alimentar trincheiras ideológicas. A violência institucional, a hipocrisia religiosa e a falência das políticas públicas aparecem como temas centrais, tratados sem panfletarismo, mas com uma honestidade que dói. O resultado é um romance que incomoda porque reconhece o óbvio que muitos preferem ignorar: o Brasil desperdiça talentos em escala industrial e depois finge surpresa com as consequências.
No conjunto, O Tubarão da Berrini é menos uma história de redenção individual e mais um espelho coletivo. Um mergulho num oceano turvo onde humanidade e brutalidade coexistem, lembrando que muitos dos “tubarões” abatidos pelo sistema poderiam ter sido líderes, artistas ou inovadores. A pergunta que fica não é literária, é política e moral: até quando vamos aceitar que a corrente leve sempre os mesmos para o fundo?
Sobre o autor:Marcos Moreira Clementino é jornalista, escritor e empresário. Construiu carreira marcada por reportagens internacionais, incluindo coberturas na Faixa de Gaza e nos ataques terroristas de 2015 em Paris. Foi finalista do Walkley Awards de melhor cobertura investigativa, em New South Wales. Reconhecido por sua atuação social, recebeu o Troféu Periferia e, atualmente, é articulista do portal Brasil Confidencial. Também é autor dos livros Paris, Sexta-Feira 13 e Olho Vivo, Faro Fino. Instagram -
*Nota do Editor – Portal Splish Splash*
Há livros que não pedem concordância, pedem atenção. O Tubarão da Berrini não é confortável, nem pretende ser; é um soco narrativo que obriga o leitor a rever certezas fáceis sobre culpa, mérito e justiça num país onde o gatilho costuma falar antes da escuta.
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Um romance cru sobre violência institucional, exclusão social e redenção possível nas margens de São Paulo
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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