Comfort food: a força dos clássicos na gastronomia brasileira

A comfort food valoriza pratos clássicos da gastronomia brasileira, unindo memória afetiva, simplicidade técnica e sabores que atravessam gerações.
 Pratos clássicos da gastronomia brasileira associados à comfort food


Entre memória, simplicidade e afeto, os sabores que resistem às modas 


Há pratos que alimentam o corpo e outros que alimentam a memória


Num tempo em que a gastronomia parece competir consigo própria em técnicas cada vez mais radicais e apresentações milimetricamente pensadas para o Instagram, a comfort food surge quase como um acto de resistência. Não grita, não inventa nomes estranhos, não pede manual de instruções. Limita-se a fazer aquilo que sempre fez bem: confortar.

A chamada “comida de conforto” não vive apenas do sabor. Vive da memória. Do cheiro que atravessa décadas, da textura que remete para a cozinha da avó, do prato simples que não precisa de explicação porque fala directamente com o paladar e com o coração. É uma gastronomia emocional, que dispensa sofisticações excessivas para celebrar o que é caseiro, familiar e honesto.

A gastronomia brasileira como território natural do conforto
Poucas cozinhas no mundo são tão naturalmente compatíveis com a comfort food como a brasileira. A sua diversidade regional, construída a partir de influências indígenas, africanas e europeias, criou um repertório vastíssimo de pratos que contam histórias de família, de território e de infância.

Arroz com feijão, bolo de fubá, canjica, angu ou cuscuz não são apenas receitas. São rituais quotidianos, presentes em mesas de norte a sul, que resistem às modas gastronómicas porque cumprem uma função essencial: alimentar e acolher. Cada região, cada casa, tem a sua própria comida de conforto — aquela que sabe “a casa” e que dificilmente é replicada fora desse contexto.

Curiosamente, enquanto no dia-a-dia se procura esse conforto simples, muitos chefs da alta gastronomia têm voltado o olhar para esses mesmos clássicos. Reinterpretam-nos, refinam técnicas, ajustam texturas, mas mantêm a essência. Não por nostalgia vazia, mas por respeito a uma herança que continua viva.

O milho como pilar da identidade alimentar
Se há um ingrediente que atravessa essa memória colectiva brasileira, esse ingrediente é o milho. Presente desde as civilizações indígenas, o milho é mais do que um alimento: é símbolo de terra, de abundância e de continuidade cultural em toda a América Latina.

Cozido, transformado em farinha, fubá ou canjica, o milho aparece em pratos doces e salgados que fazem parte do imaginário afectivo de várias gerações. Pamonha, bolo de fubá, cuscuz, angu ou canjica ocupam um lugar especial na mesa, sobretudo nos encontros familiares e nos almoços de domingo.

Ao lado do arroz e do feijão, acompanhamentos cremosos como o tradicional creme de milho revelam bem essa procura por sabores e texturas que “abraçam” o paladar. São pratos que não tentam surpreender, mas sim reconfortar. E é exactamente aí que reside a sua força.

Técnica simples, emoção complexa
A comfort food funciona porque activa algo que vai além do gosto. O aroma de um bolo de milho acabado de sair do forno, por exemplo, desencadeia reacções no hipocampo, a área do cérebro ligada às memórias e às emoções. É ciência, não romantismo barato.

Ao recorrer a ingredientes frescos e a técnicas transmitidas de geração em geração, esses pratos mantêm uma autenticidade que dificilmente pode ser replicada por produções industriais ou soluções rápidas. A simplicidade técnica, longe de ser uma limitação, é o veículo do afecto.

Num mundo acelerado e muitas vezes artificial, a comida que respeita o tempo, a memória e a tradição continua a ter um poder imbatível. E, convenhamos, nenhum prato desconstruído consegue competir com o sabor de uma boa recordação.

Nota do Editor – Portal Splish Splash
Num cenário gastronómico cada vez mais dominado por modas passageiras, a comfort food lembra-nos que o essencial continua a ser aquilo que nos faz sentir bem. Simples, honesta e emocionalmente poderosa, a comida de conforto não precisa de palco — basta-lhe a mesa.
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